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terça-feira, 27 de setembro de 2011

O que rolou no XV Encontro SOCINE 2011 - UFRJ?!

Resolvi compartilhar por aqui, algumas das apresentações que assisti, com alguns comentários e inquietações.  Foi muito importante participar desse evento para entender melhor como funcionam os GTs, e quem sabe no ano que vem, estarei lá novamente, apresentando alguma parte da minha pesquisa!! 

Achei o evento um pouco desorganizado (ninguém sabia dar informações corretamente), muitas mesas começavam atrasadas e MUITAS pessoas leram textos com linguagem completamente acadêmica (raras exceções), dificultando a compreensão e reduzindo as possibilidades de discussão. As apresentações às vezes contavam com mais participantes do que ouvintes. Houve pouco espaço pra discussão aberta e infelizmente as mesas sobre educação e cinema foram marcadas todas no mesmo horário, então tive que priorizar algumas, sem poder participar de todas as outras. Pareceu-me um evento fechado, com pouca divulgação e preocupado meramente com publicações oficiais, que irão rechear o currículo de quem apresentou, sem a menor preocupação em compartilhar tudo isso com a sociedade, afinal muitos desses estudos são financiados pelas universidades públicas, ou seja, pela população.

Ao mesmo tempo, sei que foi um evento que começou pequeno e foi crescendo, ainda deixando a desejar, mas mostrando alguns avanços.

A área de pesquisa em cinema e audiovisual ainda é pouco reconhecida, então é super importante compartilhar trabalhos, discutí-los e lutar por reconhecimento. 

Seguem então, alguns dos trabalhos, com foco maior nas pesquisas relacionadas à cinema e educação!

20/09/11 - Conferência de Abertura com Laura Mulvey – apresentada por Ismail Xavier

Título: Teoria do cinema feminista em tempos de mudança tecnológica: novas formas de espectatorialidade

Houve uma mudança acentuada no significado psicanalítico do espectador de cinema entre a era da película projetada no escuro a 24 quadros por segundo e a atual era digital. Nesta palestra Laura volta-se aos filmes do sistema de estúdios de Hollywood para discutir as maneiras pelas quais a capacidade do espectador de intervir no fluxo dos filmes tem afetado o desejo, a narrativa e o espetáculo cinematográficos. Uma reflexão sobre a mudança da “paisagem espectatorial” e suas implicações para as teorias do espectador.

Comentário: A conferência tinha tradução simultânea (cada pessoa usava um aparelho com fones), que em diversos momentos pecou na tradução, com demora para articular as falas e idéias de Laura. Ela iniciou sua fala sobre ‘prazer visual e cinema narrativo’, associando o tema do encontro este ano “Imaginários invisíveis” aos clichês (mulher-objeto; homem-herói), sendo possível encontrar algo de precioso, a partir das novas tecnologias disponíveis. (retardar e acelerar da imagem e interferência do espectador com o ‘poder do controle’) Laura disse que suas teorias escritas até então, perderam a relevância diante dessas novas tecnologias. É possível ver algo de performático, congelando uma imagem, como ela demonstra com Marilyn Monroe no filme “Os homens preferem as loiras” (1953), ao mesmo tempo, esse poder do espectador de controlar a velocidade da imagem, revelando uma outra figura e ação masculina, enfraquecendo o fluxo narrativo. Ela diz que o cinema de 24 quadros por segundo, não previa essa capacidade de controlar a imagem, revelando precisões que muitos mecanismos escondiam nas performances dos atores e atrizes.

21/09/11 – Sessões de comunicações individuais

Alunos fazendo e estudando cinema

Alita Villas Boas de Sá Rego (coordenadora) - Laborav: Audiovisual e colaboração na Periferia do Rio de Janeiro

Comentário: Alita inicia sua fala, colocando a situação dos estudantes de periferias, que não freqüentam o cinema, e são espectadores de televisão aberta, e às vezes dos DVDs piratas que circulam nas comunidades. Com a idéia de montar um cineclube, percebeu que sem formação de platéia, as salas ficavam vazias. Montou então o LABORAV (sua fonte de pesquisa), dispositivo para produção, projeto de extensão onde os alunos de graduação de baixa renda de Caxias – Baixada Fluminense (?), produzem vídeos (sem interferência de técnicos) com temas, como medo ou filmam com um plano só. O curso de pedagogia tem uma estrutura completa montada, com webtv, rádio, etc. Os alunos criaram programas como “Quem cala, consente”, onde entrevistam estátuas, e o “Voz Urbana”, onde a câmera filma um palanque onde as pessoas falam o que quiserem. Ela também constatou, que é natural a reprodução de clichês nas produções dos alunos, ainda que tenham abertura e oportunidade de fazer o que quiserem. E agora, com o projeto consolidado, o cineclube já tem platéia e grupos de estudos teóricos.

Mariana Porto de Queiroz - Escola engenho: criação de uma escola de cinema pra crianças no Recife

Comentário: Mariana inscreveu seu projeto num edital do estado e sendo aprovado, iniciou seus trabalhos numa escola de cinema, que acabou se ampliando com o passar do tempo. Seu público são 20 crianças de 6 a 12 anos da periferia do Recife, que não vão ao cinema (equivalente a fala de Alita) A idéia era formação de platéia, para implementar cineclube e ampliar o repertório dos alunos, e formando vínculo com a comunidade. Ela chamou 6 realizadores de audiovisual (foco na prática) para colaborar com a formação dos alunos, sem terem qualquer experiência pedagógica, tendo que adaptar suas metodologias para aquele contexto. Os oficineiros tem aulas e diários, como forma de debaterem sobre sua própria formação e experiência com os alunos, procurando sempre melhorias. Também falou do uso de clichês e a tentativa do grupo de libertar a criatividade dos alunos. Comentou ainda do choque cultural entre os oficineiros e alunos, com visões e realidades tão diferentes, onde a escola passou a aceitar o que eles traziam, trabalhando em cima desse repertório. Os alunos tem alunas de técnicas, mas também der discussões, fazendo visitas em museus, intervenções na comunidade, projeções nas ruas, além de trabalhos para estimular a concetração e valores importantes no mundo cinematográfico. O projeto então tem esse aspecto de transformação social, envolvendo toda comunidade. Uma das bases teóricas vem de Deleuze, onde a experimentação é uma forma de adquirir conhecimento, aprendendo com os erros.

Marcos Magalhães - Animação espontânea – Criação e aprendizado na linguagem de animação.

Comentário: Marcos focou sua apresentação na relação da história da animação com o cinema, mostrando diversas experimentações suas e de outros. Deu aula no curso de Design, que tem como ponto em comum com a animação, a manipulação do que está entre imagens. Desde o princípio da humanidade, havia uma tentativa de dar movimento aos desenhos, com a arte rupestre, na tentativa de contar uma história. Foi a animação que originou o cinema, mas com o tempo, ocorreu um deslocamento entre os dois, como se fossem coisas diferentes. Ele cita dois tipos de animação, “contínua” (um desenho depois do outro) e “com posições chaves” (ação gradativa). Marcos trabalha no Animamundi (existe há 10 anos) e oferece oficinas, onde ajuda na formação de professores e uso da animação em sala de aula com crianças. E com o debate aberto, mais uma vez foi dito que o contato com audiovisual promove transformações sociais, onde a ênfase deve ser na prática, valorizando a experimentação e a capacidade de sair do lugar-comum.

Alexandre Buccini - Cinema na Escola - A hora dos alunos “fazerem” cinema documentário

Comentário: Alexandre é professor de universidade e de geografia no Ensino Médio de uma escola de classe alta de São Paulo. Ele sabe que há estudos sobre o uso de cinema, mas encontrou poucas referências com foco na prática. (cinema como linguagem) Sua curiosidade em saber qual é a formação do público de classe alta, originou sua pesquisa de doutorado. Percebeu que os alunos tinham uma visão de mundo muito conservadora (homofobia, exclusão social) e um equivocado julgamento do seu próprio contexto histórico. Iniciou um projeto na disciplina de geografia, com produção de documentário, feita pelos alunos, com exibição no festival da escola no final do ano. E diz que esse pensamento conservador passou a ser desconstruído na medida em que os alunos precisavam pesquisar e entrar em contato com os temas dos documentários.

Painéis

Imaginário e alteridade

Aldenira Mota do Nascimento - CINEMA E EDUCAÇÃO: uma reflexão sobre a produção audiovisual na escola

Comentário: Aldenira é professora assistente (acompanhamento de escola em tempo integral) de uma escola particular do Rio e trabalha com o 8º ano. Com a rivalidade entre os alunos, buscou no cinema uma forma de promover discussões em temas como democracia. Ela não tinha formação e faltava equipamento, mas buscou parceiros e técnicos para ajudar no seu projeto. Tem como referência Alain Bergala, Rosália Duarte e Mônica Fantin. Ela exibiu um vídeo de seus alunos e percebi que não há critério estético com suas produções. Plano parado, sem composição, representação equivalente ao teatro (de mentirinha). Essa experiência é seu ponto de partida da pesquisa de mestrado.

Anderson Silva Vieira - Timor-Leste, cinema e a invenção do Nós

Comentário: O tema não me interessa muito, mas Anderson falou de como o Timor-Leste tem utilizado o audiovisual por uma busca de identidade, na tentativa de resgatar sua história. O uso de documentário é o mais freqüente, e a estrutura ainda é carente. O público consumidor de cinema ainda está em formação.
   
Mirian Ou - O filme-família, Hollywood e o imaginário internacional-popular

Comentário: Mirian tem como foco de pesquisa, filmes-família, que tem o objetivo de atingir um público amplo. Percebeu que os filmes-família são os que ocupam as posições de maior bilheteria. Senti falta de ela falar sobre a narrativa clássica hollywoodiana associado ao lúdico. Ela listou algumas características dos filmes-família que se apresentam justamente nessa relação. Personagens-animais, universos fantasiosos, imagem família (dois adultos e duas crianças), etc. Ela também comentou que são filmes que se projetam para outras áreas do mercado. Também senti falta de ela comentar sobre narrativa transmídia, que não é exatamente o caso, mas tem foco na continuidade do produto cinematográfico.

Seminários temáticos

TV: formas audiovisuais de ficção e documentário

Beatriz Becker - No Estranho Planeta dos Seres Audiovisuais: TV e Educação

Comentário: Beatriz inicia sua fala com a recorrência de discursos que subestimam o repertório e potencial dos alunos. A pergunta “Como a educação pode compreender a mídia e viceversa?” levou-a a um estudo de caso do programa “No Estranho Planeta dos Seres Audiovisuais”, com direção de Cao Hambúrguer, com duração de 16 episódios na TV FUTURA. Em parceria com outro pesquisador, apresentaram sua pesquisa em forma de um pequeno documentário, buscando fazer uma leitura crítica a partir da narrativa, temática, som, edição, etc. O documentário apresenta comentários críticos a partir de exemplos mostrados. Eles acreditam que o programa ajuda a desconstruir os códigos de linguagem da televisão, além de técnicas de animação, mistura personagens fictícios e entrevistas com profissionais da área do cinema e do audiovisual. Apelam para o cômico, ‘brincando’ com a idéia de um espectador passivo, retratada de forma ‘caricaturizada’. E a partir desta leitura crítica, conclui que a TV é sim um espaço de aprendizagem, utilizando este programa como exemplo.

Sessões de comunicações individuais

TECNO-LOGIAS

Maria Helena Braga e Vaz da Costa - Cinema, Tecnologia, Arte: Uma visão crítica sobre a cor no cinema

Comentário: Mª Helena é do Rio Grande do Norte e iniciou sua fala fazendo um mapeamento sobra a introdução das tecnologias no cinema, com foco específico sobre a cor. Ela disse que a cor no cinema, causou impactos econômicos e sociais. Apresentou 4 principais teorias sobre a introdução da cor nos filmes, com as seguintes justificativas (resumo meu): 1. Uso da cor para dar um senso maior de realidade; 2. Para aumentar a possibilidade de criação de novos gêneros; 3. Uma nova forma de lucrar, atraindo o público; 4. Potencializar efeitos dramáticos. E em seguida, ela apresenta suas contraposições: 1. A cor quando introduzida foi utilizada muito mais para experimentos estéticos não-realistas; Ela diz que quando o som surgiu, imediatamente os modos de fazer filmes foram interrompidos e inovados, mas com a introdução da cor, demorou certo tempo para ser incorporada. Somente assumiu ‘seu posto’ na década de 60, para competir com a TV a cores. E a cor era muito associada à fantasia. 2. Mª Helena mostrou um trecho do filme preto&branco ‘Jezebel’ (1938), para exemplificar o uso do contraste claro/escuro (debutante que utiliza vestido ‘vermelho’, se destacando das demais) já incorporado antes da utilização da cor. O realismo não estaria associado a presença da cor, pois outros elementos cumpriam esse papel. 4. Ela nos mostra um trecho de ‘Um corpo que cai’ (1964) com utilização da cor na parede associada ao personagem e ‘Marnie’ (1964) (os dois de Hitchcock) close na bolsa branca da personagem cleptomaníaca. Com isto, ela diz que a cor destaca também elementos, além dos efeitos dramáticos. O filme preto&branco passa a ser uma opção estética, assim como foi os filmes mudos. Ex.: “A lista de Schindler”, ausência da cor para contextualizar um momento histórico, mas uso do vestido vermelho para efeito dramático e deixar o espectador atento.
Mª Helena diz que a adoção de uma nova tecnologia sempre proporciona novos experimentos. E lembra que nos anos 80 foi muito comum colorizar filmes realizados em preto&branco para atrair o público a assistir filmes antigos. Eu coloco a questão do cinema 3D de alta resolução como um terceiro grande marco, e a mesa (outros participantes) acham possível que seja, mas ‘é ver para crer’! Diferente da som, a cor foi melhor aceita por apontar maiores possibilidades de criação e experimentação.

22/09/11 – Mesas temáticas

Ajudando a dar rosto ao futuro: o cinema como espaço de reflexão e transformação

Maria Cristina Miranda da Silva - Cinema e educação - uma experiência de reinvenção

Comentário: Maria comenta sobre a pedagogia godardiana, considerando o cinema como experiência artística, espaço de aprendizado e contribuição para formação de professor. Traz inquietações como “Como ensinar cinema?”; “Como fazer cinema como arte?”; “Como trabalhar o gosto pelo cinema de arte”. Ela cita Godard, que acredita na necessidade de ‘despertar o olhar’ do espectador. E gostar de cinema,  já seria uma forma de aprender a  fazer cinema. Ele diz que aprendeu muito assistindo filmes na sua juventude e isso o ajudou em suas criações fílmicas. Com isto, Maria ressalta a importância de cinematecas (acervos) e dos cineclubes (espaço de exibição e discussão de filmes) e acredita no cinema como instância educativa, sendo a linguagem audiovisual (cinema ampliado) de extrema importância nas escolas. Ela apresenta alguns pontos para pensar o cinema hoje: 1. Considerar o primeiro cinema e sua relação com o cinema de atrações e espetáculos, através de re-criações. 2. Considerar o cinema narrativo clássico (Griffith) como forma de espetáculo de massa e pensar nas possibilidades diferentes das narrativas. 3. União do cinema e das novas tecnologias (ex.: livecinema) e o artista que reinventa a arte. (Arlindo Machado) Ela cita novamente Godard, sobre aquilo que é visível no cinema e o invisível que é visto através do visível. Para isso é preciso um olhar sensível, como espectador e realizador, no contexto educativo, um ensinar a aprender, ampliar o campo de visão, descrever com a câmera, inverter teoria-prática para uma prática-teoria. No campo da educação é preciso estimular a decupagem das imagens, além da busca em experimentar e reinventar o cinema.

José de Sousa Miguel Lopes - O Conformista: conflitos políticos e morais sob o manto do autoritarismo

Comentário: Esta apresentação não me interessou muito, mas algumas colocações foram pertinentes. José discursou sobre o filme “O conformista” e falou sobre o uso do cinema, de filmes como alegorias políticas. Diz que a educação deve contribuir para a autonomia do sujeito de decidir o rumo de sua vida. (Emancipação de Kant?) E que qualquer autoritarismo aniquila qualquer possibilidade de autonomia.
  
Selma Tavares Rebello – O Debate no Cineclube da UFRJ numa Perspectiva de Releitura da Prática

Comentário: Selma fala da importância do Cineclube (aprendizagem não-formal), que é um espaço que possibilita contato com a arte e discussão a partir de questionamentos e inquietações sobre o filme, e que a partir dele (experiência na UFRJ com foco em alunos da Pedagogia e da graduação em geral), com temáticas sobre educação, é possível provocar releituras na prática pedagógica e leituras críticas dos filmes. Para o debate ser ainda mais rico, o cineclube conta com a presença de professores e cineastas e suas respectivas contribuições. Ela considera a arte uma ‘forma de representar os sentimentos do mundo’, não pretende ensinar nada, mas apresentar. Considerando o espaço único e limitado, os critérios de escolha dos filmes é rigoroso, com foco em filmes que fogem do padrão comercial. Ela traz as seguintes inquietações “É possível mudar alguma visão de mundo a partir da prática de ver filmes?!”; Ou ainda, “promover notas leituras sobre educação?”; “O que fazemos? Para quê e para quem?! Neste sentido, é importante impregnar no pensamento pedagógico a arte, experiência dos sentidos, o olhar do outro a partir do nosso e entender o espaço do cineclube, como um lugar para o ato criativo. Ela cita suas referências (Alain Bergala, Rosália Duarte, Ismail Xavier, Arlindo Machado e Bordieu) e diz que a competência para ver filmes não se restringe em apenas assistir filmes, é preciso discuti-los, problematizá-los.

Debate: Após as apresentações, foi iniciado um debate a partir das questões dos participantes ouvintes. E José diz que ‘ver um filme e não discuti-lo é destruir todo seu potencial educativo’. Todos os três defenderam a exclusão do cinema comercial em sala de aula ou nos cineclubes, para valorizar o tempo com obras artísticas, privilegiando a diversidade, a partir de filmes de pouco e difícil acesso. Eu me pergunto se isso não é um certo autoritarismo, impor somente um determinado tipo de cinema para contrapor com o repertório supostamente já formado com cinema comercial, contradizendo a fala anterior de José. Ele também comenta sobre o professor-herói caracterizado nos filmes hollywoodianos, em contraste com o professor do filme “Entre os muros da escola”. Falou que o cinema hollywoodiano não é a mesma coisa que cinema norte-americano. Foi aí que levantei a seguinte questão: “Se no espaço da escola só se deve discutir um ‘outro’ cinema, qual seria então o espaço para discutir o repertório que eles já carregam?! Apresentar um ‘outro’ cinema é suficiente para dar conta?! Não deveria haver discussão nos dois casos, ressaltando justamente as diferenças?!’ Como julgar um filme de arte?! Como aproveitar o repertório?! Porque exibir só o que é de vanguarda?! Não existe uma questão de gosto também, muito pessoal?! Um ver ‘além’ não se aplica a qualquer pessoa, pois nem todos dos filmes permitem ‘ver’ além, só por se pretenderem para tal, vai depender da experiência pessoal e relação de cada pessoa com o filme.

Seminários temáticos

TV: formas audiovisuais de ficção e documentário

Arlindo Ribeiro Machado Neto - A Morte da Televisão segundo Lost

Comentário: Arlindo exemplificou características e desdobramentos do seriado Lost como uma forma de narrativa transmídia bem sucedida na televisão. (Partindo do conceito de Henry Jenkins, que exemplificou ‘Matrix’ no caso do cinema). Lost revolucionou a forma de se fazer televisão, criando espaços parelelos à narrativa seriada, como jogos, enigmas para serem desvendados em pistas espalhadas em programações, cartazes, produtos, etc. Nesse sentido, interromper uma temporada, não significava o desligamento temporário dos fãs, durante o período de pausa, as experiências e enigmas continuavam. Tudo isso provoca uma excitação, uma atração, para um espectador que se recusa a ser passivo e passa a ser ativo e participante. Como o próprio Jenkis diz, tudo isso tem uma relação com mercado e marketing, mas é um fenômeno que fez a TV morrer e renascer de uma outra forma.

Eduardo Tulio Baggio e João Carlos Massarolo também fizeram apresentações, mas as considerei irrelevantes diante do que já havia sido falado. Apenas destaco que a TV passa por um processo de transformação, na qual a necessidade de criação de universos se faz necessária. Universos onde o espectador possa participar ativamente, produzir e consumir conhecimento e informação.

No contexto brasileiro, Arlindo Machado diz que a TV Globo é ainda muito conservadora, mas o programa-novelinha Malhação se apresenta como uma tentativa de narrativa transmídia, com vídeos paralelos em sites (início em 2009), opções de personalização e agora com perfis dos personagens no twitter.

23/09/11 – SESSÕES DE COMUNICAÇÕES INDIVIDUAIS

ENCONTROS ENTRE AUDIOVISUAL E DOCÊNCIA

Inês Assunção de Castro Teixeira (coordenadora) - Sob a “Câmera de Nestor Canclini”: ancoragem para encontros entre cinema e docência

Comentário: Inês é fundadora da rede Kinos e apresentou um panorama sobre o autor Canclini (vida e obras, olhar para América Latina) e citou 4 pontos de partida no contexto da educação. 1. Formação de professores com foco no estímulo às questões éticas, estéticas, poéticas, intelectuais, etc. 2. Quebra de dicotomias e pensar de forma mais experimental, típico do campo da arte, mais distante da ciência. ‘hibridização’. 3. Pensar o mundo contemporâneo para além do mundo, considerando a arte como possibilidade de iminência, deixar acontecer, deixar chegar e como possibilidade de criação do inexistente. 4. Considerar a arte como construção social, entre relações sociais, dentro de um mercado. Cidadania também envolve consumo, cabe se perguntar “Qual consumo?” Ela encerra dizendo que o cinema pode ajudar a trabalhar a sensibilidade dos professores.

Ana Paula Nunes - Metodologias de quadro a quadro

Comentário: Ana tem formação em cinema e audiovisual e participa de um projeto de extensão chamado ‘quadro a quadro’, fazendo referência ao quadro de uma sala de aula e quadro de uma sala de cinema. Ela inicia a fala, dizendo que a pesquisa sobre cinema ainda precisa de reconhecimento, pois ainda não está inserido nos currículos educacionais. (Fernão Ramos considera o cinema uma área do conhecimento). Ela diz que pouco se pensa sobre metodologias possíveis (fugindo de ‘receitas’ aplicadas na sala de aula). Falta uma normatização dessas experiências. Cita 2 linhas de pensamento, entendendo o cinema como arte e comunicação: educomunicação e  arteducação. (Mídia-educação NADA!!) Na educomunicação se considera a pedagogia da linguagem total. Na arteducação, com referência em Alain Bergala, considera o cinema como arte. Ela coloca aproximações e diferenças entre estas duas linhas de pensamento. Diz que existem longas experiências que não são sistematizadas, resultando sempre em recomeços. Cita Paulo Freire, saber como prática, onde as atividades dos alunos se baseiam em compromissos voluntários. Logo depois coloca algumas propostas. 1. 5 pistas para trabalhar o cinema, além do rádio, TV e cinema, considerando as palavras, imagens, sons (voz, ruído e música). Fala de uma aproximação com a cultura popular. 2. A partir de Bergala, outra proposta envolve uma análise criativa e crítica. Foco na percepção, intuição, criatividade, reflexão. Bergala diz que a verdadeira reflexão nasce da prática. E propõe ainda que o processo de leitura crítica se inicie com imagens fixas, para depois trabalhar as imagens móveis. Porém Ana diz que a visão de Bergala é muito radical, pois ele considera a televisão e os produtos de consumo uma ‘miséria’ e quem os utiliza em sala de aula é um ‘traidor’.

Paulo Roberto Montanaro - A transmídia e a busca de uma nova linguagem audiovisual para EaD

Comentário: Paulo contextualizou o que seria uma narrativa transmídia e disse que até agora ela só foi aplicada em bens de consumo. Sua pesquisa parte de inquietações de como aproveitar a narrativa transmídia no contexto educativo, com foco em EAD, que utiliza o audiovisual como material pedagógico e instrucional. Paula ressalta a importância de criar vídeos atrativos e dinâmicos, pois a monotonia dificulta a apreensão do conteúdo e causa desinteresse. Ele diz que os vídeos produzidos para EAD não são ficção e nem documentário, por isso é preciso formular uma nova linguagem para essa área. Cita Vygotsky para ressaltar a importância do diálogo e de alguém que pensa na educação com participação ativa. Após sua fala, comentei do Projeto do LANTEC, Eproinfo que poderia ser considerado um projeto inovador de narrativa transmídia no contexto educativo, voltado para EAD. Citei o ‘conceito’ (não sei ao certo) de estudos autônomos, que eles evocam no projeto. O projeto ainda está em construção e será implementado no Portal do Professor, para ajudá-lo a fazer uso das mídias, como usuário e professor, utilizando diversas plataformas como suporte pedagógico, como criação de blogs, pesquisa na internet, elaboração de textos, acesso à vídeos em diversos canais, etc.

PRODUÇÃO CASEIRA E RECEPÇÃO NO ESPAÇO VIRTUAL

Lígia Azevedo Diogo - Vídeos de família analógicos: a produção doméstica pré-YouTube

Comentário: Lígia faz uma apresentação sobre sua pesquisa se mestrado, relacionando imagens de família de vídeos analógicos com as produções domésticas do youtube. Comenta sobre a falta de pesquisa sobre o assunto e na despreocupação em preservar este material. Porém senti falta da relação com a história do cinema, que apresenta no início de sua história, registros familiares, hoje considerados relevantes e históricos, além de não ter falado da atual digitalização dos vídeos analógicos.

sexta-feira, 7 de agosto de 2009

Sentimento de perda

Um dia me deparei com um dilema. Um estranho dilema.
Eu estava num enterro de uma pessoa que nunca vi na minha vida. (acho eu)
Acompanhava alguém.
Eu não nutria qualquer sentimento. Não sentia nada. Talvez tentasse sentir algo. Empatia?
Qualquer dor ou sentimento de perda? Nada disso.
Era um alguém para alguém. Mas um alguém-ninguém para mim.
Observei a dor das pessoas. Poucos choravam. Talvez os filhos. Uns conhecidos.
Mas muita gente estava lá.
Aquela dor parecia tão real que me envergonhei de pensar que escolhi fazer cinema.
Fazer a tal "representação" da vida.
Como eu poderia recriar uma dor que só existe enquanto ela é real e verdadeira?
Dor que só surge nas situações limites. Nas situações reais.
Faço outra coisa, mas não isso. Recuso-me a construir esta ilusão.
Recuso-me a tentar vender essa ilusão como verdade. Mesmo que por um bem maior.
Mesmo que para tocar, atingir, transmitir... (minha verdadeira motivação pelo cinema)
Foi o que resolvi.
Então hoje...exatamente hoje, eu me deparei com outra situação.
Mesmo a dor...que me parecia tão real e verdadeira, hoje me pareceu tão forjada.
Mesmo a dor que parecia tão única, pode ser representada em vida.
Não é porque há falsidade, hipocrisia ou convenção. Nem considerei isso.
É porque é tão necessária quanto qualquer outra coisa.
Até para sentir dor, usamos "máscaras" sem nem perceber.
Se eu não chorar num velório, não estou cumprindo meu dever.
(e nem sei qual e nem porque é um dever).
Se eu não sentir dor, ou não sentir nada, devo ser estranha.
Somos pressionados até para sentir dor, mesmo quando não a sentimos.
Se eu não sofrer muito é porque não amava o suficiente.
Se eu não chorar um pouco, não me importava tanto.
Até nessa hora, tão sofrida, estamos sendo julgados.
Até nessa hora, alguém chora com um olho fechado e outro aberto observando em volta.
Nessa hora existe etiqueta, comportamento adequado, lógica e sentido. Até na hora da dor.
Talvez todos já saibam disso, talvez não. Só sei que eu me dei conta agora.
Não sei mais se a "dor" é tão real e verdadeira quanto eu imaginava.
Muitas vezes me parece algo obrigatório de se sentir.
Não havia reparado que há os que se orgulham de exibir sua dor. E quem exibe mais, vence. (não sei o que, mas parece realmente vencer algo, mesmo que para si mesmo)
Se a dor fosse tão real (e tão ruim), seria evitada. Demonstraríamos muito mais a quem amamos. Daríamos muito mais valor ao tempo e às pessoas, porque isso se torna inevitável e determinante para o sentimendo de perda e sentimento de dor.
Ou não é?

quinta-feira, 12 de março de 2009

Era uma vez uma cor vermelha.

Eu vi num curta. Gostei. Inventei.
Era uma vez uma cor vermelha.
E ela gostava da azul.
Ela combinava com a azul.
A azul foi viajar. Ela sente falta. A falta dói.
Por enquanto ela vai se distrair com amarelas, laranjas, rosas, verdes, mas nada se compara à azul.
A azul é top. É única. É perfeita.
Ela completa a cor vermelha da forma mais primária. Insubstituível.

quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

família.

Quem foi o idiota que inventou a família?

Essas pessoas estranhas que fazem parte do ciclo da vida.
As únicas a quem as palavras mais cruéis podem magoar profundamente, mas que viram pó no dia seguinte.
Um pó invisível visível.
Palavras cruéis que se colam num muro de rancores e lembranças.
Elas sempre estão lá. Junto com o perdão diário.

Pessoas sem qualquer afinidade, mas com uma única ligação: pertencer a mesma família.

Aquelas com quem compartilhamos os melhores e piores momentos.
Um montinho de gente "escolhido" por um Deus com um puta humor negro. FDP.

Pior ainda. A gente ama incondicionalmente esse montinho de gente. Saco.

Quem dera ser diferente. Quem dera os momentos compartilhados na infância não significarem tanto. Quem dera as risadas não superassem as lágrimas causadas. Quem dera as qualidades não superassem os defeitos. Quem dera ser capaz de odiar pra sempre e fechar as portas do coração. Quem dera não se importar com essas pessoas que conseguem desabar qualquer mundinho cor-de-rosa. Quem dera não ter orgulho de seus progressos. Quem dera não poder escolher a família.

Amigos não são a família que podemos escolher. A gente acha que sim. Mas nenhum amigo suportaria o que uma família suporta entre si.

Quem foi o idiota?

quinta-feira, 18 de dezembro de 2008

borboletinhas.


Eu vejo cores. Um radiante azul. Um amarelo alegre.
E outras cores indefinidas.
Eu vejo magia. As borboletinhas sorriem.
Sinto o calor da ausência de significado.
Tudo parece tão belo. Tão importante.
É suficiente.
Ontem eu acordei bem. Hoje acordei mal.
Um segundo e a paisagem colorida desaba.
Vejo escuridão. Sinto frio. Um abraço ausente gelado.
O silêncio doloroso. O vazio perturbante.
Tateio por cores. Esmago-as entre as mãos. Imploro.
Procuro esperança. Ela ainda não deu as caras.
Sinto a melodia. Deixo-me levar. Meu corpo reage.
Imploro.
Às vezes só não quero acordar.
Quero só imaginar a paisagem colorida.
Apenas imaginar.
Dói saber que ela só existe pra mim.
Dói saber que essas cores não existem. Não hoje.

Amanhã vou acordar melhor.

realidade.

Ela tem vontade de vomitar.
Ela sacia a sede da gula, mas tem vontade de vomitar.
Mas ela sabe que não consegue. Ela sabe que tem que digerir. Ela se odeia por isso.
Odeia a idéia de impotência. Odeia a idéia do fracasso.
Ela sabe que precisa suportar até a próxima crise. Sempre existe a próxima.
Um dia bom, dois dias bons, três, quatro. Um terrível.
E o desejo de se esvaziar é maior que a soma de todos os melhores dias de sua vida.
A fragilidade da sua existência pode depender de alguns segundos, de uma decisão.
Mas ela não consegue vomitar. Não aquilo que queria. Não aquilo que está enraizado nas profundezas do seu "eu". Aquilo que ela não consegue explicar, entender ou simplesmente significar. Não existem palavras. O dicionário é inútil. Ela apenas sabe que está lá.
Ela vomita as palavras, vomita sua fúria, vomita a raiva.
Seu vômito é forte, pesado, cruel.
É a mistura dos dias ruins, com "milhos" de inseguranças, frustrações e fracassos.
Todo vômito tem seu "milho". Aqueles malditos pedaços amarelos sempre presentes.
Um vômito de revolta, indignação, insatisfação.
O vômito da verdade.

Nota: nunca existe verdade. Relativo vem antes do "v". Doer antes do "r".

sábado, 26 de julho de 2008

Esgotamento mental

Oi pessoal (ou não-pessoal)!
Apesar de estarmos no mês de julho, suposto mês das férias, comecei num novo emprego: edição de audiovisuais numa produtora de vídeo. São 6 horas, mas entro e saio editando, ou pelo menos pensando em soluções, pesquisando trilhas, fazendo ajustes ou estudando outros materiais audiovisuais.
Pode não ser diretamente associado ao cinema, mas aplico muito conhecimento teórico e estético adquirido com a experiência pessoal e acadêmica tanto em cinema como em design.
É um trabalho que abrange eventos em geral, como aniversários infantis, adolescentes (15 anos), casamentos, programas de televisão e alguns projetos individuais.
O trabalho de edição requer concentração, criação, técnica, solução, pesquisa, iniciativa, ajustes, aperfeiçoamento, efeitos, prática. É cansativo, mas prazeroso!
Ganha-se de uma forma, perde-se de outra. Digo isto porque conseqüentemente influenciou minhas escolhas recentes de filmes. O trabalho exige muito da mente e até do corpo e por isso causa um certo esgotamento mental.
Quando chego em casa (férias?), só tenho vontade de ver aquilo que não cansará ainda mais minha mente, pois um filme mais profundo, filósofico, poético, alternativo remete a reflexão, concentração ou exige um esforço mental maior para algum tipo de compreensão ou entendimento.
Ou seja, tenho optado por filmes "comerciais": filmes de entretenimento, filmes de massa, sucessos de bilheteria, lançamentos recentes, programação do cinema local. Aqueles que se propõem a no mínimo entreter.
São filmes que não exigem muito da mente, mas nos arrancam boas risadas, algumas lágrimas, raras reflexões, certos vazios...mas relaxam, divertem, comovem, e servem de razão para um programa coletivo de múltiplos gostos. Afinal não somos perfeitos e iguais, certo?!
Talvez não seja um cinema exemplar, aina mais para um acadêmico de cinema, mas admito: fico na torcida, porque na vida precisamos de algumas "fugas saudáveis".
Manifesto a favor do cinema comercial? Não tanto, mas acredito que há lugar para todas as manifestações audiovisuais.
Apelando para um romantismo superficial:
Que nossa vida não seja completada apenas por um cinema conceitual e profundo...
Que existam filmes tolos, românticos, engraçados, que possam nos entreter e descansar nossas mentes, quando tudo que precisamos é fugir um pouco de nós mesmos e das nossas metas, determinações, crenças e valores...mesmo que seja por apenas 2 horas! =)

quarta-feira, 9 de janeiro de 2008

Batatinhas

Os três estavam reunidos em um barzinho legal pra “bebemorar” alguma coisa qualquer. Degustavam um bom chopp gelado e debatiam sobre vários assuntos, nada muito importante. João era o que mais falava e menos ouvia, seguido de Alice que tagarelava e gesticulava sem parar, fumando quase todos os cigarros do seu maço amassado de Malboro light. (light porque ela estava “tentando” parar). Danilo apenas observava e fazia colocações quando requisitado. Danilo, o ingênuo “caçula” dos três amigos. Depois de algumas doses de chopp, resolveram pedir uma porção de batata-frita. Sim, uma porção de batatinhas quentes, salgadinhas, crocantes e salpicadas com queijo ralado derretido.

Enquanto comiam, tagarelando de boca cheia e bebericando seus chopps, Danilo observava atento uma batata entre seus dedos. Alice riu. João deu de ombros e Danilo, em seus raros momentos de colocações, indagou “Será que rico também come batatinha?!” e abocanhou com delicioso prazer, aquela enorme, quentinha e crocante batatinha. Alice engoliu seco, segurando sua taça quase vazia, João ficou sério e lento enquanto mastigava. Danilo sorriu deliciosamente e todos caíram na gargalhada. “Mas que pergunta, é claro que....” Alice não tinha certeza da resposta. João continuou falando qualquer coisa, nada a ver com o assunto, como era do seu feitio fazer. Danilo insistiu “Mas não é verdade?! Comem ou não comem?!” Alice riu e disse com ar de sabedoria. “Danilo” - gole de chopp - “Se você ficasse rico..” - comendo uma batata ao molho de ketchup e mostarda - “...não comeria mais batatinha?”. Danilo pensou, pensou. “É, não tem como saber isso. Acho que sim. Mas sendo rico, nunca se sabe né?”. Alice deu de ombros, pensou “Que pergunta...”. João discutia com o garçom o valor da conta. E Danilo perdeu seu olhar no...além. Um além qualquer onde ele sempre se perdia com sua imaginação fértil.

sexta-feira, 28 de setembro de 2007

A história de Gustavo N. Bento

"Sentada entre suas malas e enjoada de esperar pelo seu vôo, Manuela, usando seu jeans favorito, misturado com seus acessórios cheios de cores e seu rosto cansado de um final de semana movimentado, aguardava prontamente, no mezanino do aeroporto, sua amiga, que comprava mais alguns selos nos correios (para sua coleção), um verdadeiro programa de índio para Manuela, já que a mesma não se interessava por selos.Resolveu observar as pessoas do andar de baixo, gente entrando e saindo, executivos com seus ternos e malas, famílias de turistas, gente trabalhando, lojas com seus produtos caros, restaurantes abarrotados e sem mesas para sentar, pessoas comendo em pé, pessoas e mais pessoas, aeroporto em reforma, muita bagunça, e a voz com sotaque do interior paulista, chamando para os embarques, até que Manuela, absorta em seus pensamentos, "faltou alguma lembrancinha?", "será que as geléias não vão estourar na bolsa?", escutou a voz chamar , duas vezes, por um nome: - Senhor Gustavo Bento, comparecer ao balcão de informações.Manuela com seus olhos atentos, procurou pelo tal balcão e pensou "quem será esse Gustavo?!" sim, finalmente havia encontrado algo para se distrair, enquanto sua amiga, ainda esperava para ser atendida no tal correio.Manuela pensou "quem será que procura por ele?" e seus olhos focaram um casal. A mulher, sofisticada, com sua bolsa larga e de marca, morena, aparentando uns 30 e poucos, repousava seu pescoço no grande pilar e escutava o (suposto) marido, dar um sermão, e ela só mexia a cabeça como se dissesse "sim, meu marido". Manuela pensava...será que o marido, com sua camisa desabotoada, será que ele é um pai ausente e ela uma mãe consumista?!, será que Gustavo era filho deles, adolescente sem causa e rebelde: "mãe vou numa loja e já volto", "filho 5h aqui na frente", mas ele não havia aparecido e seus pais emputecidos (o pai descontando e culpando a mãe) e nada de Gustavo aparecer, pra confirmar a imaginação de Manuela.Já não estava mais cansada ou impaciente, só queria descobrir quem era Gustavo..uma criança perdida talvez?! Um amigo do casal?! Mas nem sabia se era o casal que havia chamado por Gustavo...seus olhos estavam atentos, a qualquer momento iria descobrir...De repente sua amiga tocou em seu ombro e disse "vamos?!", Manuela gelou..."e agora?! será que ao descer vou perder eles de vista?", mas ansiosa para o final desse drama: "vai dar tempo", e foi empurrando o carinho das bagagens, dirigiu-se ao elevador, não durou nem 2 minutos e ao chegarem ao térreo, manuela disparou para ver o casal e o desejado encontro, mas...não havia mais ninguém, nem casal, nem Gustavo...e a história não teria um desfecho...muita imaginação será?! muita cenoura crua?! Manuela sentou no carrinho, ainda faltava 1 hora...e pensou "acho que vou escrever sobre isso"
e escreveu..."
Escrevi no dia 25/11/05, após passar pela experiência de esperar o embarque da primeira viagem de avião. =)
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Data: 11/01/06
Algo que eu sentia, montado através da mistura de letras de músicas...

"Chove lá fora, faz tanto frio...
Lágrimas de chuva, molham o vidro da janela, mas ninguém me vê...
Isso não é uma carta de amor, são pensamentos tolos, traduzidos em palavras...
E no meio de tanta gente, eu encontrei você, entre tanta gente chata, sem nenhuma graça, você veio...
Eu quis dizer, você não quis escutar...
Pra me transformar no que te agrada...no que te faça ver...
Não é fácil não pensar em você...
É estranho, não te contar meus planos...
Talvez sejam memórias que me perturbam...
Não há nada que me faça entender...
Quando eu vi você quase não acreditei, nem vi você mudar, nem vi você crescer...
Me diga então, em quanto tempo se esquece alguém...
Palavras são erros, e os erros são seus,
Não quero lembrar, que eu erro também,
Um dia pretendo tentar descobrir, porque é mais forte, quem sabe mentir...
Diz pra eu ficar muda, faz cara de mistério...
E que não me falte forças pra lutar...
Não importa quem mais brilha, se agirmos com amor...
Eu descia as escadas, as velhas escadas, sem medo de olhar o que eu deixei pra trás...
São pensamentos tolos, traduzidos em palavras, pra que você possa entender, o que eu também não entendo!"
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Data: 17/02/06
devaneando...
"Aí você anda na rua, a brisa bate no seu rosto, como uma lambida quente.E a música do diskman começa a pular, você dá uma batidinha, e a trilha sonora completa o momento, junto com o barulho dos carros passando, as buzinas e pessoas caminhando no final de tarde. Você está voltando pra casa, se sentindo viva...Mais um dia terminando, e mais um dia você conseguiu não fumar e nem comer besteiras de mais, ficou feliz por suar na academia e por seus planos darem certo.Você pensa nas pessoas que está com saudade e de momentos que não voltam mais. (ainda bem que você aproveitou todos!) e pensa que o tempo tá passando tão rápido...Melhor apressar o passo, falta tanta coisa pra fazer...(...)Mas o bêbado continua lá dormindo na grama, e quando você passa, ele ronca muito alto...arrancou uns risinhos....e ai a pilha acaba, não tem mais música...que chato! O que eu estava falando mesmo...."
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Data: 16/03/06
desabafos...
"Ontem a noite ela sentou, e entre folhas e rascunhos, descobriu que não conseguia escrever... Tentava, mas não saia nada bonito como antes, e as frases escolhidas não tornavam o texto, no mínimo gracioso. Ela pensou "porque será que não consigo escrever..." E logo seu pensamento se desviava para outras coisas... Para o medo de não conseguir dar conta de tudo..de não realizar um sonho, de não resolver os problemas, de esquecer o que tem que ser esquecido... E seu peito sentiu um aperto, o desespero foi tomando conta, sentiu-se desamparada, e percebendo que não conseguiria escrever, encolheu-se no sofá e ficou observando o que se passava na televisão e chorou... Chorou pela mocinha sem esperanças no amor, chorou pela mocinha que enfrentou o poder, mas foi espancada por ter sido corajosa, chorou pela paixão proibida de uma, pela inocência e ingenuidade da outra, pela revolta, injustiça....e chorou mais ainda, porque lembrou que seu sonho é esse: criar histórias que nos identificamos...que nos fazem chorar, que nos motivam ou encorajam, que nos comovem, que simplesmente retratam nossas próprias inseguranças, desejos, vontades, sonhos...nossas vidas... Então antes de adormecer, ela juntou suas mãozinhas e entre lágrimas, fez uma oração, pedindo que seu caminho seja iluminado, pedindo para não se sentir mais desamparada e com medo, pedindo que seu sonho, tão próximo e tão distante, realize-se, e que ela tenha forças pra seguir em frente...e pediu para iluminar o caminho das pessoas queridas a sua volta e pediu para entender seu coração e porque ele continua tão magoado...e pediu para esquecer o que tem que ser esquecido, e esquecer quem precisa ser esquecido....e adormeceu com os olhinhos inchados... E Ele reposou a mão sobre sua cabeça e permitiu que ela sonhasse naquela noite...e que lembrasse que Ele está ali...mesmo quando ela adormece perturbada com seus maiores medos.... e então ela sonhou...em paz..."
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Detalhe: Tirei essas criações do meu fotolog www.fotolog.net/ally_c

quinta-feira, 21 de junho de 2007

Sorriso de uma bailarina triste


Era uma vez uma bailarina triste
Era triste porque só tinha uma perna e um braço
Seu criador lhe deu compasso
Mas ela não sabia bailarinar
Seu coração era grande
Mas não havia razão
Não havia cabeça
Membros, apenas
Um dia ela se olhou no espelho
e viu uma linda bailarina
Ser humor não era mais azul
era penteadeira, pincéis, paredes pastéis
A bailarina sorriu e não era mais triste
Não tinha cabeça, mas tinha sorriso
E felicidade fez disso.

A história das botinhas pretas

Cheguei há pouco tempo, mas desde o início elas me surpreenderam.
No começo não questionei, porque eu era nova. Mas depois, mais a vontade, resolvi perguntar porque elas sempre ficavam naquele canto, na mesma posição, intocáveis.
Alguém disse que a dona resolveu deixar ali.
Toda vez que eu entrava naquela salinha, sentava no troninho, observava as botinhas de cano curto, pretas no canto da parede, debaixo da pia. Olhava pra ver se estavam diferentes, mas não, sempre na mesma posição. Reparava no fecho, no ziper, ou se não estavam sujas, ou usadas, mas nada, absolutamente nada.
Pensava porque a dona das botas não as usava. Porque as abandonou naquele canto. Valor sentimental?! Porque não doou, não deu, não vendeu não jogou fora? Porque estavam há meses naquele canto?!
Um dia, entrei naquela salinha fria e reparei que uma das botas estava caída. Fiquei feliz só por pensar que elas haviam sido usadas. Mas a bota ficou caída por dias, na mesma posição. Vai ver foi o vento. Vai ver alguém mexeu e ficou com medo de colocar no lugar. Vai ver a dona ficou com pena e mexeu um pouco nelas, dando um pouco de carinho.
Pois é, as botinhas passaram a não ser apenas um objeto, mas a representação de algo que está ali num canto, intocável, inútil, imprestável. Poderia estar aquecendo os pés de alguém, poderia estar sendo tirada depois de um dia cansativo, poderia estar sendo gasta numa pista de dança, poderia estar atraindo olhares com os passos de um bom par de pernas, mas não, está ali, quieta, no canto, na mesma posição de sempre.
Toda vez que entro, reparo nas botinhas, e acho graça, porque estão sempre ali. As pessoas que estão há mais tempo por aqui, se acostumaram, nem falam mais da botinha. Mas quando eu pergunto, elas também acham graça.
Ninguém tem coragem de tirar a botinha dali. Acho que nem a dona.

Caronas - título sugerido

Segue a prosposta que enviei pro Projeto de Curta que o curso está fazendo parte.
O governo federal liberou 100 mil reais pra produção de um curta metragem em 35mm, de cerca de 12 minutos. Todos os alunos, professores, servidores podem fazer parte do processo e estamos na primeira etapa: dar idéias, temas, argumentos pro projeto.
Eu enviei uma. Gostaria de ter compartilhado com um grupo, mas foi de última hora e em cima do laço.

Idéia sugerida

Nivaldo é um homem de meia-idade que mantém uma rotina normal de aposentado. Acorda, toma seu café, cuida do jardim, vê televisão, toma cerveja, joga cartas com os amigos, vai em festas de família, mas um dia, sua esposa simplesmente faz as malas e vai embora. Nivaldo fica sentado vendo sua esposa sair e continua assim, por horas, olhando a porta. Depois pega uma cerveja e fica na frente da televisão. Depois de três dias nessa mesma rotina, ele olha pra porta por um longo tempo, vai pro quarto e se olha por um longo tempo no espelho. Toma banho, arruma-se, pega a chave do carro e parte rumo à estrada.

Na estrada dá carona para um jovem mochileiro. Ele muito calado, mas o mochileiro conta um pouco das suas experiências de viagem. Ele conta que o lugar mais incrível que já conheceu foi o Morro da Fumaça pras bandas de Urubici. Nivaldo o deixa no lugar desejado e resolve conhecer esse lugar. Arranja um mapa e segue viagem. No caminho continua dando carona pra algumas pessoas em lugares diferentes de Santa Catarina, e a cada carona descobre uma experiência nova e partilha com os caroneiros. Desde fumar maconha com um grupo de jovens à acampar em volta de uma fogueira com uma família de biólogos.

Nivaldo vai vivendo seus dias de formas diferentes e descobrindo prazeres que nunca teve antes. Sua última parada é no Morro da Fumaça onde se debulha em lágrimas e depois de se recompor, entra no carro, disposto a viver mais experiências.

O filme terminaria com ele na estrada e um sorriso nos lábios.