terça-feira, 14 de janeiro de 2014

"A vida secreta de Walter Mitty" de Ben Stiller 2013

 
Nos últimos anos, Hollywood parece ter decidido contar histórias atreladas às grandes marcas e o universo virtual (como era de se esperar. a cultura espelha o meio e vice-versa), como Facebook, Apple, Google e agora, a Revista Life. Que ótimo! Porque com o filme A Rede Social, (de David Fincher, 2010) pudemos conhecer melhor os bastidores da criação de uma rede social, o Facebook, na perspectiva de seu criador e o universo virtual que o envolve, além do atual conceito de 'nuvem na rede' (as informações ficam sim armazenadas num espaço físico, ok?! que no filme, começa num quarto de estudante universitário), que ajuda a compreender alguns dos impactos sociais que as novas mídias vem causando. Tem que ver!
 
No ano passado fomos premiados com o filme Jobs (de Joshua Michael, 2013), e pudemos compreender a criação de um ícone, a Apple, por seu idealizador, Steve Jobs (Ashton Kutcher) e uma maneira diferente de ver e fazer as coisas. Compreendemos melhor o conceito de economia afetiva, ao comprar uma ideia e não apenas um produto, como acreditava Jobs. Apple não é só uma marca que vende produtos, é uma ideia, uma ideologia, e quem se identifica com ela, torna-se fiel, não importa quanto isto custe. Considerada a empresa mais valiosa do mundo, o filme nos apresenta parte do universo empreendedor de Jobs e como a habilidade de 'saber vender' é a chave para o sucesso.  
 
Os estagiários (de Shawn Levy, 2013), é uma comédia mais superficial, mas que aborda o universo criativo do Google e apresenta o conflito de gerações, através de dois personagens quarentões, Billy (Vince Vaughn) e Nick (Owen Wilson), ótimos vendedores de lojas físicas, que precisam se adequar a uma nova maneira de vender e pensar virtualmente, no universo Google. O novo perfil de profissional nos é apresentado como alguém criativo, dinâmico, multitarefas, representando no filme pelas novas gerações, mas que precisa aprender a vivenciar experiências (para além da fantasia e imaginação) e dominar a habilidade da comunicação, mas não só a virtual, como bem representam os quarentões do filme.  
 
E é com essa simpatia, humor e delicadeza, que temos Walter Mitty, um funcionário da Revista Life (prestes a se transformar em mídia digital), responsável pelos negativos da versão impressa e com uma mente fértil, mas com pouca história pra contar. Baseado no conto de James Thurber (1894-1961) e dirigido e estrelado pelo engraçado Ben Stiller, A vida secreta de Walter Mitty é um filme que exige sensibilidade para ver a delicadeza que possui, além de ser engraçado e até clichê.
 
Walter é um homem comum, aprisionado a sua zona de conforto, de não ter a coragem para viver as aventuras que imagina. Quantos de nós somos assim, não?! Quando a revista anuncia a migração para a plataforma digital, Walter é responsável pela foto da última versão impressa. Este é o pontapé inicial, a chamada (real) para aventura que ele estava precisando. E a jornada em busca dessa última foto, com o aventureiro fotógrafo Sean O’Connell (Sean Penn),  provocará profundas transformações no personagem. Até aí, há muitas histórias parecidas e previsíveis como essa, afinal a jornada do herói é sempre essa: cumprir uma jornada e se transformar ao final, com ou sem final feliz. Mas com sensibilidade suficiente, é possível ver mais.
 
A cena mais singela do filme, é quando Sean (que me lembra Sebastião Salgado, em suas múltiplas aventuras pelos confins do mundo) se prepara pacientemente para ver o leopardo das neves (gato-fantasma) e Walter o encontra e o questiona "Você não vai tirar a foto?". Sean, que esperou pacientemente pelo precioso momento, diz que não, porque às vezes o momento onde ele se encontra é tão bom, que ele não quer ser distraído pela câmera. Ele prefere vivê-lo, já que é passageiro. Viver o que não pode ser registrado, viver o que não pode ser imaginado. A fotografia do instante não daria conta do instante vivido!
 
Esta foi umas das passagens mais sensíveis e leves que já vi e acaba por ilustrar alguns dos nossos dilemas de vida. Deixar a imaginação de lado e se arriscar mais a viver ou parar de esvaziar nossas vidas com os registros, apenas eles, tão comuns e bombardeados ultimamente (não me excluo dessa!) para realmente apreciar o momento, tão passageiro, tão efêmero e delicado.
 
Certo dia, me peguei dizendo 'ei tem que ter FOTO do brinde' e meu marido disse 'não. tem que TER o brinde!". Já pensamos em formato de imagens. Eu penso. Construímos nossa vida visualmente, como numa timeline mental, e às vezes, momentos que parecem irrelevantes para um bom álbum (virtual), deixam de ser vividos e apreciados, porque não dariam uma boa foto, um bom registro.
 
Conheço várias pessoas que se entregam ao mau humor e tédio por não ter acesso à internet em determinados lugares, sejam eles com vistas belíssimas, pessoas interessantes e experiências diferentes. Se não pode ser registrado, parece que não foi vivido. E às vezes eu realmente tenho esse sentimento,. Mas às vezes também nem desperdiço meu tempo tentando tirar a foto de um pôr-do-sol, ou de um sorriso, porque a foto é incapaz de captar o que sinto e vejo naquele momento.
 
Esta passagem singela do filme me fez pensar sobre isso. Sobre o vazio do instante e sobre aquilo que não é mostrado. Precisa ser? Pensei sobre a beleza que ainda existe no mundo, nem sempre revelada, mas talvez seja bom que seja assim. Que o que é intocado, permaneça intocado. Que cada um possa enxergar a beleza dentro de si, no instante em que estiver, num momento que não queria deixar de estar. São preciosos e passam rápido.
 
Mas talvez só eu veja tudo isso no filme. Não importa. Ele me trouxe leveza, alegria e sorriso. E a certeza de que Ben Stiller adora a palavra little em tudo, como se fosse realmente engraçado.
 
A vida secreta de Walter Mitty (sendo um filme sobre o universo - superficial - da fotografia) não pecou na excelente fotografia, mesmo que os espaços e lugares, como a Groelândia e a Islândia, contribuam pra isso. Ele tem um humor desnecessário, que poderia ser contornado com maior seriedade nos diálogos e construções das cenas, mas é Ben Stiller, gente! Vamos perdoar o cara! Ele tenta! Esse humor torna o filme mais superficial, porém a imaginação fértil de Mitty precisava criar o impossível, para que pudéssemos avaliar o que era real e o que era fruto de sua imaginação, tal como o conto parece ser.
 
Se vale a pena? Só você poderá dizer. =)

"O lobo de Wall Street" de Martin Scorsese 2014

 
Quando você procura levar a vida com mais leveza, (ou pelo menos eu) vai ficando difícil gostar de filmes com tramas tão pesadas e desnecessárias, ainda que inspiradas na 'dura' realidade da vida. Neste caso, realidade do universo sórdido (e ilegal) do mercado de ações e seu slogan de ganhar dinheiro, sem medir as consequências.
 
Um garoto pobre que queria ser rico e era esperto o bastante para atingir seu objetivo em pouquíssimo tempo. Aprendeu o suficiente para abrir o próprio negócio e conquistar gente desonesta o bastante para enriquecer e enganar os outros (endinheirados ou não) com ele. Diante de tanto dinheiro, sexo, e principalmente drogas contribuíram (como sempre) para o declínio dessa brilhante e ilegal trajetória.
 
Foi interessante (na condição de 'pesquisadora' curiosa) conhecer esse mundo 'sujo', mas não gostei do filme. Eu saí enojada. Isso é bom?! Se era o que Scorsese queria, conseguiu. Mas isso é bom?!
 
Em um parágrafo, eu poderia dizer que o filme foi esclarecedor (e exagerado) sobre o assunto (mercado de ações), tal como o pesado e inovador Cidade de Deus (Fernando Meirelles) foi sobre o mundo do narcotráfico. A combinação de humor e violência funcionou novamente. A atuação de Di Caprio foi excelente (mil personagens em um só. vale prêmio), mas detestei a figura feminina no filme, claro. As mulheres são retratadas como objetos, troféus e descartáveis, tanto nos papéis das esposas (traídas, fúteis, espancadas), como das 'milhares' de prostitutas que ajudam a ilustrar o mundo sórdido dos homens ambiciosos e sem escrúpulos. O filme já começa com Jordan Belfort (incorporado pelo premiado Leonardo Di Caprio) ganhando um boquete no carro. E é esse papel de submissão que a figura feminina vai desempenhar por todo o filme.
 
Eu já vi alguns filmes de Scorsese, mas ainda não soube identificar sua linha de raciocínio e estilo. Ação? Sarcasmo? Se existe algo de destaque no filme, é o humor e os diálogos depravados entre os personagens. O impossível e inesperado se torna engraçado, mesmo que seja um riso nervoso. Era pra ser engraçado? Di Caprio dá vida ao personagem, mas começa a revelar traços permanentes da parceria entre ele e Scorsese. O mais do mesmo, como diria meu marido. 
 
Mas porque continuo achando este, um filme tão desnecessário? Seria minha visão mais 'pollyana' da vida? Seria a repulsa pelo papel feminino no filme? Seria por ver um personagem que até simpatizei (porquê diabos!) não se dar mal no final? O que causaria este mal estar? Estaria aí, a tentativa de Scorsese? De provocar mal estar, chocar, escancarar um mundo superficial e cruel que é (ou pelo menos, um dos lados) o mercado de ações? Um misto de ambição, ingenuidade, confiança e gente traiçoeira?
 
Baseado no livro de memórias do verdadeiro lobo de Wall Street (sim, ele existiu!), a narração de Jordan dá dinamismo às cenas e ao filme, o que o torna peculiar, já que apresenta apenas o ponto de vista de quem aplica os golpes, mas nunca as 'vítimas' (ambiciosas, mas vítimas). Nem as vemos, portanto não nos identificamos com elas. Estaria talvez aí a explicação pra se identificar com o protagonista. Sórdido, mas divertido! Será?
 

segunda-feira, 14 de outubro de 2013

Filmes do Mês: Setembro e Outubro 2013

São atualizados no decorrer do mês. 

24L-"Indomável Sonhadora" de Benh Zeitlin EUA 2012 (1)
23L-"O impossível" de Juan Antonio Bayona 2011 EUA (4)
22L-"Os amantes passageiros" de Pedro Almodóvar 2013 ESP (3)
21C-"Gravidade" de Alfonso Cuarón 2013 (3)**
20T-"Os agentes do destino" de George Nolfi 2010 EUA (2)
19T-"Magic Mike" de Steven Soderbergh 2012 EUA (3)
18T-"As palavras" de Brian Klugman, Lee Sternthal 2012 EUA (3)
17T-"Recém-formada" de Vicky Jenson 2012 EUA (2)
16T-"11 Homens e um segredo" de Steven Soderbergh 2001 EUA (4)*
15T-"12 homens e outro segredo" de Steven Soderbergh 2004 EUA  (4)*
14T-"13 homens e um novo segredo"  de Steven Soderbergh 2007 EUA (4)*
13T-"Virgens inquietos" de Jason Lapeyre 2012 EUA (2)
12T-"A cidade das crianças" de Nicolas Bary 2008 FRA (4)
11T-"Dredd" de Pete Travis 2012 EUA (1)
10A-"Amor por contrato" de Derrick Borte 2009 EUA (4)*
09C-"Mamute" de Benoît Delépine, Gustave de Kervern 2010 FRA (1)
08T-"O pacto" de Roger Donaldson 2011 EUA (2)
07C-"Elysium" de Neill Blomkamp 2013 EUA (2)
06T-"Intocáveis" de Eric Toledano, Olivier Nakache 2012 FRA (5)*
05T-"Kickass - Quebrando tudo" de Matthew Vaughn 2010 EUA (3)*
04T- "A condenação" de Tony Goldwyn 2011 EUA (3)*
03C-"O casamento do ano" de Justin Zackham 2012 EUA (0)
02C-"Os estagiários" de Shawn Levy 2013 EUA (3)
01T-"Jane Eyre" de Cary Fukunaga 2011 EUA (2)

*Filmes Revistos
**Clube do Professor

***Curta no Intervalo

Organização: Ordem crescente - em números.
Nome do filme + diretor + ano + país

Códigos: X (internet), B (baixado), C (cinema), D (dvd acervo pessoal), L (locadora), T (tv), M (mostra), A (aula)

Notas:
(0) dispensável - Odiei.
(1) ruim ou fraco - Não gostei.
(2) razoável - Gostei, mas nada demais.
(3) bom - técnica ou emocionalmente - Gostei, valeu a pena.
(4) muito bom - rolou um punctum - Gostei, imperdível.
(5) excelente - marcou minha vida - AMEI!
(P) prazer culpado (tecnicamente ruim, mas eu curto)

quinta-feira, 29 de agosto de 2013

Filmes do mês: Agosto 2013

São atualizados no decorrer do mês. 

16T-"Homens de preto" de Barry Sonnenfeld 1997 EUA (3)*
15T-"Anna Karenina" de Joe Wright 2012 EUA (4)
14T-"Terapia de risco" de Steven Soderbergh 2013 EUA (2)
13T-"Beleza Americana" de Sam Mendes 1999 EUA (4)*
12T-"Isto não é um Filme" de Gilberto Scarpa 2008 SC-BRASIL (3)
11M-"Armando Carreirão, Memórias em Movimento" de Marcia Paraiso 2009 SC-BRASIL (3)***
10T-"O quarto do pânico" de David Fincher 2002 EUA (4)*
09D-"A invenção de Hugo Cabret" de Martin Scorsese 2012 (5)*
08C-"Bling ring: a gangue de Hollywood" de Sofia Coppola 2013 EUA (3)
07D-"Psicose" de Alfred Hitchcock 1960 EUA (4)
06A-"Qual queijo você quer?" de Cintia Bittar 2012 SC-BRASIL (3)*
05T-"O voo" de Robert Zemeckis 2012 EUA (3)
04T-"Para sempre" de Michael Sucsy 2012 EUA (2)
03T-"O ditador" de Larry Charles EUA  2012 (2)
02T-"500 dias com ela" de Marc Webb EUA 2009 (4)*
01L-"Por uma vida melhor" de Sam Mendes EUA 2010 (3)

*Filmes Revistos
**Clube do Professor

***Curta no Intervalo

Organização: Ordem crescente - em números.
Nome do filme + diretor + ano + país

Códigos: X (internet), B (baixado), C (cinema), D (dvd acervo pessoal), L (locadora), T (tv), M (mostra), A (aula)

Notas:
(0) dispensável
(1) ruim ou fraco
(2) razoável
(3) bom - técnica ou emocionalmente
(4) muito bom - rolou um punctum
(5) excelente - marcou minha vida
(P) prazer culpado (tecnicamente ruim, mas adorei)

quarta-feira, 31 de julho de 2013

"O substituto" de Tony Kaye 2012


 
Henry Barthes (Adrian Brody)  é um (eterno) professor substituto de escolas públicas (EUA) que (aparentemente) prefere não se apegar aos alunos (nem a ninguém). Algo ruim que aconteceu no passado contribuiu para que ele tivesse a empatia necessária para se relacionar com seus alunos "problemáticos", ao mesmo tempo que o tornou alguém solitário e desanimado com a vida.
 
Oriundo de um lar "desestruturado", apresentado de forma fragmentada por um avô doente e uma mãe viciada e suicida, Barthes (sobrenome curioso, não?!) parece compreender cada jovem alma perturbada e com poucas palavras é capaz de confortar e conquistar o outro. É um 'pai', um psicólogo, um amigo, um 'substituto' de tudo isso, como todo "bom" professor acaba sendo na vida de algumas crianças e jovens. É também responsável pela formação de cada pequeno ser "incompleto" que cruza o seu caminho, e isso é um enorme fardo, quando seus atos contribuem para finais infelizes. Afinal, nem sempre dizer que tudo 'vai ficar bem' é a solução para os mais profundos dramas de uma alma perturbada. E Barthes desabafa "mas ia ficar tudo bem", quando uma de suas alunas, vítimas de bullyng na escola e em casa, comete suicídio.
 
Na sequência final do filme, Barthes pergunta quem já sentiu um peso grande, como se a vida estivesse nos sufocando. Todos os adolescentes da sala de aula levantam a mão e ele também. Então ele diz que Edgar Allan Poe também sentia isso há 100 anos e escreveu um conto chamado "A queda da casa de Usher". Ele diz que o conto não era sobre a casa, mas sobre um estado de espírito.

Esta relação que ele estabelece da obra de um conhecido autor com a vida cotidiana dos alunos, a partir das próprias experiências, é uma estratégia fundamental na prática em sala de aula. É ultrapassar as barreiras do conteúdo curricular e fazer pensar sobre a própria vida.


Este filme não é sobre um professor substituto, mas sobre o estado de espírito (atual?) de todos os professores e profissionais envolvidos com a Educação das novas gerações. É um misto de desânimo e esperança.
 
Em determinado trecho, ele desabafa com seus alunos (temporários) que ir para escola e aprender sobre as coisas é a única chance que temos de não nos tornarmos reféns de quem domina o processo da comunicação. É ser capaz de avaliar o que consumimos, criticar e recusar aquilo que não concordamos. Estaria aí talvez uma reflexão da grande importância da Educação, de tornar os indivíduos emancipados, ou segundo Hannah Arendt, capazes de viver sem depender dos cuidados de outrem. Agir e pensar por 'si próprios', ou pelo menos ter acesso a ferramentas e oportunidades que possibilitem esse pensar e agir.
 
Diariamente vemos jovens desperdiçarem o tempo vivido e passado na escola, por considerarem inútil ou desinteressante. E somente quando tiverem maturidade para avaliar, é que verão que desperdiçaram esse tempo lamentando ao invés de torná-lo mais produtivo. Ao mesmo tempo isso reflete que, nós professores e educadores, estamos falhando em nossa função, quando diante de inúmeras abordagens, percebemos que nenhuma delas funciona. Tentar outra ou desistir?!!

É preciso reinventar a escola ou ela irá implodir! (se já não implodiu).
 
Lembro na minha primeira semana de aula, empolgada com o novo desafio de lecionar, de ouvir outra professora dizer "Aproveita, que essa paixão vai passar!". Eu não compreendia como aquele sentimento poderia passar e  compreendia ainda menos, porque alguém que perdeu essa paixão, continuaria no ofício de professora.
 
Já faz 6 anos que ouvi essa frase e ainda não perdi a paixão, mas confesso que estou no caminho. Já vivo o misto inconstante de desanimar e ter esperança ao mesmo tempo. Com o passar dos anos, você entende que a experiência de professora não vai te ajudar a solucionar os problemas, porque a cada ano, em cada turma, em cada dia, um novo desafio irá se apresentar e você terá que aprender a lidar com ele. A pergunta que sempre me faço é: eu quero isso pra mim? Enquanto eu for professora, a resposta será sim.
 
O que é ser um bom professor? É ter empatia e ser capaz de ouvir os alunos, quando seus pais poderiam e deveriam cumprir esse papel? Henry Barthes diz que deveria haver um teste 'vocacional' para saber quem poderia ter filho. Deveria haver uma seleção, pois nem todos estão preparados para esta 'vocação'. Colocar um filho no mundo é assumir uma responsabilidade eterna e diária, mas parece que muitas pessoas não cumprem esse papel. E isso se reflete em escolas vazias nas reuniões de pais, que deveriam fazer parte de sua rotina. Discutir sobre a educação dos filhos, num espaço que frequentam em boa parte da vida. Mas não há tempo. Não é uma prioridade. "Que a escola resolva o que 'eu' não posso resolver!"

Esta cada vez mais difícil lidar com as dificuldades de ser professor. De entrar numa sala de aula todos os dias e não desanimar com o descaso dos jovens, dos pais, dos governos com este profissional que precisa sozinho "conquistar", ou na pior das hipóteses, "dominar" uma turma de 20, 30, 40, ou 100 alunos.
 
Mas em Barthes, como em todo professor, também há esperança. Quando ele acolhe uma jovem prostituta, oferecendo a chance de mudar sua trajetória, ele oferece perspectiva. E muitos alunos, com muita raiva de si e do mundo, só precisam dessa chance, dessa oportunidade que pode mudar suas vidas para sempre.
 
Quando me dou conta que tenho essa oportunidade nas mãos, de realmente ajudar alguém, percebo que não há valor que compense essa missão. Que isso preenche minha vida de motivos para continuar sendo professora. É um sentimento paradoxal, querer e não querer, ser e não ser. Talvez fazer bem para o outro é também fazer mal a si mesmo. Terei a coragem necessária?!
 
Manter-se passageiro enquanto professor, ou substituto, talvez seja a melhor oportunidade para manter-se apaixonado. Para não desanimar e continuar tentando, mesmo quando tudo parece desabar neste ofício. Manter-se fresco e novo na experiência de lecionar. Conhecendo novos alunos e novos colegas. Conhecendo novas escolas ou escolas que se reinventam a cada dia, para cada aluno e professor.
 
Talvez para Barthes, ser um bom professor é viver o desapego. É estar ali somente o necessário para oferecer perspectivas e depois recomeçar num novo lugar. Não se acomodar ou deixar que a paixão se desgaste, porque se ninguém mais quiser cumprir esse papel, o que será de todos nós?!! 

segunda-feira, 15 de julho de 2013

"Amour" de Michael Haneke 2012

 
Não é todo dia que assisto um filme que eu gosto muito, mas é ainda mais raro assistir um filme que eu deteste a ponto de querer falar sobre ele. Este filme me inquietou e perturbou, justamente porque não me chocou, mas revelou uma parte recente da minha vida que eu não escolhi viver. Eu aprendi a lidar com essa experiência, mas eu cumpro um papel secundário e meu sofrimento não se compara ao de quem se tornou protagonista.
 
Eu me identifiquei tanto, que percebi que talvez nós só gostamos (ou toleramos) de nos identificar com a fantasia da dor, mas jamais com a própria realidade, que é tão dolorosa. É um não querer ver a verdade 'nua e crua'. É um desejar fugir e não encarar nossos piores medos e 'fantasmas'.
 
Percebo que é o fato de eu não gostar desse filme, que o torna brilhante em sua proposta.
Ele revela o quão entediante e desgastante é cuidar de um paciente que sofreu avc. A sensação de impotência, o não reconhecimento do ser amado, a impaciência que nos consome e o monstro que podemos nos revelar.
 
Haneke fez um filme sobre uma mulher idosa que sofre um avc, e como esse acontecimento destrói e desgasta qualquer indício de amor entre o casal protagonista.
 
Não é um filme sobre o amor, mas sobre o desgaste dele e de todas as pessoas que vivenciam os momentos de sofrimento de quem definha numa cama e regride em seu desenvolvimento. É o "Benjamin Button" que ninguém deseja viver ou conviver.  É o voltar a ser uma criança na velhice, totalmente dependente e despreparado para tamanha experiência. Como cuidar e voltar a ser, mesmo sem querer, uma criança de mais de 80 anos, que não se desenvolve e regride a cada conquista?
 
Vivenciar a experiência do avc, é morrer e matar aos poucos o laço afetivo que une casais, famílias e amigos. É uma experiência que ninguém deseja, ousa fantasiar sobre ela e lamenta quem sofre.
 
Mas quando se vive e convive com esta experiência, é possível descobrir muito mais sobre si mesmo do que se imagina. Descobrir uma força que não se imaginava ter, sentir-se mais próximo daquele novo ser, e sentir saudade de uma pessoa que não existe mais. É possível sim encontrar beleza, mesmo na dor, mas esta não parece ter sido a intenção de Haneke. Ele preferiu nos revelar o que há de pior.
 
É doloroso lidar com vítimas de avc, mas também desafiador. E cada um exerce um papel diante desta condição cruel. Há os que assumem o papel de cuidadores, por obrigação afetiva (ou não), como Georges (Jean-Louis Trintignant), que conforme definha sua esposa doente, definha também seu amor por ela e por si mesmo. Há o papel de quem lamenta, mas prefere fugir ou agir como visita, como Eva (Isabelle Huppert), filha do casal, residente no exterior, que não sabe lidar com a situação, mas também não se envolve o suficiente para ajudar. Apenas lamenta, discorda do pai e se desgasta de preocupação, ao ponto em que ele mesmo diz algo do tipo "a sua preocupação não me é útil, então não me faça perder meu tempo, que eu tenho minhas próprias ocupações."
 
E há o papel da vítima, como Anne (Emmanuelle Riva), que sofre com sua condição, torna-se impertinente e desconta sua raiva naqueles que ama. Deseja a morte, mas não significa realmente um querer. É um ato de desespero e sofrimento. É a morte do amor próprio, tão necessário para suportar a vergonha, humilhação, dependência e fragilidade de se tornar tão incapaz. Sem ele, parece que nada mais resta.
 
Haneke foi irônico ao intitular este filme de "Amour", mas poderia haver outro título melhor?!
 
Este filme é sobre o amor que nos faz cuidar do ser amado, mesmo que isso nos mate aos poucos. Mesmo que isso revele o nosso lado mais 'monstruoso' e (talvez) também o mais 'gentil'. É sobre o amor que sentimos e não desejamos perder, então nos afastamos ou nos deixamos ser afastados, para não permitir que esse amor seja destruído. O amor apegado às lembranças. É também sobre o amor que sentimos por nós mesmos, que se esvai quando perdemos nossa capacidade de nos emancipar (ou nos mantermos emancipados). Um amor que se esvai ao nos tornarmos incapazes de nos comunicar, locomover, expressar e simplesmente sobreviver, condenados a um corpo e mente inúteis, prisões de nós mesmos, da qual jamais poderemos escapar.
 
E reforço, quem nasceu nessa prisão, jamais se emancipou e não poderia lamentar o fato, pois jamais vivenciou a 'liberdade'. Mas viver 'livre' e ser aprisionado 'em si mesmo', parece ser a pior das prisões.
 
É um filme triste e estranho, talvez por ser realista demais. Cruel e duro como a vida pode ser. E ao decidirmos dedicar cerca de 2 horas das nossas vidas para ver uma história tão triste, quanto nossa vida pode ser, eu acho que preferi não gostar. Eu realmente não gostei. 
 

terça-feira, 2 de julho de 2013

Top 10 - Porta dos fundos - Um fenômeno!

Confira aqui os meus vídeos favoritos do Canal Porta dos Fundos, que está revolucionando o mundo virtual com seu humor e livre acesso!
 
Tudo começou quando eu ouvi falar do famoso vídeo do Spoleto:

 
Comer rápido é cada vez mais comum. E ser mal atendido também! Essa situação do nosso cotidiano foi satirizada pela equipe Porta dos Fundos e foi surpreendentemente bem recebida pela Spoleto, que reverteu a situação e incorporou o tom humorado (Spoleto - Parte 2) deste vídeo à publicidade da empresa. "Tem palmito?"

Cancelamento da linha:

 
Quem nunca precisou dos serviços de um operador de telemarketing?!! E quem nunca perdeu a paciência e teve que ser grosseiro, que atire a primeira pedra!! "Claro! Eu espero!"

Bíblia combina com humor, não?!
 
E se os 10 mandamentos..."
 
Ah! Moisés!"
 
 
Com quem será?

A segunda música mais cantada depois do Parabéns!! E "Ninguém vai cortar o bolo?!
 
 
 
Previsão do tempo - A mais pura verdade!
 
 
Terminando o namoro com música (ou não!)
 
 
Para 'parar' um casamento, o motivo tem que ser muito bom!


Entrevista de emprego e seus respectivos "malabarismos"!


Gostou do presente amiga?!!!

 
Sobre a mesa!
Eu não sei bem porque gosto, mas gosto!
Acho que é por ser sem 'pudores'!