quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Notícias rapidinhas de cinema III


1. Chega aos cinemas dos EUA esta semana, o filme "O Último Exorcismo" de Daniel Stamm, nova adaptação do clássico filme de terror "O Exorcista" de William Friedkin (1973). No Brasil, estreia em setembro.

2. Em novembro deste ano, os diretores Francis Ford Coppola e Jean-Luc Godard, entre outros realizadores, serão homenageados no Oscar por suas respectivas contribuições à história do cinema.

3. Os últimos dias de vida do poeta Edgar Allan Poe serão levados às telonas pelo filme "Raven", que será dirigido por James McTeigue, de V de Vingança, e terá John Cusack no papel principal.

4. A Índia vai conceber o seu primeiro filme sobre a vida de Jesus Cristo, na infância. Com direção de Singeetham Srinivasa Rao e estrelado somente por atores indianos, será um dos longas-metragens mais caros já feitos pelo país, com orçamento de 30 milhões de dólares.

5. Estreia em Nova Iorque nesta sexta-feira, 3, "Clear Blue Tuesday" (em tradução literal: terça-feira de céu claro), dirigido por Elizabeth Lucas. O filme musical é baseado na tragédia americana de 11 de setembro, e conta a história de 11 pessoas durante sete terças-feiras ao longo dos anos posteriores ao evento.

6. "Absoluto - Inter, Bicampeão da Libertadores", é o novo filme oficial do Inter sobre a conquista do bicampeonato, produzido pela G7 Cinema, com direção de Vicente Moreno e roteiro de Luís Augusto Fischer. Os torcedores colorados poderão colaborar, contando suas histórias e os melhores depoimentos serão convidados a participar do filme.

7. Abrirá dia 3 de setembro, em Novo Hamburgo - RS, o complexo de cinema do grupo CinEspaço, que contará com programação de filmes para todas as idades, dos comerciais aos cults. E também terá em breve, projetos especiais para escolas (Escola no Cinema), professores (Clube do professor), além de programações especiais para jovens cinéfilos.

8. Em entrevista ao jornal Le Figaro, o diretor James Cameron falou da vontade de fazer duas seqüências para o filme "Avatar" e reforçou sobre a versão acrescida de 9 minutos inéditos para lançamento em outubro, aos fãs que desejam re-assistir ou aos que não conseguiram assistir no cinema.

Dicas de filmes - setembro

CINEMA

Não vi, mas vou ver:


"Godard, Truffaut e a Nouvelle Vague" de Emmanuel Laurent 2009 - documentário
Documentário sobre as relações entre Jean-Luc Godard e François Truffaut na época da Nouvelle Vague, movimento revolucionário do cinema, que inovou, mostrando uma nova forma, nova "onda" de fazer filmes.

"O aprendiz de feiticeiro" de Jon Turteltaub 2010 - aventura
Parte da premissa de um estudante universitário, herdeiro de habilidades mágicas. No mínimo, curioso. E conta com atuações de Nicolas Cage e Monica Bellucci.

"Nosso lar" de Wagner de Assis 2010 - drama

Baseado na obra psicografada de Chico Xavier, o filme conta a história do médico André Luiz após sua morte. Uma sugestão do pensamento que acredita na vida após a vida. Efeitos Especiais: Intelligent Creatures, Canadá (Watchmen, Babel, Fonte da Vida)

"O bem amado" de Guel Arraes 2010 - comédia

Baseado na obra de Dias Gomes, O Bem Amado conta a história do prefeito Odorico Paraguaçu, que tem como meta prioritária em sua administração na cidade de Sucupira, a inauguração de um cemitério. De um lado é apoiado pelas irmãs Cajazeiras. Do outro, tem que lutar contra a forte oposição liderada por Vladimir, dono do jornaleco da cidade. http://www.obemamado.com.br/filme.html

"Meu malvado favorito" de Pierre Coffin e Chris Renaud 2010 - animação

Gru (Steve Carell) é um supervilão que duela com Vector (Jason Segel) para ter o posto de o mais malvado. Para vencer a disputa, ele decide roubar a Lua. Só que terá que enfrentar três órfãs, que estão sob os seus cuidados e não podem ser abandonadas.

"Kick ass - quebrando tudo" de Matthew Vaughn 2010 - ação
Filme independente (baixo orçamento para os padrões hollywoodianos), inspirado em quadrinhos, sobre jovens e desajeitados heróis, geração Youtube, mergulhados em uma trama cínica, engraçada e violenta a la Tarantino. Conta com a participação de Nicolas Cage, como o pai da Hit Girl.

Já vi e indico:

"Karatê Kid" de Harald Zwart 2010 - ação/drama
Regravação do clássico original dos anos 80, preserva a mesma filosofia das artes marciais, ainda que altere o ensino do karatê para o Kung Fu e falhe em algumas construções narrativas, quando altera a idade do protagonista de 16 para 12 anos. Protagonizado por Jackie Chan e Jaden Smith (filho de Will Smith), promove a reflexão sobre a colocação do "mestre" Miyagi, quando afirma que não existem maus alunos, mas maus professores.

"A origem" de Cristopher Nolan 2010 - ficção científica

Campeão de bilheteria nos EUA, é considerado impenetrável à crítica, tamanha é a proposta complexa do enredo, depois de "Matrix" (1999). Do mesmo diretor de "Batman - O cavaleiro das trevas" (2008), o filme serve de representação do mundo das ideias, sonhos e imaginação, como já disse sobre o cinema, o cineasta espanhol (surrealista de vanguarda) Luiz Buñuel.

VIDEOLOCADORA

Não vi, mas vou ver:

"Encontro Explosivo" de James Mangold 2010 - ação/comédia
Protagonizado pelos astros Tom Cruise e Cameron Diaz, narra a história de uma jovem que se envolve com um agente secreto e embarca numa agitada aventura.

"Mary e Max" de Adam Elliot 2009 - animação/drama
Em paralelo ao 3D, é um longa feito em técnica artesanal stop motion (fotografia dos movimentos quadro a quadro), que conta uma história de amizade entre dois personagens, inseridos no universo atual das redes sociais.

"A fita branca" de Michael Haneke 2009 - drama/guerra
Ambientado na Primeira Guerra Mundial, foi indicado ao Oscar 2010 de Melhor Filme Estrangeiro.

"Chico Xavier - O filme" de Daniel Filho 2010 - drama

O filme conta a história do médium Chico Xavier, maior representante do espiritismo no Brasil que completaria 100 anos em 2010, se estivesse vivo.

"É proibido fumar" de Anna Muylaert 2009 - drama
Glória Pires protagoniza a história de uma mulher, professora de violão, que precisa enfrentar conflitos pessoais como parar de fumar, reaver um sofá e lidar com o envolvimento amoroso com o vizinho recém chegado.

Já vi e indico:

"Salt" de Phillip Noyce 2010 - ação/drama
Angelina Jolie encarna uma agente da Cia, acusada de espionagem.
O filme foi inicialmente projetado para um personagem masculino, recusado por Tom Cruise, que preferiu fazer "Encontro Explosivo" (2010) e posteriormente a história original foi adaptada para uma protagonista mulher e como em todos os filmes recheados de ação, protagonizados por uma mulher ágil e eficiente fisicamente, como "Lara Croft: Tomb Raider" (2001) e "Sr. e Sra. Smith" (2005), Angelina encarna mais uma personagem de forma intensa, trabalhando muito bem o olhar e gestos sutis, em contraste com os golpes rápidos da personagem Emily Salt. O filme não possui nada de inovador em termos de ação cênica, explorando mais uma vez a narrativa clássica, do uso de heróis e vilões, usando o desgastado esteriótipo dos vilões russos/soviéticos, em contraste com uma heroína nacionalista leal silenciosa. A sutileza e profundidade dos olhares da personagem Salt tornam-se aliados dos espectadores mais antenados ao enredo. Está tudo ali colocado e trabalhado na subjetividade através dos grandes olhos claros de Jolie, para sacar a construção da personagem e o desenrolar dos acontecimentos. Arrisco em dizer, que é até um pouco previsível. E aproveito para acrescentar algo positivo no quesito entretenimento, usando um comentário de uma amiga otimista que assistiu antes de mim, afirmando que o filme traz um toque de realismo em algumas cenas, do tipo "parece tão fácil, que dá vontade de fazer igual". Angelina é perfeita pra esse papel e pra esse tipo de personagem, mas o filme é puro entretenimento e boa opção pra quem gosta de pura ação e um pouquinho de sutileza.

"Educação" de Lone Scherfig 2009 - drama É um filme do qual não se espera nada, e revela-se extremamente maduro. Tão inocente quanto a personagem, somos levados a acreditar numa história que nos cativa gradativamente, com alguma ponta de desconfiança, mas com imensa vontade de entregar-se e torcer por um final feliz. Nenhuma idealização ou caracterização de personagens perfeitos, mas sim uma história contada sob a perspectiva de uma jovem, Jenny, com 16 anos, ótima aluna de uma escola conservadora em Londres, em plena década de 60, que se envolve com um homem, 20 anos mais velho, David e que através dele, descobre um mundo de possibilidades diferentes da qual estava destinada desde que nasceu: estudar e cursar Letras em Oxford. A atriz estreante, Carey Mulligan, que interpreta Jenny, foi indicada ao Oscar de Melhor Atriz, assim como o filme teve indicação para Melhor Filme e Melhor Roteiro Adaptado.

"Karatê Kid" de Harald Zwart 2010


em breve.

Filmes do mês - setembro

São atualizados no decorrer do mês.

05L-"Lembranças" de Allen Coulter 2010 (3)
04L-"Chico Xavier - O filme" de Daniel Filho 2010 (4)
03C-"Nosso lar" de Wagner de Assis 2010 (2)
02T-"A fera do rock" de Jim McBride 1989 (2)
01T-"O Médico e o Monstro" de Rouben Mamoulian (1931) (4)*
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*Filmes Revistos Organização: Ordem crescente - em números.

Nome do filme + diretor + ano.
Códigos: C (cinema), D (dvd acervo pessoal), L (locadora), T (tv).

Notas:
(0) dispensável
(1) ruim
(2) razoável
(3) bom
(4) muito bom
(5) excelente
(P) prazer culpado (tecnicamente ruim, mas adorei)

"O médico e o monstro" de Rouben Mamoulian (1931)

Complementando meu momento nostálgico de falar do programa "Sessão Cinema" da TV UFSC (Canal 15 da NET - Região local de Florianópolis SC), aproveito para falar do filme que passou lá hoje no final da tarde e que acabei assistindo novamente. "O Médico e o Monstro" de Rouben Mamoulian (1931), que é uma das várias versões adaptadas para o cinema, do livro (título original em inglês: The Strange Case of Dr. Jekyll and Mr. Hyde) de Robert Louis Stevenson , publicado em 1886.
Cito uma passagem que extraí de um site, sobre o livro, para fazer o gancho com o filme: "A história de Stevenson baseou-se na vida dupla de um habitante de Edimburgo, na Escócia, chamado William Brodie: de dia ele era um respeitado marceneiro; à noite, roubava as casas dos moradores da cidade. A história se passa em Londres, no final do século XIX, centro urbano com quatro milhões de habitantes. Devido ao grande contraste econômico entre os industriais (cada vez mais ricos) e os miseráveis (cada vez com menos oportunidades de emprego e vida digna), Londres passou a ser palco de inúmeros crimes horríveis. Justamente por isso, em 1829, foi criada a Scotland Yard, que se tornaria mais tarde reconhecida por sua eficiência em resolver crimes e por tomar parte das inúmeras páginas das histórias policiais inglesas." (Disponível em: http://www.passeiweb.com/na_ponta_lingua/livros/resumos_comentarios/o/o_medico_e_o_monstro

O filme de Rouben Mamoulian, é protagonizado pelo ator Fredric Marcha, que vive o personagem com dupla personalidade, Dr. Henry L. Jekyll - o médico e Mr. Hyde - o monstro.
Diante do progresso de Londres, o médico, noivo de uma bela dama, dialoga com seu amigo advogado, Dr Lanyon, sobre a possibilidade do homem possuir duas personalidades, uma boa e uma má. Por ser agente da ciência, Dr. Jekyll acredita ser possível extrair do homem, tudo que existe de ruim e assim, permanecer só o que é bom, como se um não dependesse do outro. Ele acredita na possibilidade, defendendo-se como um curioso, como o curioso que criou a lâmpada e colaborou para o progresso, evitando deixar Londres às escuras ou dependente de mecanismos primitivos e limitados. Dr. Jekyll acredita nos sacríficios a favor da ciência, do progresso.
Em vários percursos do filme, Dr. Jekyll confronta o amigo, promovendo a reflexão de que nele (e em nós espectadores) existem dois lados, do racional e irracional, daquilo que reside na consciência e inconsciência, do feio e de belo. Atitudes que controlamos e instintos incontroláveis. Mal natural que habita o feio, pois para Platão, por exemplo, o bom habita o belo. E o amor deseja o belo. Não um belo, padrão de beleza, limitado e rotulado, mas o belo como conhecimento, verdade, sabedoria, justiça, medida, filosofia.
Dr. Jekyll então, ao permitir o conflito entre sua própria natureza, entre o que considera certo e errado, bom e mau, quando é seduzido por uma meretriz ao defendê-la de um cafetão, (sendo um bom homem) deixar fluir o desconhecido, o instinto, a paixão carnal, atração que inunda o racional, e acaba sendo confrontado pelo amigo advogado: "O que você está fazendo? Você é noivo!" Dr. Jekyll aproveita a deixa para reforçar seu discurso de que algo de tentador reside em sua natureza e provoca o amigo, afirmando que na natureza de todo homem é assim, portanto para combater o mau, basta isolá-lo.
Com isto, em suas experiências de laborátorio, Dr. Jekyll, cria uma "Poção mágica" e faz de si uma cobaia, tomando a opção e sofrendo uma transformação física. No lugar do belo e bom doutor, surge um monstro (ainda que pictórico no filme, por ser antigo) mau e feio. Monstro que se considera livre, como livre nos sentimos ao saciar um desejo, ao seguir um impulso, ao perder o controle e seguir instintos. Lugar onde reside o prazer, a paixão, o irracional. Monstro dentro de todos nós, que precisamos controlar diariamente, para não nos desordenarmos diante das regras impostas pela sociedade. Não exatamente o que é certo, mas quilo que permite a convivência civilizada (se é que ela é possível). Aproveito e cito Carl Jung, quando diz que o conflito entre duas naturezas fundamentais é necessário para o equilíbrio. É necessário conhecer-se por inteiro e saber lidar com os próprios conflitos, que sempre irão existir e fazem parte do crescimento pessoal como ser humano.
Dr. Jekyll então torna-se o monstro inconseqüente Mr. Hyde. E na experiência de liberdade, fica cada vez mais difícil para o médico, não tornar-se Hyde, pois o prazer aflora os instintos, e a curiosidade habita o homem. Ouso dizer, que ao se deliciar com o mau, com o prazer carnal, como o homem e mulher que se rendem ao sexo e traem seus companheiros e companheiras, como faz Dr. Jekyll com a noiva, ao deitar-se com a meretriz que antes o seduziu, enquanto era bom e belo. A meretriz deixa de ver o bom e belo, para ver o mau e feio. Pois é o que acontece conosco por exemplo, quando conhecemos algupem bonito fisicamente, mas de certa forma, se for uma pessoa de mau caráter, péssima índole, acabamos vendo feiúra. Ou ao contrário, como se vê no filme "A bela e a fera" dos estúdios Walt Disney, que o príncipe, tão belo, ao destratar uma pobre senhora, sofre a maldição da feiúra e somente quando Bela vê na fera, beleza, o encanto se quebra e ele torna-se belo novamente, voltando a forma física de príncipe.
Estes exemplos reforçam a ideia de que onde reside o bom, reside o belo.
Para vivermos em harmonia, precisamos respeitar uns aos outros e os dois lados que existem em nós, sem desmerecer nenhum, pois o conflito é necessário para o amadurecimento e crescimento pessoal.
Finalizando, encerro com mais um trecho do site que citei acima:
"Segundo as teorias de Dr. Jekyll, o homem, na verdade, não é apenas um, mas dois. Todo ser humano é dotado de duas naturezas completamente opostas equilibradas de acordo com sua saúde mental. Uma é boa, aquela que traz admiração das pessoas, compaixão dos mais velhos, elogios dos amigos e da esposa ou namorada; outra é má, aquela que é violenta, agressiva, mal-educada, feia e temida por todos. Quando bem distribuídas, com pequenas alternâncias de estado, o homem pode ser considerado normal, mas há os casos em que uma natureza se sobrepõe a outra, tentando se libertar. O problema torna-se grave quando quem alcança a liberdade é o lado negativo, gerando as fatalidades que estamos acostumados a presenciar nos noticiários."
Ou seja, nem Dr. Jekyll ou Mr. Hyde, mas os dois!

TVUFSC - uma oportunidade para o cinema de vanguarda


Em 2009, cursando as duas últimas fases na graduação de cinema da UFSC, tive a oportunidade de atuar como bolsista na TVUFSC (Canal 15 da Net - tido como canal universitário e local), quando ainda se encontrava sem uma direção e estrutura organizada adequada, fazendo parte da equipe apenas eu e a servidora administrativa "Lili" que me convidou para fazer parte dessa "equipe". Deparei-me com uma estrutura mínima, mas com grande potencial. Tinha na mão a oportunidade de inovar uma programação que se resumia a exibir programas antigos produzidos em bons tempos da tv em 2004.
Um canal 100% universitário, disponível aos estudantes e completamente desconsiderado pela universidade. Nasceu então uma grande vontade de inovar e fazer da oportunidade um começo.
Busquei alternativas para inserir novos programas na grade, sem depender de uma equipe, que contaria com uma verba que não existia. Editei novas vinhetas, novos breaks, usando os cenários da universidade. Aproveitei o que existia e tentei acrescentar algo de novo.
Busquei no cinema, a inspiração.
Descobri que filmes com lançamento e exibição pública há mais de 70 anos, passam a ser de domínio público. Portanto, com apoio da propriedade intelectual da universidade, onde tirei minhas dúvidas sobre direitos autorais, pesquisei por meses uma lista imensa de filmes datados até 1939 e comecei a buscar estas cópias para exibir na tv.
Este foi o começo.
Uma programação precária, uma tv com poucos recursos, nenhuma equipe ou verba, muita resistência, mas muita garra da "Lili" e vontade de manter a tv viva. Essa foi a premissa.
No decorrer do ano, a tv deslanchou, assim que entrou um novo diretor geral, o professor e jornalista, Fernando Crócomo. A luta continuava e aos poucos a tv foi crescendo. Vi de perto essa transformação. Novos programas eram feitos no jornalismo, minutos no campus, exibição de tcc´s em vídeo, grandes reportagens realizadas por alunos e assim foi.
Hoje não faço mais parte da TV UFSC por estar formada, mas de vez em quando, coloco no canal 15 e me deparo com o programa "Sessão Cinema", que perdurou e se mantém vivo.
Programa que "criei", organizei, iniciei na tv e na época de bolsista, até fui apresentadora, vivenciando um pouco, a vida de apresentadora de estúdio. Eu escrevia o texto, a jornalista revisava e então, eu fazia as gravações das "cabeças". Antes de iniciar o filme, eu dizia um pouco sobre sua contribuição para o cinema, sem tirar a surpresa da história. Enfrentei o desafio de ler o texto num "tp" (telepronter) e errar o mínimo possível! Tinha preocupações com a cor e com o modelo da roupa para não vazar no chroma key (fundo infinito azul).
Desenvolvi a identidade visual e a vinheta (que estão no ar até hoje).
"Sessão cinema - vanguarda e clássicos".
Com programação de 24 horas, hoje a TV possui uma boa equipe de colaboradores, estudantes, jornalistas, editores, bolsistas, operadores de master e afins. São várias áreas do conhecimento e da comunicação atuando na produção, edição e programação.
Quanto ao programa de cinema, qualquer um poderia ter tido a ideia, tendo vontade e a oportunidade, mas o que realmente importa é existir hoje um espaço para o cinema de vanguarda, um cinema clássico, a disposição da comunidade, mesmo que ainda em tv paga. Filmes difíceis de encontrar em vídeolocadoras (comprei muitos para meu acervo pessoal e cedi cópias pra tv), que não fazem parte de nenhum circuito alternativo e não são protagonistas do tal "telecinecult", antigo telecine classic. Filmes como "Metrópolis" do Fritz Lang (1927), "Um cão andaluz" do Luiz Buñuel (1928), "E o vento levou" de Victor Fleming (1939), entre outros.
É uma oportunidade única de ver os filmes da vanguarda surrealista e impressionista do primeiro cinema. Assim como filmes da era de Ouro de Hollywood, quando inicia o star system (sistema de estrelas/celebridades) e studim system. (sistema de estúdios - filmes feitos em estúdios, controlados pelas grandes produtoras, grandes estúdios, ativos até hoje como Fox, Universal e Paramount. Um modelo pioneiro de cinema que prevalece até hoje no circuito comercial, o modelo de Hollywood, que trata o cinema como um "produto", uma ferramenta de entretenimento, considerando os espectadores como "clientes", como público e a produção como uma indústria cinematográfica.
Não que seja totalmente ruim, afinal é um modelo que gera empregos, mobiliza populações, inova, acrescenta, abre portas, movimenta financiamentos, mercados alternativos e ainda que superficial em vários momentos, permite narrar ideias, sonhos, histórias, aquilo que pertence à imaginação humana.
O importante é que ele não seja considerado o único cinema, desmerecendo o cinema de autor, aquele que busca transgredir, falar do que não é falado, descontruir essa narrativa clássica tão desgastada, e acrescentar ao espectador, provocando, forçando a reflexão. Talvez nem sempre agrade, porque não pretende agradar, mas o mais importante, revoluciona, mesmo que depois, torne-se um modismo. O que importa é o constante movimento e reflexão.

Portanto, sempre que tiverem oportunidade, moradores de Florianópolis e região, prestigiem a "Sessão Cinema" da TV UFSC. Vale a pena!

Programação: http://www.tv.ufsc.br/
TV UFSC - Canal 15 da NET.

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

"Filadélfia" de Jonathan Demme 1993


Em 1993 fui com meus pais no cinema e só lembro de acordar no final da sessão. Eu tinha uns 8 anos. Acho que nem era pra minha idade.
Devo ter assistido outras vezes depois, mas assim como em outros filmes, nossa memória nos engana e esquecemos totalmente da história e ao assistir novamente algum filme do passado, somos apresentados a um mundo novo da ficção com muita fantasia, comédia, drama e/ou romance.
"Nossa, não me lembrava desse detalhe!" "Nossa, não me lembrava desse ator!" "Nossa, não lembrava da história mesmoo!"
Enfim, com um acervo de mais de 500 filmes, este foi o filme escolhido para assistir numa noite de sábado, debaixo das cobertas, muito bem acompanhada pelo meu noivo, claro! Foi escolha dele, já que envolvia advogado, sua profissão! =)
"Filadélfia" é a história de um advogado, Andrew Hackett, homossexual (super discreto), com aids (vírus HIV manifestado) que demitido por justa causa do escritório de advocacia, alegando preconceito, resolve entrar na justiça para lutar por seus direitos.
O personagem é protagonizado por Tom Hanks, seu advogado (inicialmente preconceituoso) é Denzel Washington e seu namorado (super fofo e atencioso) é Antônio Bandeiras. Todos bem novinhos e numa ótima performance dramática. Tão boa que o filme foi premiado com o Oscar de Melhor Ator (Tom Hanks) e Melhor Canção (composta por Bruce Springsteen).
Por muito tempo, a câmera nervosa, sob o olhar de quem se sente ameaçado e/ou apavorado por uma pessoa contaminada, age como olhos nervosos dos personagens, atenta a cada movimendo de Andrew: o que ele toca e onde ele toca. Pavor real, reflexo de uma sociedade que na época não sabia lidar muito bem com uma doença tão devastadora e mortal. (se é que hoje já sabe!) Mas pior que o preconceito diante da doença, é o preconceito com a opção sexual de Andrew, tida como causadora e disseminadora da doença e colocada como escolha. Os chefões do escritório, alegam que Andrew escolheu contrair a doença, a partir de suas preferências sexuais, diferente de quem contraiu inocentemente numa transfusão de sangue. Santa ignorância! (perdoem-me mesmo os ignorantes, mas ninguém escolhe contrair uma doença. Até pode estar suscetível, quando se tem uma vida sexual ativa, como o número crescente de soropositivas donas-de-casa que contraem de seus maridos infiéis. Obviamente elas não usam camisinha por serem casadas e por confiarem nos seus homens, que levam pra casa o tal vírus mortal! Escolha uma ova! Deles talvez, mas não delas! Coitadas!)
Não muito longe da ficção, Dourado do Big Brother 2010, causou polêmica, ao afirmar durante o confinamento que somente homossexuais contraiam HIV e heteros não.
Estamos em 2010 e a falta de informação e esclarecimento ainda é grande, mesmo que a sociedade pareça menos apavorada, já que o vírus parece controlado (ainda que mortal).
É difícil morrer de AIDS como antes, como morreram nossos mestres da música Cazuza e Renato Russo. Com as novas descobertas, os soropositivos levam uma vida plena, controlados por medicações fortes, e sem apresentar uma aparência tão debilitada como antes. Os cuidados continuam sendo necessários e os riscos ainda são reais, tanto para os soropositivos, quanto para os sexualmente ativos, independentemente de suas opções sexuais.
Assistir ao filme me fez pensar que o preconceito não reside somente na doença, mas no pavor de assumir o papel de quem sofre preconceito. Viver diante de tanta ignorância e falta de esclarecimento, como Andrew viveu na ficção. Com aparência debilitada, o personagem contou com muito apoio da família e de um namorado que não é soropositivo. Escolha do diretor em mostrar que a pessoa soropositiva leva uma vida normal e é amado pelos entes queridos, mesmo diante de tanto sofrimento. Não é somente um promíscuo ou um drogado, os que contraem a doença, mas às vezes por falta de esclarecimento, um jovem, descobrindo a vida sexual, numa única ocasião, num único deslize, contrai uma doença irreversível. Um erro comum, dificilmente isolado.
Mesmo numa biblioteca, ao tossir ou encostar em algo ou alguém, as pessoas tremem de pavor. Andrew lê um trecho da lei em que diz que a AIDS é uma doença social, pois mais que as conseqüências da doenças, o indivíduo sofre isolamento e preconceito, dificultando ainda mais a luta pela vida, pois menospreza, torna-o inválido e o exclui, antes mesmo que a doença cumpra esse papel.
Um filme da década de 90, mas atual. Não porque a sociedade ainda apresenta uma postura apavorada, mas porque o risco ainda existe, o cuidado ainda é necessário e a falta de esclarecimento é mais comum do que se imagina! Mesmo diante de tanta mobilização, propaganda, campanhas. O esclarecimento às vezes tem que partir de dentro!