Eu estava num enterro de uma pessoa que nunca vi na minha vida. (acho eu)
Acompanhava alguém.
Eu não nutria qualquer sentimento. Não sentia nada. Talvez tentasse sentir algo. Empatia?
Qualquer dor ou sentimento de perda? Nada disso.
Era um alguém para alguém. Mas um alguém-ninguém para mim.
Observei a dor das pessoas. Poucos choravam. Talvez os filhos. Uns conhecidos.
Mas muita gente estava lá.
Aquela dor parecia tão real que me envergonhei de pensar que escolhi fazer cinema.
Fazer a tal "representação" da vida.
Como eu poderia recriar uma dor que só existe enquanto ela é real e verdadeira?
Dor que só surge nas situações limites. Nas situações reais.
Faço outra coisa, mas não isso. Recuso-me a construir esta ilusão.
Recuso-me a tentar vender essa ilusão como verdade. Mesmo que por um bem maior.
Mesmo que para tocar, atingir, transmitir... (minha verdadeira motivação pelo cinema)
Foi o que resolvi.
Então hoje...exatamente hoje, eu me deparei com outra situação.
Mesmo a dor...que me parecia tão real e verdadeira, hoje me pareceu tão forjada.
Mesmo a dor que parecia tão única, pode ser representada em vida.
Não é porque há falsidade, hipocrisia ou convenção. Nem considerei isso.
É porque é tão necessária quanto qualquer outra coisa.
Até para sentir dor, usamos "máscaras" sem nem perceber.
Se eu não chorar num velório, não estou cumprindo meu dever.
(e nem sei qual e nem porque é um dever).
Se eu não sentir dor, ou não sentir nada, devo ser estranha.
Somos pressionados até para sentir dor, mesmo quando não a sentimos.
Se eu não sofrer muito é porque não amava o suficiente.
Se eu não chorar um pouco, não me importava tanto.
Até nessa hora, tão sofrida, estamos sendo julgados.
Até nessa hora, alguém chora com um olho fechado e outro aberto observando em volta.
Nessa hora existe etiqueta, comportamento adequado, lógica e sentido. Até na hora da dor.
Talvez todos já saibam disso, talvez não. Só sei que eu me dei conta agora.
Não sei mais se a "dor" é tão real e verdadeira quanto eu imaginava.
Muitas vezes me parece algo obrigatório de se sentir.
Não havia reparado que há os que se orgulham de exibir sua dor. E quem exibe mais, vence. (não sei o que, mas parece realmente vencer algo, mesmo que para si mesmo)
Se a dor fosse tão real (e tão ruim), seria evitada. Demonstraríamos muito mais a quem amamos. Daríamos muito mais valor ao tempo e às pessoas, porque isso se torna inevitável e determinante para o sentimendo de perda e sentimento de dor.
Ou não é?




Jesse formulou uma interpretação: o personagem estava se dando conta de que se livrar das coisas que lhe desagradavam fora fácil. Agora vinha a parte difícil - encontrar um rumo. Não é simples para um adolescente articular sua perplexidade. Os Incompreendidos, porém, além de ser um grande filme, deu a Jesse uma imagem de sua confusão e uma deixa para desabafar. Episódios como esse são o fio condutor de O Clube do Filme (Intrínseca; tradução de Luciano Trigo; 240 páginas; 24,90 reais), sobre os três anos de cinefilia compartilhados por pai e filho (que, entre 3 e 10 de agosto, visitam o Brasil a convite de sua editora). Há três semanas na lista de mais vendidos de VEJA, o relato evoca não apenas as dores por que passam pais e filhos, mas também aquele fenômeno meio mágico que às vezes se dá numa sala escura, diante de uma tela: uma descoberta e uma comunhão que, exatamente por prescindirem de palavras, ultrapassam o que se pode dizer.