quinta-feira, 9 de outubro de 2008

Ensaio sobre o “Ensaio” II

Enviado para Revista Punctum - Revista Eletrônica de Cinema - UFSC
Edição Setembro 2008, mas texto REJEITADO.
www.punctum.ufsc.br

por Alessandra Collaço da Silva

Não li o livro (ainda). Nunca ouvi falar da história até duas semanas. Um casal dizia que havia detestado. Eu sabia da existência do filme na pré-produção e um pouco da sua repercussão no Brasil. Coisas do tipo: diretor brasileiro, atriz famosa, locação em São Paulo e blabláblá. Desafio: assistir e entender porque aquele casal não havia gostado. Fiquei sem uma boa resposta. Não é um filme qualquer, não conheço nada para compará-lo. É forte e chocante. É um filme de gosto difícil. E pra mim, não deixa de funcionar como uma mensagem, um anúncio ou mesmo um ensaio de algo muito maior que está ou pode estar por vir.

É sobre o caos estabelecido e a reação das pessoas diante do caos. Ou talvez um ensaio sobre um caos já existente de uma população sem fé, sem ética e sem valores. Uma cegueira metafórica, porque nem todo que enxerga realmente vê e nem todo cego realmente não enxerga. Uma cegueira branca, pela luz excessiva, ou uma cegueira causada por tudo aquilo que os rodeia, mas que não se enxerga mais: a injustiça, o preconceito, a falta de valores, a maldade, a exploração, a banalização, a mentira e tantas outras atitudes dos seres humanos diante da vida, julgadas sem importância ou sem a iniciativa de mudá-las.

Em certo momento do filme, a “esposa do Doutor”, Julianne Moore, entra numa igreja onde todas as esculturas de anjos e santos estão vendadas. Enquanto ela observa horrorizada, já que é a única que enxerga, ouvimos em off uma voz masculina dizer que São Paulo foi convertido através da cegueira, mas também ouvimos a mesma voz se questionar sobre o caos da cegueira, alegando que não é coisa de Deus. Por que não seria?

Uma epidêmica cegueira como apresentada no filme, até poderia ser uma intervenção divina, mas as escolhas e atitudes humanas diante dela não são divinas. Matar, estuprar, enganar, ajudar, ceder, cobrar, amar são da natureza do ser humano. Se a vida e nova realidade ficou mais difícil pela cegueira, cabe a eles decidir o que fazer e como se portar diante de tal problema. Culpar o outro é apenas uma desculpa para não agir.

A cor do filme é opaca e clara como num dia nublado. Tudo é muito branco e com excesso de luz. Associada a religiosidade, poderíamos sentir realmente uma manifestação divina, já que o branco no geral é associado a paz, a clareza, a espírito e equilíbrio. Essa brancura poderia ser uma manifestação positiva, uma cegueira que os obrigaria a realmente enxergar. A câmera inclusive, adota esta postura, quando insiste em vários momentos em enquadrar e estabilizar num lugar qualquer, como o olhar de um cego. Um olhar vago que não se entretem com nada, mas um "nada" que posteriormente nos remete a algo. Algo como o tempo decorrido, através da transformação das frutas na casa do "Doutor e esposa". Ou um trecho de rosto, um pedaço de braço, uma lágrima escorrendo. Talvez uma mensagem para nós, afinal o nosso olhar obrigatoriamente é o olhar da câmera, e é o ser humano quem está sendo retratado no filme.

O filme me remete a dois ditados conhecidos: "Em terra de cego, quem tem um olho é rei! (ou quem é "cego" também.)" e "Dê poder ao homem que conhecerás teu cárater". Os personagens não têm nome, sua profissão não importa, nem sua vida passada, mas todos têm seus valores. Bons ou ruins. E o filme nos apresenta as atitudes de alguns personagens diante desta cegueira contagiosa e repentina.

Descobrimos entre os cegos contaminados, um cego de nascença. Um dos líderes da Ala 3. Ala que impõe suas vontades e tiram de outros, o pouco que lhes resta: a dignidade. Este cego é "Rei". Ele passou a vida "enxergando" pelos cheiros, pelos sons, pelo tato. Ele sabe determinar quando algo é ou não de valor pelo tato. Ele reconhece alguém pelo cheiro ou pelo som. Este cego na verdade enxerga.

E a "esposa do doutor"? Será que não desejava a cegueira? Será que queria ver as pessoas se transformarem em monstros, por comida? Vê-las perder a dignidade? Ver a feiúra do ser humano, tanto fisicamente quanto metaforicamente?

De uma certa forma, era cega. Submissa e generosa, liderou o grupo, aprendeu a conviver, a aceitar e a adaptar-se. Acostumou-se. Precisou matar e ameaçar para sobreviver, mas não se orgulha por isso. Ela podia ter agido diferente, mas agiu com caráter e semelhança. E quando percebeu que a cegueira poderia ser reversível? Ficou feliz? Afinal ela estava se sentindo alguém. Alguém importante e prestativo, talvez um alguém com um novo sentido na vida. O seu mundo tornou-se um lugar novo.

Se São Paulo se converteu através da cegueira, será que ela, no meio de uma cegueira absoluta, sendo a única que enxergava, teria se convertido?

A sensação é de incerteza. De incapacidade e impotência. De caos e horror. Mas também de esperança e da necessidade da fé. O ser humano muitas vezes precisa decidir como reagir ao caos, porque no fundo, é esta decisão que realmente importa, independente se tudo ao redor parece tão perdido e sem sentido.

quinta-feira, 2 de outubro de 2008

"Olho por olho" de John Schlesinger 1995

Em breve. (ou não...)

Pensamento do dia

Obrigada Deus, pelo talento da música.
Eu não tenho este talento, mas agradeço aos que têm.
Agradeço pela música que adoça meus ouvidos e acompanha meu humor.
O mundo só é um lugarzinho melhor por causa dela.

segunda-feira, 29 de setembro de 2008

“Um condenado à morte escapou” de Robert Bressom 1956

por Alessandra Collaço da Silva

O título resume o filme. É isso. E o personagem descreve suas ações. Nada surpreendente, completamente óbvio.

O foco é o prisioneiro. A imagem limita seu próprio espaço, como ao espaço limitado de uma cela. A câmera está sempre muito próxima, sufocante. Imagens em plano-detalhe quando ele “cava”, ou primeiro plano quando ele é mostrado. Agoniante. Apertado.

O prisioneiro narra o que sente e o que faz. E o filme trata de narrar suas relações com outros presos durante o “banho”. Não precisamos adivinhar nada. Está tudo ali, entregue. Mas só vemos aquilo que está ao alcance do personagem. A câmera está em função dele. Aquilo que ele não vê, também não vemos. Se algo externo acontece, é através dele que nos alcança, como os passos dos guardas na escada ou as batidas na parede. Só a “visão” dele, nada mais.

Apesar de óbvio, o tempo presente é narrado no passado. Não há nada para adivinhar. Mas a incerteza de sua escapatória nos prende. Ele conseguirá ou não fugir? Esperamos apenas pela confirmação, assim como seus companheiros. Então o filme nos prende até o fim, para sairmos sem qualquer surpresa, apenas a confirmação de um sim ou de um não.

O filme é monótono como a rotina da prisão. Os fades longos e pretos indicam passagem de tempo. Ou será que a sua camisa cada vez mais suja também tem essa função? Não sabemos. Pura especulação.

Quando seu plano de fuga começa a dar certo (ele separa as tábuas e sai da cela pela primeira vez), os enquadramentos ficam mais distantes. Indicando um fio de liberdade? Menor sensação de sufocamento? Já não é tão apertado. Temos alguns planos-americanos.

O personagem reflete se sua liberdade vale outras vidas. Ele dialoga com o companheiro da cela ao lado. A esperança do outro é que o motiva para fugir. Ele sabe que não conseguirá sozinho.
Para fugir precisa matar um policial. Pela primeira vez (até onde me lembro) seu ponto de vista não é mostrado. Mas sabemos que matou pelo corpo caído. Não sentimos raiva. Não sentimos nada. Desde o começo desejamos a liberdade, ou pelo menos esperamos por ela. Só pra ver o que acontece.

Porque não podemos ver seu pior lado? O lado assassino? Não devemos? Não queremos?

No fundo o que importa não é ele, mas a sensação de liberdade. Desde o começo estamos sufocados na cela e a liberdade do personagem nos dá a liberdade da imagem, de mostrar além daquilo que ele podia ver. Se ela custou uma vida? Passa batido. Não precisamos pensar nela.

Manifesto contra a verdade

(Salve o cinema de Mohsen Makhmalfab 1995)

de Alessandra Collaço da Silva


Imbecil. Eu pensei. Mas porquê? Imbecil. Não vi inteiro, mas trecho imbecil. Diretor imbecil, idéia imbecil, pessoas imbecis. Risos irritantes e imbecis. Mas porquê? Não sei dizer.


Não é um reality show. Não é, mas parece.


Eles não sabem. Aquelas pessoas iguais e desesperadas não sabem de nada. O diretor sabe. E elas só querem uma chance. De atuar? De ter 15 minutos de fama? De serem alguém?


Não. Nem sabem, mas querem uma chance de perpetuar. Não serem esquecidas. Não morrerem em morte. Porque só morre mesmo aquele que não vive na lembrança. Estar no vídeo é congelar o tempo. É de alguma forma congelar na imagem e quem sabe, sobreviver à própria morte. Todos ou muitos desejam isso. O pavor verdadeiro é ser esquecido, quase como nunca ter existido e “ser imagem” é perpetuar.


Para alguém, quem quer que seja, a imagem vive, às vezes para sempre. O diretor sabe disso e explora. Viola meus valores éticos que eu nem sabia que tinha. Mas tenho. Descobri.

Imbecil. Continuo achando. Mas de certa forma, importante ocorrer. Porque me irrita. Eu nego esse cinema, que é cinema, mas não o cinema que acredito e amo.


Aqueles rostos constrangidos, testados e induzidos a aceitar a humilhação. Ouço risos, frenéticos, intensos e eles me irritam. Não há graça, a menor que seja.


Eles não se importam de serem humilhados. Mas o diretor sabe. E isso me irrita profundamente. Tenho raiva das “vítimas”, como em qualquer reality show. Fodam-se. Quem mandou aceitar? Dar a cara a tapa? Se expor tão profundamente. Pro reality show eu não ligo, mas pro filme sim. Porque eu vejo seu idealizador. Ele se mostra, ele tem nome, ele é imagem. Tantas coisas e tenho que ver isso?


Não há tempo em vida que me permita ver todo cinema feito. Preciso escolher. O tempo corre. Porque desperdiçar com trechos tão desprezíveis? Eu sei. É importante. Por algum motivo é. Não sei qual. Mesmo assim me irrita.


Talvez a cultura. Todos aqueles panos e caras iguais. Todos tão sofridos e querendo ser diferente. Todos tão desesperados. Tenho pena, raiva, agonia, vergonha alheia. Não costumo ter, mas tenho. Tive.


Não quero ver. Não quero ver a verdade do mundo. Isso existe. É real. Isso é poder. Isso me enoja. Que ela exista longe de mim. Porque eu escolho não mostrá-la. Não quero. Quero mostrar verdades boas. Melhores. E talvez mentiras desejadas. Aquelas que podiam ser, mas por algum motivo não são. Por algum motivo...


Não desisto. Sou de fé e esperança. Acredito no melhor do ser humano. É o que vale a pena mostrar. Acreditar nos sonhos. Acreditar na magia do cinema.


Magia do cinema. É essa verdade-mentira que quero ver e contar.


domingo, 21 de setembro de 2008

"Ensaio sobre a cegueira" de Fernando Meirelles 2008

por Alessandra Collaço da Silva

"Ensaio sobre o 'Ensaio'"
Não li o livro. Nunca ouvi falar da história até duas semanas. Um casal dizia que havia detestado. Eu sabia da existência do filme na pré-produção e um pouco da sua repercussão no Brasil. Coisas do tipo: diretor brasileiro, atriz famosa, locação em São Paulo e blabláblá. Desafio: assistir e entender porque aquele casal não havia gostado. Fiquei sem uma boa resposta. Não é um filme qualquer, não conheço nada para compará-lo. É forte e chocante. É um filme de gosto difícil. Não esperem puro entretenimento, pois não terão.

A história em si já é muito interessante pelas possibilidades metafóricas que ela invoca. Uma cegueira branca, inexistente no mundo "real", cegueira como epidemia, contagiosa e caótica. Uma história sobre o caos estabelecido e as reações das pessoas diante do caos. Um horror. Apavorante. Agoniante.

O que mais me impressionou foram as escolhas técnicas. A fotografia, por exemplo. Uns enquadramentos estranhos e aparentemente mal feitos, mas extremamente importantes. A câmera, de uma certa forma, produzia a sua própria cegueira. Estabilizava num lugar qualquer, como o olhar de um cego, que nada enxerga. A câmera funcionava como um olhar vago, muitas vezes sem se entreter com nada, mas um "nada" que posteriormente nos remete a algo. Algo como o tempo decorrido, através da transformação das frutas na casa do "Doutor e esposa". Ou um trecho de rosto, um pedaço de braço, uma lágrima escorrendo.

"É como nadar em leite". Além da fotografia, a cor opaca do filme é bem trabalhada, ressaltando a claridade e o branco excessivo. Os próprios fades brancos usados na transição dos planos, durante a contaminação, remetem-nos a cegueira acontecendo nos personagens. Tudo branco, tudo cego, tudo tão claro e excessivo. Tudo tão caótico e incerto. Meirelles ou quem quer que seja, escolheu estabilizar a câmera em objetos, móveis, paisagens brancas e estouradas. Essa transição nos dá a idéia de "enquanto isso": enquanto um oftamologista fica cego, a criança também fica.

"Claridade excessiva". O branco, a cor opaca, a saturação, o contraste, o desfoque, as transições, etc., todas estas escolhas se tornam importantes pra condução da narrativa, pra história, pro filme, pra adaptação do livro de Saramago (que eu não li) e pra agoniante sensação de cegueira repentina e inexplicável. A imagem tão bem trabalhada, entre foco e desfoque torna-se parte da escolha de como contar uma história tão chocante, e peça fundamental pra sensação do espectador diante da epidêmica cegueira.

"Em terra de cego, quem tem um olho é rei! (ou quem é "cego" também.)" e "Dê poder ao homem que conhecerás teu cárater". Os personagens não tem nome, sua profissão não importa, nem sua vida passada, mas todos tem seus valores. Bons ou ruins.

Descobrimos entre os cegos contaminados, um cego de nascença. Um dos líderes da Ala 3. Ala que impõe suas vontades e tiram de outros, o pouco que lhes resta: a dignidade. Este cego é "Rei". Ele passou a vida "enxergando" pelos cheiros, pelos sons, pelo tato. Ele sabe determinar quando algo é ou não de valor. Ele reconhece alguém pelo cheiro ou pelo som. Este cego enxerga.

E a "esposa do doutor"? Será que não desejava a cegueira? Será que queria ver as pessoas se transformarem em monstros, por comida? Vê-las perder a dignidade? Ver a feiúra do ser humano, tanto fisicamente quanto metaforicamente? Ela não foi "Rei". Não queria ser, até precisar. Ela enxergava, mas de uma certa forma, era cega. Submissa e generosa. Liderou o grupo, aprendeu a conviver, a aceitar e a adaptar-se. Acostumou-se. Mas precisou matar e ameaçar para sobreviver com sua dignidade. E quando percebeu que a cegueira poderia ser reversível? Ficou feliz?

A sensação é de incerteza. De incapacidade e impotência. De caos e horror. "Deus converteu São Paulo através da cegueira. (...) Essa cegueira não é coisa de Deus." Irônico? O caos até poderia ser obra de Deus. Mas nossas atitudes são nossas escolhas.

Estamos cegos?

terça-feira, 9 de setembro de 2008

Filmes do mês - setembro

São atualizados no decorrer do mês.

7A-Um condenado à morte escapou de Robert Bresson 1956 (2)
6A- Salve o cinema de Mohsen Makhmalbaf (trechos) 1995 (2)
5C-Ensaio sobre a cegueira de Fernando Meirelles 2008 (5)
4T-Escritores da liberdade de Richard LaGravenese 2007 (3)
3D-Meu nome é Taylor, Drillbit Taylor de Steven Brill 2008 (0)
2D-Vestida para casar de Anne Fletcher 2008 (1)
1C-Amar...não tem preço de Pierre Salvadori 2006 (2)
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Organização: Ordem crescente - em números. Nome do filme + diretor + ano.
Códigos: A (em aula); C (cinema); D (dvd próprio ou locadora); P (pirata ou baixado); T (tv)

Notas: (0) horrível; (1) ruim; (2) razoável; (3) bom; (4) muito bom; (5) excelente

*Revistos