segunda-feira, 26 de novembro de 2007

"Cidade do silêncio" de Gregory Nava 2006

Se gostar dos filmes de Jennifer Lopez for uma fraqueza, eu tenho e assumo com orgulho. Apesar de não ter a melhor das atuações, e excluindo os romances onde encarna papéis esteriotipados de latino-americana, gosto de alguns trabalhos que ela se envolve como "Nunca mais". Fraco, porém denuncia a violência doméstica e encoraja as mulheres a pararem de fugir. E o atual "Cidade do silêncio" que baseia-se em histórias reais de mulheres que são estupradas e mortas na cidade de Juarez - México, dentro do universo da globalização (NAFTA), onde empresas de eletroeletrônicos pensam apenas no lucro e não se preocupam com a segurança das funcionárias, pois é mais barato abafar os casos do que protegê-las.
É um filme bem feito (cores, têxturas, enquadramentos), com falhas no enredo, mas que trata de um assunto muito mais importante do que o cinema: a violência real que assola o país.
É um assunto delicado, triste e polêmico, ainda mais comparado com a atual realidade do nosso país, Brasil. Recentemente no Pará foi feita a denúncia de uma adolescente que ficou presa por quase 30 dias numa cela com mais de 20 homens, sendo submetida a todo tipo de violência, principalmente sexual. Depois de uma repercussão nacional e internacional, novos casos estão sendo descobertos em mais de 5 estados. E quem são os culpados? Negligência do estado? Da Justiça? Exploração sexual?
Ou seja, 2007, e ainda é possível nos surpreendermos com casos chocantes e brutais contra jovens, mulheres, crianças e pessoas esquecidas e marginalizadas, em lugares onde a lei não predomina. "Pará, terra sem lei"?!.
"Cidade do silêncio" não possui um final feliz e nem prevê um. É uma triste realidade, de um mundo globalizado, que explora mão-de-obra barata e visa apenas o lucro. E tenho certeza que essa realidade se expande por todo o mundo, principalmente nos países de terceiro-mundo, onde prevalece a violência, injustiça e desigualdade social, incluindo o nosso Brasil.
Li algumas críticas que se concentraram apenas em falar da atuação fraca de Jennifer Lopez, das falhas no enredo e dos pobres trabalhos de Gregory Nava. Mas acredito que tudo isso é o de menos, afinal o filme dá uma boa cutucada nos EUA, e obviamente não chegou aos cinemas, pois é sempre um risco denunciar o país que domina o mercado internacional.
Achei considerável a tentativa de Nava contar uma realidade, através de algumas escolhas "hollywoodianas", colocando atores latino-americanos famosos (Jennifer Lopez e Antonio banderas, além de Martim Sheen) e técnicas cinematográficas mais sofisticadas, porém, sabemos que para falar alguma coisa precisamos de voz, e nesse ambiente de desigualdade, acaba-se optando por escolhas questionáveis, que possam tentar promover essa "voz".
Além de atuar, Jennifer Lopez foi a produtora do filme. Mesmo polêmica (e linda) está claro que não esqueceu totalmente de suas origens. (nem como pessoa e nem como a personagem do filme).
Enfim, posso ser tola e boba de curtir esses filmes quase sempre não vistos, mas acredito nesse cinema que tenta comover e contar histórias, quase sempre abafadas.

sexta-feira, 9 de novembro de 2007

"Caramel" de Nadine Labaki - 2007

Nadine Labaki é linda, ótima atriz e dirigiu esse filme fantástico.
Pra quem gosta de Almodóvar, acredito que vai gostar desse filme, pois ele trata da relação de cinco mulheres, com seus dramas, (seus) homens, idade e as típicas dificuldades femininas, de forma bem humorada, colorida e bem construída narrativamente.
A beleza das personagens tem grande destaque, além da presença forte das atrizes. A fotografia é impecável e a trama bem construída.
É um filme delicado, divertido e feminino. No mínimo curioso e diferente, pois lida com cultura e idioma arábes, incomuns no nosso universo cinematográfico brasileiro, onde predominam filmes hollywoodianos e os tímidos "filmes alternativos" de outros países.
São mulheres fortes, apaixonadas, que de uma forma ou de outra, lidam com relações que envolvem amor. Amor de amante, amor de alguém descobrindo sua sexualidade, amor de irmã, amor-próprio, o simples e inquestionável...amor.

"Santo forte" de Eduardo Coutinho 1999

O documentário de 80 minutos de Eduardo Coutinho nos recorta a relação de moradores da favela Vila Parque da Cidade, na zona sul do Rio de Janeiro, com algumas religiões, como: católica, evangélica e umbanda. Além da mistura entre elas no cotidiano de cada entrevistado.
Coutinho, posteriormente ao trabalho de sua equipe, selecionou 11 pessoas que relatam suas experiências com divindades, santos, espíritos, entre outros, deixando em evidência a crença em várias religiões diferentes, tornando cada indivíduo único em suas crenças.
Também se destaca o fato de a maioria ter tido experiências com um pouco de tudo e optarem em não seguir mais nenhuma religião, pois se decepcionaram com as pessoas que freqüentavam esses lugares, ou com alguma outra coisa.
A obra de Coutinho se constitui de técnicas e enquadramentos precários, assemelhando-se a filmes de baixo orçamento e com pouco equipamento. O conjunto do documentário é basicamente de entrevistas diretas, mesclando algumas imagens, usadas para ilustrar falas dos entrevistados, como santos, espaços vazios e imagens de arquivo. Em alguns momentos, essa opção de intercalar imagens, acaba dando um certo tom irônico a fala de algumas pessoas, pois as crenças e a bagagem de significados dos espectadores, podem influenciar diretamente na interpretação dessas construções narrativas, feitas por Coutinho.
Falar de religião é sempre algo delicado, pois é um assunto polêmico e muito pessoal. Mas o recorte de Coutinho parece falar mais da relação das pessoas com várias religiões, do que das religiões em si. Tanto que não temos presença direta de rituais ou missas, apenas foram usadas imagens de arquivo para construção da narrativa documentária e para ajudar nos depoimentos das pessoas.
Apesar de ser um filme interessante, ainda assim, fica vaga a real intenção de Coutinho em mostrar essas pessoas em seu cotidiano religioso. Não pode ser considerada amostra nem da favela e muito menos do Rio de Janeiro, então porque falar dessas pessoas? Porque a escolha específica delas?
Esses questionamentos nos refletem a flexibilidade do documentário e a dificuldade de enquadrá-lo em regras fechadas. Que um documentário passa muito mais credibilidade que um filme de ficção é fato, mas é necessário relevar a presença de elementos e estruturas ficcionais no documentário.
A escolha específica das pessoas que se tornam personagens de si mesmas, o depoimento muitas vezes, dirigido e influenciado pelo entrevistador, as imagens intercaladas, tanto inofensivas como irônicas. Tudo isso dá um tom irreal para algo que se diz real e documentário, mas aí é que está a flexibilidade do filme dito como documentário.
Apesar da presença desses elementos narrativos tão próximos à ficção, ainda assim, o documentário transmite credibilidade e talvez por isso, desencadeie muitos questionamentos, pois os espectadores acreditam na possibilidade daquilo realmente ser verdadeiro, diferente da certeza de quando algo é absolutamente ficcional.

"Piaf - um hino ao amor" de Olivier Dahan 2007

Se eu não conhecia nada de Edith Piaf, passei a conhecer através do filme e das incansáveis pesquisas sobre ela. Viciei em Piaf e nas músicas do encantador idioma francês. Ela realmente é fantástica e sua voz tem uma presença incrível.
Diferente de filmes biográficos que já vi, Dahan optou em montar um mosaico de passagens da vida de Piaf. E é neste mosaico que se constrói uma sólida e fantástica cantora, que enfrentou dificuldades terríveis que influenciaram na formação de sua personalidade.
O filme não é melancólico, na verdade, apesar de todas as tristezas que Piaf passou e de seu temperamento difícil e seus defeitos em evidência, não tem como não se apaixonar por ela.
A atriz Marion Cotillard conseguiu interpretar com êxito, a personalidade forte e o exotismo de Piaf. Atriz tão bela, conseguiu transformar seus traços nos traços exóticos e peculiares de Piaf. Além da performance e dublagem (ou cantoria, ainda não sei ao certo) bem feitos.
Se alguém acredita não conhecer Piaf, quando ouvir algumas de suas canções famosas, terá certeza de que já a ouviu em algum momento da vida.
Gostei do filme, mas gostei ainda mais no dia seguinte, pois ele não saiu da minha cabeça, muito menos as canções. Tenho vontade de ver novo, e por isso considero o conjunto em perfeita harmonia e acabamento.
Com 2 horas e 20 minutos de duração muito bem aproveitados, o espectador envolve-se com a história sem perceber o tempo passar. É um filme belo e bem-feito. E que voz essa mulher tem!
"Non, je ne regrete" é a minha preferida! =)

terça-feira, 23 de outubro de 2007

Filmes do mês - outubro

Atualizando no decorrer do mês na ordem em que assisto.

Outubro

Filmes da 31ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo (vistos de 26 a 31 de outubro)

01- CARAMEL, Nadine Labaki (5)
02- A VIDA DOS OUTROS, Florian Henckel von Donnersmarck (4)
03- EL ORFANATO, Juan Antonio Bayona (4)
04- PEQUENAS HISTÓRIAS, Helvécio Ratton (3)
05- DÉFICIT, Gael García Bernal (2)
06- POSTALES DE LENINGRADO, Mariana Rondón (2)
07- 5 FRAÇÕES DE UMA QUASE HISTÓRIA, Armando Mendz, Cris Azzi, Cristiano Abud, Guilherme Fiúza, Lucas Gontijo, Thales Bahia (2)
08- LONGE DELA, Sarah Polley (2)
09- PEOPLE – HISTÓRIAS DE NOVA IORQUE, Danny Leiner (2)
10- SUKIYAKI WESTERN DJANGO, Takashi Miike (2)
11- A RETIRADA, Amos Gitaï (1)
12- ESTAÇÃO SECA, Mahamat-Saleh Haroun (1) quase dormi
13- SÓ POR HOJE, Roberto Santucci (1)
14- AINDA ORANGOTANGOS, Gustavo Spolidoro (1)
15- OVO, Semih Kaplanoglu (0) dormi
16- O ESTADO DO MUNDO, Apichatpong Weerasethakul, Vicente Ferraz, Ayisha Abraham, Wang Bing, Pedro Costa, Chantal Akerman (0) - dormi
17- A SOMBRA INTERIOR, Silvana Zancolo (0)

Invasores de Oliver Hirschbiegel 2007 - (1)
Quando um estranho chama de Simon West 2006 - (4)
Superbad - É hoje de Greg Mottola 2007 - (2)
Maria Antonieta de Sofia Coppola 2006 - (2)
Notícias de uma guerra particular de João M. Salles e Kátia Lund 97/98 - (3)
O sol de cada manhã de Gore Verbinski 2005 - (2)*
Mais que o acaso de Don Ross 2000 - (3)*
Imagine eu e você de Ol Parker 2005 - (2)
Os produtores de Susan Stroman 2005 - (3)
Justiça cega de Mike Figgis 1990 - (2)
Identidade roubada de Ann Turner 2006 (3)
Crônica de um verão de Jean Rouch e Edgar Morin 1960 - (3)
Fargo de Ethan e Joel Coen 1996 - (4)
Zodíaco de David Fincher 2007 - (2)
Napoleon Dinamite de Jared Hess 2004 - (1,5)
Premonição 3 de James Wong 2006- (1)

*Revistos (0)-horrível; (1)-ruim; (2)-razoável; (3)-bom; (4)-muito bom; (5)-excelente

segunda-feira, 22 de outubro de 2007

"Quando um estranho chama" de Simon West - 2006

Eu me sinto ridícula de ter gostado de um filme que aparentava ser um típico filme adolescente de suspense, mas não é. É um terror psicológico que há muito eu não via.
Quando um estranho chama é uma história clichê, de uma garota que recebe o castigo de ficar de babá, perdendo a melhor festa do colégio. O que parecia uma tarefa simples se torna aterrorizante quando ela começa a receber chamadas de um estranho.
A casa é encantadora enquanto é dia, mas a noite se torna um alvo de extremo suspense.
Sem um elenco conhecido e com uma construção de trilha e seqüências de imagens recheadas de suspense. É um engolir seco do início ao fim.
Possui cenas clichês e tolas, mas o conjunto é um bom suspense que anda raro no cinema. Mais pelas opções de roteiro que pela atuação da protagonista. É o novo "Hello, Sidney!" que marcou nossa adolescência.
Acredito que vale a pena sentar numa sala escura e se "cagar" de medo pela personagem!

domingo, 21 de outubro de 2007

"Maria Antonieta" de Sofia Coppola - 2006


Conheço poucos trabalhos de Sofia Coppola, mas confesso que achei o filme super interessante. Instigou-me a conhecer mais das suas obras.

Maria Antonieta mescla uma história de época, de uma personalidade que existiu, com um figurino e maquiagem bem construídos, com uma direção de arte impecável e com pitadas de características bem contempôraneas. Seja na trilha sonora, enquadramentos e cores.

O filme é colorido, poético e reflexivo. Colorido na fotografia, nos figurinos, maquiagem, doces, penas, cenários. É poético porque muitas vezes o silêncio dos personagens transmite mais que os diálogos.Reflexivo pela linguagem diferente, mesclando clássico e contemporâneo. A música como estado de espírito e não apenas como trilha. A música como personagem. Assim como o all-star sujo que aparece entre sapatos clássicos.

A fotografia é ousada e bela como Maria Antonieta. Gostei das inovações de linguagem cinematográfica como a cena do quadro, em que anuncia a morte de uma criança pela exclusão desta no quadro. Porém, apesar de interessante, acredito que ocorreram falhas de compreensão. Muitas coisas não ficaram claras para o espectador, e acredito que isso seja negativo para o filme. Além de eu achar decepcionante, um filme ser falado em inglês com mesclas em francês, quando está retratando a França. Coisa bem comum no universo cinematógrafico.

Apesar de vários elementos interessantes, ousados e diferentes do que costumamos ver em filmes de época, achei que o filme ficou monótono e constante demais. Dá a impressão que o filme é uma introdução constante, sem que aconteça uma reviravolta. Esperei por ela até os últimos minutos. Ficou sutil demais, e por isso, achei o conjunto razóavel.

Possui inovadas técnicas, beleza, sofisticação, sutilezas, mas o resultado deixou a desejar.