sexta-feira, 9 de novembro de 2007

"Caramel" de Nadine Labaki - 2007

Nadine Labaki é linda, ótima atriz e dirigiu esse filme fantástico.
Pra quem gosta de Almodóvar, acredito que vai gostar desse filme, pois ele trata da relação de cinco mulheres, com seus dramas, (seus) homens, idade e as típicas dificuldades femininas, de forma bem humorada, colorida e bem construída narrativamente.
A beleza das personagens tem grande destaque, além da presença forte das atrizes. A fotografia é impecável e a trama bem construída.
É um filme delicado, divertido e feminino. No mínimo curioso e diferente, pois lida com cultura e idioma arábes, incomuns no nosso universo cinematográfico brasileiro, onde predominam filmes hollywoodianos e os tímidos "filmes alternativos" de outros países.
São mulheres fortes, apaixonadas, que de uma forma ou de outra, lidam com relações que envolvem amor. Amor de amante, amor de alguém descobrindo sua sexualidade, amor de irmã, amor-próprio, o simples e inquestionável...amor.

"Santo forte" de Eduardo Coutinho 1999

O documentário de 80 minutos de Eduardo Coutinho nos recorta a relação de moradores da favela Vila Parque da Cidade, na zona sul do Rio de Janeiro, com algumas religiões, como: católica, evangélica e umbanda. Além da mistura entre elas no cotidiano de cada entrevistado.
Coutinho, posteriormente ao trabalho de sua equipe, selecionou 11 pessoas que relatam suas experiências com divindades, santos, espíritos, entre outros, deixando em evidência a crença em várias religiões diferentes, tornando cada indivíduo único em suas crenças.
Também se destaca o fato de a maioria ter tido experiências com um pouco de tudo e optarem em não seguir mais nenhuma religião, pois se decepcionaram com as pessoas que freqüentavam esses lugares, ou com alguma outra coisa.
A obra de Coutinho se constitui de técnicas e enquadramentos precários, assemelhando-se a filmes de baixo orçamento e com pouco equipamento. O conjunto do documentário é basicamente de entrevistas diretas, mesclando algumas imagens, usadas para ilustrar falas dos entrevistados, como santos, espaços vazios e imagens de arquivo. Em alguns momentos, essa opção de intercalar imagens, acaba dando um certo tom irônico a fala de algumas pessoas, pois as crenças e a bagagem de significados dos espectadores, podem influenciar diretamente na interpretação dessas construções narrativas, feitas por Coutinho.
Falar de religião é sempre algo delicado, pois é um assunto polêmico e muito pessoal. Mas o recorte de Coutinho parece falar mais da relação das pessoas com várias religiões, do que das religiões em si. Tanto que não temos presença direta de rituais ou missas, apenas foram usadas imagens de arquivo para construção da narrativa documentária e para ajudar nos depoimentos das pessoas.
Apesar de ser um filme interessante, ainda assim, fica vaga a real intenção de Coutinho em mostrar essas pessoas em seu cotidiano religioso. Não pode ser considerada amostra nem da favela e muito menos do Rio de Janeiro, então porque falar dessas pessoas? Porque a escolha específica delas?
Esses questionamentos nos refletem a flexibilidade do documentário e a dificuldade de enquadrá-lo em regras fechadas. Que um documentário passa muito mais credibilidade que um filme de ficção é fato, mas é necessário relevar a presença de elementos e estruturas ficcionais no documentário.
A escolha específica das pessoas que se tornam personagens de si mesmas, o depoimento muitas vezes, dirigido e influenciado pelo entrevistador, as imagens intercaladas, tanto inofensivas como irônicas. Tudo isso dá um tom irreal para algo que se diz real e documentário, mas aí é que está a flexibilidade do filme dito como documentário.
Apesar da presença desses elementos narrativos tão próximos à ficção, ainda assim, o documentário transmite credibilidade e talvez por isso, desencadeie muitos questionamentos, pois os espectadores acreditam na possibilidade daquilo realmente ser verdadeiro, diferente da certeza de quando algo é absolutamente ficcional.

"Piaf - um hino ao amor" de Olivier Dahan 2007

Se eu não conhecia nada de Edith Piaf, passei a conhecer através do filme e das incansáveis pesquisas sobre ela. Viciei em Piaf e nas músicas do encantador idioma francês. Ela realmente é fantástica e sua voz tem uma presença incrível.
Diferente de filmes biográficos que já vi, Dahan optou em montar um mosaico de passagens da vida de Piaf. E é neste mosaico que se constrói uma sólida e fantástica cantora, que enfrentou dificuldades terríveis que influenciaram na formação de sua personalidade.
O filme não é melancólico, na verdade, apesar de todas as tristezas que Piaf passou e de seu temperamento difícil e seus defeitos em evidência, não tem como não se apaixonar por ela.
A atriz Marion Cotillard conseguiu interpretar com êxito, a personalidade forte e o exotismo de Piaf. Atriz tão bela, conseguiu transformar seus traços nos traços exóticos e peculiares de Piaf. Além da performance e dublagem (ou cantoria, ainda não sei ao certo) bem feitos.
Se alguém acredita não conhecer Piaf, quando ouvir algumas de suas canções famosas, terá certeza de que já a ouviu em algum momento da vida.
Gostei do filme, mas gostei ainda mais no dia seguinte, pois ele não saiu da minha cabeça, muito menos as canções. Tenho vontade de ver novo, e por isso considero o conjunto em perfeita harmonia e acabamento.
Com 2 horas e 20 minutos de duração muito bem aproveitados, o espectador envolve-se com a história sem perceber o tempo passar. É um filme belo e bem-feito. E que voz essa mulher tem!
"Non, je ne regrete" é a minha preferida! =)

terça-feira, 23 de outubro de 2007

Filmes do mês - outubro

Atualizando no decorrer do mês na ordem em que assisto.

Outubro

Filmes da 31ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo (vistos de 26 a 31 de outubro)

01- CARAMEL, Nadine Labaki (5)
02- A VIDA DOS OUTROS, Florian Henckel von Donnersmarck (4)
03- EL ORFANATO, Juan Antonio Bayona (4)
04- PEQUENAS HISTÓRIAS, Helvécio Ratton (3)
05- DÉFICIT, Gael García Bernal (2)
06- POSTALES DE LENINGRADO, Mariana Rondón (2)
07- 5 FRAÇÕES DE UMA QUASE HISTÓRIA, Armando Mendz, Cris Azzi, Cristiano Abud, Guilherme Fiúza, Lucas Gontijo, Thales Bahia (2)
08- LONGE DELA, Sarah Polley (2)
09- PEOPLE – HISTÓRIAS DE NOVA IORQUE, Danny Leiner (2)
10- SUKIYAKI WESTERN DJANGO, Takashi Miike (2)
11- A RETIRADA, Amos Gitaï (1)
12- ESTAÇÃO SECA, Mahamat-Saleh Haroun (1) quase dormi
13- SÓ POR HOJE, Roberto Santucci (1)
14- AINDA ORANGOTANGOS, Gustavo Spolidoro (1)
15- OVO, Semih Kaplanoglu (0) dormi
16- O ESTADO DO MUNDO, Apichatpong Weerasethakul, Vicente Ferraz, Ayisha Abraham, Wang Bing, Pedro Costa, Chantal Akerman (0) - dormi
17- A SOMBRA INTERIOR, Silvana Zancolo (0)

Invasores de Oliver Hirschbiegel 2007 - (1)
Quando um estranho chama de Simon West 2006 - (4)
Superbad - É hoje de Greg Mottola 2007 - (2)
Maria Antonieta de Sofia Coppola 2006 - (2)
Notícias de uma guerra particular de João M. Salles e Kátia Lund 97/98 - (3)
O sol de cada manhã de Gore Verbinski 2005 - (2)*
Mais que o acaso de Don Ross 2000 - (3)*
Imagine eu e você de Ol Parker 2005 - (2)
Os produtores de Susan Stroman 2005 - (3)
Justiça cega de Mike Figgis 1990 - (2)
Identidade roubada de Ann Turner 2006 (3)
Crônica de um verão de Jean Rouch e Edgar Morin 1960 - (3)
Fargo de Ethan e Joel Coen 1996 - (4)
Zodíaco de David Fincher 2007 - (2)
Napoleon Dinamite de Jared Hess 2004 - (1,5)
Premonição 3 de James Wong 2006- (1)

*Revistos (0)-horrível; (1)-ruim; (2)-razoável; (3)-bom; (4)-muito bom; (5)-excelente

segunda-feira, 22 de outubro de 2007

"Quando um estranho chama" de Simon West - 2006

Eu me sinto ridícula de ter gostado de um filme que aparentava ser um típico filme adolescente de suspense, mas não é. É um terror psicológico que há muito eu não via.
Quando um estranho chama é uma história clichê, de uma garota que recebe o castigo de ficar de babá, perdendo a melhor festa do colégio. O que parecia uma tarefa simples se torna aterrorizante quando ela começa a receber chamadas de um estranho.
A casa é encantadora enquanto é dia, mas a noite se torna um alvo de extremo suspense.
Sem um elenco conhecido e com uma construção de trilha e seqüências de imagens recheadas de suspense. É um engolir seco do início ao fim.
Possui cenas clichês e tolas, mas o conjunto é um bom suspense que anda raro no cinema. Mais pelas opções de roteiro que pela atuação da protagonista. É o novo "Hello, Sidney!" que marcou nossa adolescência.
Acredito que vale a pena sentar numa sala escura e se "cagar" de medo pela personagem!

domingo, 21 de outubro de 2007

"Maria Antonieta" de Sofia Coppola - 2006


Conheço poucos trabalhos de Sofia Coppola, mas confesso que achei o filme super interessante. Instigou-me a conhecer mais das suas obras.

Maria Antonieta mescla uma história de época, de uma personalidade que existiu, com um figurino e maquiagem bem construídos, com uma direção de arte impecável e com pitadas de características bem contempôraneas. Seja na trilha sonora, enquadramentos e cores.

O filme é colorido, poético e reflexivo. Colorido na fotografia, nos figurinos, maquiagem, doces, penas, cenários. É poético porque muitas vezes o silêncio dos personagens transmite mais que os diálogos.Reflexivo pela linguagem diferente, mesclando clássico e contemporâneo. A música como estado de espírito e não apenas como trilha. A música como personagem. Assim como o all-star sujo que aparece entre sapatos clássicos.

A fotografia é ousada e bela como Maria Antonieta. Gostei das inovações de linguagem cinematográfica como a cena do quadro, em que anuncia a morte de uma criança pela exclusão desta no quadro. Porém, apesar de interessante, acredito que ocorreram falhas de compreensão. Muitas coisas não ficaram claras para o espectador, e acredito que isso seja negativo para o filme. Além de eu achar decepcionante, um filme ser falado em inglês com mesclas em francês, quando está retratando a França. Coisa bem comum no universo cinematógrafico.

Apesar de vários elementos interessantes, ousados e diferentes do que costumamos ver em filmes de época, achei que o filme ficou monótono e constante demais. Dá a impressão que o filme é uma introdução constante, sem que aconteça uma reviravolta. Esperei por ela até os últimos minutos. Ficou sutil demais, e por isso, achei o conjunto razóavel.

Possui inovadas técnicas, beleza, sofisticação, sutilezas, mas o resultado deixou a desejar.

segunda-feira, 15 de outubro de 2007

"Notícias de uma guerra particular" de João Moreira Salles e Kátia Lund - 1997/98

"Notícias de uma guerra particular" se refere à guerra civil que ocorre nas favelas do Rio de Janeiro, entre traficantes e policiais. Uma guerra que parece resultar de uma desigualdade social, fazendo parte de um sistema capitalista e consumista.
Apesar do documentário mesclar o cinema direto (imagens) com discurso direto (entrevistas), poderia ser enquadrado como auto-reflexivo, pois possui uma voz própria, mostrando vários pontos de vista, através de imagens cotidianas dos entrevistados, imagens de arquivo e depoimentos de pontos de vista diferentes, dos envolvidos na história: policiais, traficantes e moradores da favela que ficam entre o fogo cruzado.
Não há uma grande variedade de opiniões de cada ponto de vista, pois os entrevistados que representam cada grupo envolvido, são quase sempre os mesmos. Provavelmente pela dificuldade de se capturar imagens dentro da favela, já que a mesma é liderada pelos traficantes. Tanto é, que os traficantes e jovens delinqüentes que aparecem, não identificam seus rostos.
O curioso é a neutralidade que os realizadores necessitam como posicionamento para realização do seu trabalho e coleta de depoimentos, pois teoricamente, os entrevistados criminosos, que justificam suas razões para estarem no tráfico, são procurados pela polícia. Polícia esta, que não consegue capturá-los, devido ao fogo cruzado, mas que a equipe conseguiu entrevistar.
Traçando um paralelo com a ficção, baseada em depoimentos reais, "Tropa de Elite" de José Padilha, que coloca apenas o ponto de vista dos policiais, o que estes realizadores parecem querer mostrar é que todos são vítimas de um sistema falho e corrupto.
O tráfico de drogas, sustentado pelo tráfico de armas, tornou-se um comércio lucrativo, onde tornam os excluídos de uma sociedade capitalista e consumista, "trabalhadores" bem-remunerados, diante de uma visível desigualdade social e de distribuição de renda. A classe baixa também tem sonhos de consumo, desejos e carências, mas diferente das outras classes, não consegue atingir uma renda mínima para suprir suas necessidades, por isso muitos acabam caindo no tráfico, acreditando que assim possam ter uma vida um pouco melhor. E os policiais, mal-remunerados, arriscando suas vidas, acabam se corrompendo pelo mesmo motivo, para suprir suas necessidades e carências.
Numa sociedade, aparentemente, sem valores e carente de consciência, fica difícil condenar qualquer parte envolvida. Todos são vítimas e todos estão cansados dessa guerra que realmente parece não ter um fim.