quinta-feira, 12 de julho de 2007

"Brás Cubas" X "Memórias Póstumas"

Na obra de Machado temos uma narrativa em primeira pessoa, focada no personagem principal, o “defunto” Cubas, alguém que após a morte resolveu relatar fatos de sua vida. Não há moral, não há final feliz, apenas fatos de romances inacabados, adultérios, frustrações políticas, reflexões, lembranças, devaneios e interferências do autor, através do personagem. Não é uma história visivelmente linear, pois alguns capítulos avançam e voltam no tempo, intercalam-se com os devaneios e reflexões. Porém, apesar da narrativa se apresentar descontínua, não deixa de ser uma história linear. O diretor André Klotzel observa que a obra parece bem moderna, considerando a época em que foi escrita, 1881.

Bressane tentou se aproximar do universo imaginário tanto de Cubas, como de Machado, criando um filme repleto de alegorias e interferências. Ao invés de uma narração do personagem-defunto-autor, como ocorre na adaptação de Klotzel, Bressane optou em narrar através das imagens. Em alguns momentos, o personagem Cubas dialoga com o espectador, assim como acontece no livro, mas a maior parte do filme, dá-se pelas imagens e diálogos da cena.

“Brás Cubas” de 1985 intercala as alegorias em cenas e montagens audiovisuais. No início do livro, há uma passagem fantasiosa de Cubas onde ele se refere ao início dos “delírios”, e no filme, o início também é marcado por uma tentativa de transpor esse imaginário absurdo.

Na cena do envolvimento de Cubas com Marcela, ocorre uma interferência direta do autor do filme, a equipe de filmagem dialoga com os atores Fernando Guimarães e Regina Case, voltam à cena e o filme segue. Esta interferência integrada com as cenas, distancia o espectador do filme, trazendo a reflexão de que “isso é apenas um filme”, igualando-se a Machado que cria esse distanciamento no leitor, quando há um momento de tensão e ele interrompe dialogando através do personagem, diretamente com o leitor, e trazendo a reflexão de que “isso é apenas um livro”, característica também marcante de Machado. Além desse tipo de interferência, ocorre interferência através do personagem Cubas, que dialoga diretamente com o espectador, se referindo a ele como tal. “caro espectador...” Essa interferência transpõe a interferência que acontece no romance, e nesse ponto, Bressane deixou o filme interessante.

Num primeiro olhar, vemos os personagens ridicularizados, mas que serviram para, literalmente, ironizar o filme e criar alegorias da sociedade, que condizem com a obra de Machado. Bressane parece tentar realmente adaptar o livro ao cinema, inclusive transpondo a mão do autor do livro para a mão do autor do filme. Apesar de interessante, a construção da narrativa de Bressane dificultou a compreensão da história. Em parte também, porque o filme de Bressane parece ter sido de um orçamento muito mais baixo que “Memórias Póstumas” de André Klotzel, filme de 2001.

Klotzel consegue fazer um filme agradável, engraçado, levemente irônico e transpondo as partes principais da história de Machado. “Memórias Póstumas” possui um bom elenco, cenários e figurinos bem construídos, além de uma vasta pesquisa histórica. Boa parte do filme é narrada pelo ator Reginaldo Farias que interpreta Cubas já no final da vida, e as imagens apenas reforçam a narrativa do personagem. É como se o filme adaptasse quase que fielmente o livro, sem a interferência do cineasta, abandonando o estilo de Bressane. Ainda ocorrem interferências, mas do personagem e não mais do autor do filme.

Além desses paralelos, Klotzel preferiu não trabalhar com a irmã de Cubas, pois ela não consta no filme, nem seu cunhado, subtendendo-se que ele é filho único. O pai parece mais rígido que no próprio livro e alguns personagens não foram muito desenvolvidos na trama.

Enfim, as duas adaptações trouxeram contribuições para o cinema brasileiro. Bressane parece se aproximar do estilo de Glauber Rocha, arriscando-se a criar um estilo diferente e inovador, utilizando também a trilha sonora como narrativa, enquanto Klotzel preferiu seguir um cinema mais tradicional, bem acabado narrativamente e fiel a obra de Machado.

quinta-feira, 28 de junho de 2007

"Cidadão Kane" de Orson Welles - 1941

"A ascensão de um mito da imprensa americana, de garoto pobre no interior a magnata de um império dos meios de comunicação. Inspirado na vida do milionário William Randolph Hearst." - Extraído do site Adorocinema.
Finalmente assisti a esse clássico cinematográfico. Nossa, como eu já tinha ouvido falar desse filme, mas por algum motivo obscuro e misterioso (hehe) eu ainda não havia assistido.
Achei a fotografia cin. fantástica, adquirida através das milhares técnicas diferentes, conseguidas através de milhares de movimentos de câmera diferentes. O cara é foda!
Assisti na aula de Narrativa Cinematográfica para avaliarmos um exemplo de Focalização Externa Múltipla, (se não me engano). Isso acontece quando o "narrador" parece saber mais que os personagens. (Considerando-se o jornalista investigativo do filme). E múltipla porque a história é tecida por vários personagens que contam, no seu ponto-de-vista, o que aconteceu.
Ok. Confusões a parte, a trama reúne peças de um quebra-cabeça que é montado através da narrativa de cada interrogado sobre a vida de Kane. O mistério gira em torno da última palavra antes de sua morte "Rosebud"que a meu ver, faz referência a época em que Kane se sentiu mais feliz. Alguém que teve tudo que quis e perdeu tudo que teve.
O filme tem tiradas, frases que parecem ditados, e uma bela montagem. Lá no meu íntimo, por estar muito ansiosa, achei o filme um pouco demorado, mas só lá no íntimo. hehe

Não tenho tanto a dizer, preciso assistir mais filmes e ler muito mais pra formar opiniões melhores e bem estruturadas. O filme vale a pena e "."

segunda-feira, 25 de junho de 2007

"A menina santa" de Lucrecia Martel - 2004

Dirigido por Lucrecia Martel. Drama. Argentina, 2004.
Bom, gosto muuuito dos filmes argentinos. Gosto das tramas e dos diálogos. E esse filme não escapa do meu gosto.
Fiquei intrigada quanto ao título, porque ele parece bem irônico. Quem seria santa no filme afinal?! Nenhuma das adolescentes, nem a mãe, nem a professora...
Então fiz minha reflexão. Acredito que o título se refere a Amália, adolescente que se encontra numa fase de descobertas e aprendizado. Freqüenta aulas de religião e se depara com uma situação nova, relacionada a sexo e "pecado". Ela acredita encontrar vocação nessa descoberta de sexualidade.
O filme traz contrastes entre religião e "pecado" (sexo, traição, desejo). Como a jovem que não quer fazer sexo antes do casamento, mas se entrega de "outras formas"; ou a mãe divorciada (bela e carente) que deseja o Dr. Jano, sabendo que ele é casado e cliente hospedado no hotel onde trabalha; e a professora que é visada pelas alunas como beijoqueira e que se assanha com homens mais velhos.
O filme constrói uma trama, unindo histórias paralelas dos mesmos personagens, que desembocam num final que promete ser bem escandaloso, mas que a diretora preferiu "deixar no ar". O final (ou não-final) não chega a decepcionar, porque o que estava para acontecer ficou bem estruturado com a construção das cenas.
Enfim, achei o filme bem interessante e cheio de questionamentos, principalmente de religião e sexualidade. Um prato cheio para discussões cinematográficas.

sexta-feira, 22 de junho de 2007

"Quem bate a minha porta?" de Martin Scorsese - 1969

Hum...o que dizer?!
Este foi o primeiro filme que pude assistir no Cineclube Rogério Sgazanela do curso de Cinema da UFSC.
Dirigido por Scorsese e se não me engano, seu primeiro longa-metragem. E me parece também, auto-biográfico.
Num primeiro momento, ao término do filme, detestei o conjunto. Mas em seguida, muitas coisas ficaram esclarecidas com o debate que se desenvolveu após o filme. Constatei que meu olhar crítico ainda é muito superficial e que filmes assim, desconstruídos e com montagens ousadas e de cinema independente, ainda não estão pro meu "bico".
O pessoal que estava lá falando e argumentando tinha um preparo bem maior e visualizaram no filme, coisas que eu nem tinha reparado, porque estava mais preocupada em me irritar com as sequências vistas. Até tive sonolência em alguns momentos, e talvez por isso, eu tenha perdido algo importante.
Enfim, de acordo com as visões dos colegas, concordo com algumas visões citadas por eles e apresentadas no longa.
A narrativa se intercala em mostrar J.R. (personagem principal) com os amigos, bebendo e fazendo farra, e as sequências de J.R. com a "the girl"que parece vir de um mundo distante de sua realidade. Ela, parece sim, ser um modelo de mulher ideal, contrastando com a fragilidade do mundo de J.R.
Mas, (opinião minha) quando ela narra a sequência em que foi violentada, de alguma forma, parece se aproximar do mundo violento e machista de J.R. Este por sua vez, não acredita em sua inocência e a julga assanhada, como as outras mulheres que não servem para casar, retratando a visão machista da época e que não foge muito da nossa realidade de hoje. Tudo isso tentando mostrar o conflito interno que J.R sofre em conciliar a vida amorosa, com os amigos e a religião.
Bom, superficialmente achei o filme horrível. Mas analisando de forma acadêmica e tentando buscar uma visão crítica, o debate esclareceu bastante a visão que tive do filme, e assim pude entender melhor e até (internamente) tentar algumas interpretações.
Espero participar de mais sessões e aprimorar minha visão cinematográfica.

quinta-feira, 21 de junho de 2007

Sorriso de uma bailarina triste


Era uma vez uma bailarina triste
Era triste porque só tinha uma perna e um braço
Seu criador lhe deu compasso
Mas ela não sabia bailarinar
Seu coração era grande
Mas não havia razão
Não havia cabeça
Membros, apenas
Um dia ela se olhou no espelho
e viu uma linda bailarina
Ser humor não era mais azul
era penteadeira, pincéis, paredes pastéis
A bailarina sorriu e não era mais triste
Não tinha cabeça, mas tinha sorriso
E felicidade fez disso.

A história das botinhas pretas

Cheguei há pouco tempo, mas desde o início elas me surpreenderam.
No começo não questionei, porque eu era nova. Mas depois, mais a vontade, resolvi perguntar porque elas sempre ficavam naquele canto, na mesma posição, intocáveis.
Alguém disse que a dona resolveu deixar ali.
Toda vez que eu entrava naquela salinha, sentava no troninho, observava as botinhas de cano curto, pretas no canto da parede, debaixo da pia. Olhava pra ver se estavam diferentes, mas não, sempre na mesma posição. Reparava no fecho, no ziper, ou se não estavam sujas, ou usadas, mas nada, absolutamente nada.
Pensava porque a dona das botas não as usava. Porque as abandonou naquele canto. Valor sentimental?! Porque não doou, não deu, não vendeu não jogou fora? Porque estavam há meses naquele canto?!
Um dia, entrei naquela salinha fria e reparei que uma das botas estava caída. Fiquei feliz só por pensar que elas haviam sido usadas. Mas a bota ficou caída por dias, na mesma posição. Vai ver foi o vento. Vai ver alguém mexeu e ficou com medo de colocar no lugar. Vai ver a dona ficou com pena e mexeu um pouco nelas, dando um pouco de carinho.
Pois é, as botinhas passaram a não ser apenas um objeto, mas a representação de algo que está ali num canto, intocável, inútil, imprestável. Poderia estar aquecendo os pés de alguém, poderia estar sendo tirada depois de um dia cansativo, poderia estar sendo gasta numa pista de dança, poderia estar atraindo olhares com os passos de um bom par de pernas, mas não, está ali, quieta, no canto, na mesma posição de sempre.
Toda vez que entro, reparo nas botinhas, e acho graça, porque estão sempre ali. As pessoas que estão há mais tempo por aqui, se acostumaram, nem falam mais da botinha. Mas quando eu pergunto, elas também acham graça.
Ninguém tem coragem de tirar a botinha dali. Acho que nem a dona.

"Cléo das 5 às 7" de Agnès Varda - 1961

Esse foi o último filme que eu vi (mais precisamente: ontem). A prof. de Dramaturgia quis fazer um paralelo entre a peça "Ësperando Godot" de Beckett e este filme.
Ainda não li a peça, mas resolvi comentar sobre o filme. Com direção de Agnès Varda (é uma mulher), francês e em preto e branco (com exceção do início). A história é de uma cantora que espera angustiada pelo resultado de uma biópsia. Ela acha que está doente e vai morrer. Isso gera conflitos internos que a levam a sair da sua rotina e parar para ver o mundo. Ela pára para se ver melhor no espelho, para ver as pessoas nas ruas, para ver acontecimentos banais que fazem parte do cotidiano de qualquer pessoa, todos os dias. São nessas descontrações que ela encontra alegria, companhia e reflexões diferentes.
Quando Cléo tira sua peruca impecável é como se estivesse tirando uma máscara social e passasse a ser ela mesma, a verdadeira Florence, cheia de qualidades e defeitos. O filme não possui uma trilha específica, mas os sons das coisas, das pessoas, das músicas diegéticas, parecem construir o silêncio que está presente na peça de Beckett. (tá eu li uns pedacinhos da peça)
Não gostei de alguns cortes na montagem do filme, porque pareciam falhas. Mas o conjunto ficou interessante. É um filme diferente, pra muitos colegas, até monótono. Mas recortar algo do cotidiano, em tempo real, sempre me fascinou. O filme literalmente é das 5 às 7 da vida de Cléo (ou Florence, como preferir).
Percebo nesse mundo, que são poucas, as pessoas que param pra perceber o mundo a sua volta. E até taxam de estranhas, esquisitas, loucas, as que fazem isso. Mas em algum momento, algo muda seu destino, sua rotina, e elas resolvem perceber, só que muitas vezes, tarde demais.