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sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

"A invenção de Hugo Cabret" de Martin Scorsese 2012

 

Ontem, quinta-feira, dia 23 de fevereiro de 2012, finalmente assisti a mais recente obra do cineasta norte-americano Martin Scorsese, consagrado por seus bons filmes de ação e suspense adulto.

Se me perguntassem qual meu filme favorito antes dessa fantástica experiência, não teria uma resposta precisa, mas hoje posso afimar com absoluta certeza que meu filme favorito é "A invenção de Hugo Cabret". Não pela história em si, mas porque é o primeiro filme que conheço (se não for o único que existe) que verdadeiramente homenageia a invenção do cinema, o pioneiro Georges Méliès, meu grande ídolo e uma parte da história do cinema, conhecida teoricamente como 'O primeiro Cinema', ainda mudo, preto&branco, de curta duração e que transitava entre 'realidade e ficção' (Irmãos Lumière e Georges Méliès) num esquema de 'cinema de atrações'.

Ainda esta semana, um dos meus primeiros alunos de cinema, o talentoso Luís Gustavo, procurou-me no facebook empolgado, contando como se lembrou das nossas aulas ao ver este filme. E do início ao fim da sessão, eu chorei de emoção, fiquei arrepiada e minhas lágrimas se misturavam ao meu sorriso, porque eu estava vendo em imagens parte do que havia estudado na faculdade, tudo que havia estudado para dar aula, que havia narrado e compartilhado com meus alunos da Escola da Ilha e pessoas anônimas que passaram pelos minicursos da SEPEX da UFSC, além do meu marido e amigos, que tenho certeza que lembrarão de mim e da minha empolgação ao falar como o cinema surgiu e como Méliès foi pioneiro em transformar sonhos em filmes!!! Meu marido disse 'O filme me fez lembrar de você e das coisas que você sempre fala do cinema!'.

Baseado no livro infanto-juvenil "A invenção de Hugo Cabret", do autor premiado Brian Selznick, o filme de Scorsese une duas histórias, do personagem fictício Hugo e do personagem da vida real Méliès para fazer uma grande homenagem à invenção do cinema e tornar seu filme uma obra essencial e obrigatória para qualquer estudante de cinema e cinéfilo, interessado em compreender o surgimento do cinema e seus primeiros desdobramentos. É um grande presente à História do Cinema e uma justa homenagem à Georges Méliès, pai dos 'efeitos especiais' e cinema de ficção, sempre beirando ao fantástico em suas histórias lúdicas.


Além de tudo isso, o primeiro filme em 3D de Scorsese confirma o terceiro grande marco da história do cinema, após o som e a cor, pois assim como em outras épocas, ainda há muita resistência (como Chaplin resistiu ao som), porém quando grandes cineastas aderem à uma inovação tecnológica e a exploraram ao máximo, será muito difícil reverter esta nova tendência do cinema. Estamos vivendo o 'futuro' e em breve fazer filmes em 2D será pura escolha estética, assim como já é, quando se faz mudo ou em preto&branco.

Scorsese experimenta o 3D de forma genial, explorando a profundidade de campo de várias maneiras, com elementos se aproximando ou se afastando em relação à câmera, com planos fixos e móveis, favorecendo a sensação de imersão nas cenas, além do bom uso da sobreposição de elementos cênicos, típico do 3D. Os enquadramentos parecem feitos de várias camadas!! Dá vontade de tocar os objetos e andar nos cenários!

A seqüência inicial do filme, quando a câmera desliza na estação e pára diante dos olhos de Hugo, escondidos por trás de um relógio, é maior prova de que o 3D não será passageiro, mas uma técnica que será explorada cada vez mais por mentes brilhantes do cinema. Este é um segundo grande presente, vivenciar uma nova forma de fazer filmes, quando tudo já parece tão desgastado. Scorsese soube explorar e pensar em 3D brilhantemente!


A direção de arte e uso da luz (contraste claro e escuro) reforça a tridimensionalidade e profundidade de campo do filme, mantendo um ar lúdico e fantástico, essencial em filmes infanto-juvenis, e especial quando se homenageia Méliès. Lembrei-me muito dos filmes do cineasta francês Jean-Pierre Jeunet (Delicatessen, O fabuloso destino de Amélie Poulain, Micmacs, etc), que também acredita que o cinema é o mundo da imaginação e dos sonhos.

Hugo (Asa Butterfield) é um jovem inventor, que aprendeu a consertar engrenagens e relógios, com os ofícios do seu pai relojoeiro. O último momento que passam juntos envolve a descoberta de um misterioso autômato, um boneco mecânico, que está quebrado e precisa de consertos. Antes do mistério ser desvendado, o pai de Hugo morre num incêndio e seu tio alcóolatra o leva para estação de trem, seu novo lar.

É neste ambiente, numa Paris de 1930 (ainda que os personagens falem inglês), que Hugo conhece o desanimado e inconformado Papa Georges (Ben Kingsley), dono de uma loja de brinquedos, e sua neta Isabelle (Chloe Moretz), devoradora de livros que nunca foi ao cinema.


Obcecado pelo conserto do autômato, Hugo rouba peças da loja de Mèliès, até ser pego e ter seus pertences retidos pelo velho rabugento. O caderno que carrega contém todas as informações sobre o boneco mecânico, o que deixa papa Georges transtornado. É neste clima de mistério juvenil, que a amizade de Isabelle e Hugo se fortalece e juntos descobrem quem Papa Georges realmente é, o grande pioneiro cineasta Georges Mélies.

Em certo momento do filme, Hugo conversa com Isabelle e acredita que tudo existe por uma razão, que qualquer artefato mecânico nunca contém peças extras, e por isso acredita que cada ser humano tem uma função no mundo, uma vocação, um objetivo. 'Ninguém é uma peça extra!'. Isabelle e Hugo não sabem ao certo qual sua função, mas acreditam que a de papa Georges precisa ser lembrada, pois ele parece tão quebrado quanto o boneco mecânico.

Aí reside a grande mensagem infanto-juvenil do filme: encontrar sua paixão, sua função e vocação. Sentir-se parte do mundo, essencial! Nunca alguém extra e descartável. E se observarmos o ciclo da natureza, tudo realmente cumpre uma função e se transforma! Ninguém é resto ou lixo! E se Méliès estava se sentindo assim, Hugo e Isabelle o ajudam a lembrar-se de quem foi, assim como Scorsese, através de seu filme ajuda-nos a lembrar de como o cinema surgiu e de como Méliès foi importante!!

 'Viagem à lua' de Georges Méliès (1902) 
Meu filme favorito do 'Primeiro Cinema'

O filme é emocionante 'fora de campo', pois me toca no meu lado mais sensível. Sou alguém que acredita nesse cinema da imaginação!!! Nada de discursos políticos ou posturas radicais, apenas entender que o cinema é aquilo que queremos que ele seja para nós, realizadores e espectadores. Ninguém é dono da verdade ou de uma definição específica, pois a experiência do cinema é única e passageira. Os filmes passam e se multiplicam, mas sensações e lembranças de cada experiência é que ficam!!! =)


Mais do que uma história infanto-juvenil, uma mensagem positiva, uma trama misteriosa e lúdica, uma belíssima direção de arte e experiência 3D, ou um ator não tão expressivo, e uma Paris estereotipada, o mais tocante foi ver trechos de filmes de Méliès restaurados em 3D. Foi emocionante ver 'A chegada do trem na estação' e as pessoas se jogando atrás das cadeiras. Ver o primeiro estúdio de cinema, feito de vidro para entrar toda luz possível, e os bastidores dos primeiros filmes do cinema, cenários, figurino, efeitos e peripécias!! "Aqui que inventamos os sonhos!" disse Méliès, o cineasta ilusionista que encantou o mundo com seus filmes fantásticos, pouco lembrados e valorizados! Talvez resida aí a importância de uma aula de cinema, que esclareça que os efeitos especiais começaram muito antes de Star Wars e afins! =)

Ver Hugo foi uma experiência tocante, emocionante e apaixonante, pois homenageia o começo de algo que se tornou minha grande paixão, como realizadora, espectadora e professora, pois mais do que fazer filmes, eu me realizo ensinando a fazer!! O cinema é de todos, e se eu puder ajudar que outros se expressem através dele, estarei fazendo cinema também! =)

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

"A árvore da vida" de Terrence Malick 2011


Eu não gostei desse filme, mas isso é uma coisa que realmente nem importa. Neste caso, gostar ou não gostar, não desmerece a originalidade e complexidade da obra de Malick. É quase como dizer que 'se gostou ou não se gostou' do (impactante) "Mictório" de Duchamp ou de alguma obra (abstrata) de Picasso.


'A árvore da vida' é a abstração em filme. É a superação da narrativa linear ou não-linear. É um filme quase não-narrativo. Surreal talvez?! É a expressão simbólica de sentimentos e da espiritualidade de um diretor de quase 70 anos e com apenas 5 filmes na carreira. Ninguém faria um filme tão pessoal e intimista se pertencesse a indústria cinematográfica ou não tivesse recusado financiamento de grandes estúdios em sua primeira realização, apenas para ter plena liberdade artística em suas criações. Os filmes de Malick não são acasos. Ele fala sobre o que o toca profundamente. Dedica seu tempo precioso em cada segundo. Ele não faz filmes, ele cria! E jamais vai à público falar sobre seus filmes. Talvez ele pensasse como Chaplin, 'quer saber sobre mim'?! Veja meus filmes!!

É poesia e também 'poetar'; é refletir sobre os sentidos da vida e da morte, questionar e refletir sobre a fé e sobre Deus, como Jó também fez.

No início do filme somos contemplados com uma passagem bíblica da História de Jó. Essa é a premissa da história que irá nos envolver. Como ponto de partida, somos apresentados à família O´brien, suas alegrias e dores, inseridos num contexto muito mais amplo, simbolizado por uma construção gradativa de imagens sobre a criação divina, sobre a fé, sofrimento e complexidade da vida humana.

Na história bíblica, Jó era o mais fiel servo de Deus e levava uma vida plena e feliz, com vários filhos, posses, riquezas e uma bela esposa. Sempre agradeceu pelas coisas boas da sua vida, até o dia em que o Diabo confrontou Deus sobre Jó. O Diabo disse que Jó era fiel por não passar por nenhum sofrimento na vida. Deus então permitiu que o Diabo testasse a fé de Jó, com a única condição de poupar sua vida. O Diabo então tirou todas as riquezas e posses de Jó, mas ele permaneceu fiel e devoto ao seu Deus. Acreditava que assim como tinha que agradecer as coisas boas, deveria agradecer pelas ruins também, pois de alguma maneira eram necessidades e desejos divinos. O Diabo então tirou a vida de todos os filhos e da esposa de Jó, para que ele experimentasse a dor e perda além da material. Jó sofreu ainda mais, mas permaneceu devoto. O Diabo então resolveu tirar a única coisa que restava, a saúde de Jó, e ele penou, questionou a Deus tamanho sofrimento. As pessoas que conheciam Jó começaram a achar que ele fez por merecer todo aquele sofrimento. Jó ainda que tenha questionado a vontade divina, teve paciência, se arrependeu e renovou sua fé. Deus então o recompensou em dobro!!

A importância da história de Jó é a reflexão sobre a necessidade da perda e da dor para fortalecer a fé. Há muitos ateus e céticos no mundo, que diante da crueldade humana, condenam Deus ou a possível existência de um, mas fortalecer a fé é equilibrar-se mentalmente e espiritualmente. Diante de um problema, reconhecê-lo, cercá-lo e superá-lo. Diante de uma perda ou sofrimento, fortalecer-se, e isso pode ser com ou sem fé divina!

Malick parece ter sido tocado pelas histórias bíblicas e transportou essa espiritualidade para o cinema e para esta história, que fala justamente da criação divina, com imagens de explosões cósmicas, combinações químicas, primeiros seres vivos do planeta, evolução das espécies, até o surgimento do homem. 

Este ser Homem é representado por uma família tradicional da década de 50, onde um casal gera 3 filhos homens. Acredito que a escolha dessa ambientação (déc. 50) se deve às as próprias experiências pessoais de infância de Malick, suas referências e vivências, que ainda não envolviam eletroeletrônicos e novas tecnologias (televisão, vídeogames, etc). A 'doce' e 'velha' infância foi um período onde nossos pais ou avós foram educados por pais rígidos, mães dóceis e submissas, e onde se brincava de bolinha de meia, correr nos campos, banhar-se em rios, etc. Bem mais 'fácil' de trabalhar, não?!

Através do primogênito Jack, conhecemos simbolicamente o desenvolvimento biológico, social e cultural humano: o nascimento, os primeiros passos, as primeiras palavras, a descoberta do outro e dos objetos, o ciúme (do irmão), o primeiro machucado, as primeiras brincadeiras, o amor. E além de tudo isso, Jack e seus pais plantam uma árvore, que simboliza o próprio crescimento, amadurecimento e desenvolvimento de Jack. "Você já terá crescido antes da árvore!"  E adulto ele sempre está rodeado de árvores altas, além dos prédios.

Jack, criança e adulto (Sean Penn), representa a ambigüidade humana, desde quando se descobre um ser, enquanto criança e quando vivencia o 'complexo de Édipo' no final da infância, ao amar a mãe (Jessica Chastain) e detestar seu pai (Brad Pitt) - de educação rígida - até o sentimento de culpa e questionamento da fé na fase adulta.

A abstração de Malick é necessária para criar a subjetividade espiritual. Os personagens pouco falam e mais agem. Refletem (em voz-over) sobre si mesmos, sobre Deus e sobre a própria fé constantemente, como também fazemos cotidianamente. "Porque ser bom, se você não é Deus?!" se pergunta Jack ao ver uma criança morrer afogada. "Porque faço coisas que não quero fazer. Posso voltar atrás?!" se pergunta Jack ao implicar com o irmão, quebrar uma janela, aprontar. Jack vive o conflito de ser alguém 'bom' ou 'ruim', quando somos além do bem e do mal, humanos demasiados humanos, diria Nietzsche.

E ainda que os acontecimentos não sejam lineares, estão todos conectados. Nós espectadores montamos as peças ao final. E é ao final que somos contemplados com a morte simbólica. A vida após vida, um encontro de reencontros, com aqueles que perdemos e com nós mesmos! Um encontro espiritual e divino, segundo Malick.

Porque eu não gostei?! Porque consegui ver toda essa beleza e profundidade, sem ter sido tocada. Não é culpa dele e nem minha. Simplesmente não controlamos nossos sentimentos e sensações, são espontâneos. Uma pena! Queria ter entrada na 'vibe', na mesma sintonia do filme! (Talvez tenham sido os tabletes distraídos de chocolate; o calor típico do verão; as bitocas e chamegos com a pessoa amada por alguns segundos; os rápidos diálogos; alguma agitação natural do dia...não sei e nem saberei!)

Aos pessimitas, recomendo que para resistir a este filme até o final, é preciso 'mente aberta' e paciência, pois Malick não procura entreter ninguém em seus projetos. Ele procura 'tocar', deixando a espontaneidade fazer seu trabalho.

E como toda semente, este filme talvez ainda precise amadurecer dentro de mim! Ou não! =)

Ps.: Amei essa definição (super divertida) do filme aqui, então recomendo! =) "O filme é um abraço!"


quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

"Chaplin" de Richard Attenborough 1992


Duas palavras: Charles Chaplin!

Nem Lumière, Meliès, Godard, Truffaut, Glauber Rocha, Spielberg, Almodòvar,  Burton, Fincher, Meirelles.....ninguém consegue cativar tanto minha admiração como Chaplin!

 
É na sua simplicidade que reside a genialidade. Obras de mais de 50 anos para qualquer público, em qualquer lugar, com qualquer repertório, de qualquer idade, qualquer gosto... 

Criar algo capaz de abranger o 'mundo' como público é genial! Ver qualquer obra de Chaplin pode despertar o riso, mas também promover muita reflexão, combinação que ele sabia fazer brilhantemente. "Tempos Modernos" que o diga! Mas ainda que ele seja reconhecido, nunca tive uma aula sequer sobre Chaplin, uma discussão e ele mal é citado nos livros teóricos. Uma pena! Mas com toda pessoa brilhante sempre há injustiças! Talvez a mesma injustiça que sofra Mazzaroppi, o Chaplin brasileiro!

Nesta cinebiografia, baseada no romance de sua autoria, com participação de Geraldine, neta de Chaplin, Robert Downey Junior personifica um homem inesquecível, com passado pobre e difícil, sonhador, determinado e ousado. Sua vida é mostrada desde os 5 anos de idade em Londres, em uma espontânea apresentação musical, até a ocasião em que finalmente é reconhecido pela 'Academia' e recebe o Oscar honorário pelo conjunto da obra em 1972, após anos de exílio na Suiça.


...e a peça termine sem aplausos!

Chaplin foi pioneiro e lutou por um cinema independente, e ouso dizer, um cinema autoral e único na época, ao criar o personagem que o consolidou como astro, Carlitos ou 'O vagabundo'. Através da cinebiografia descobrimos a dificuldade em lidar com a pobreza e a loucura da mãe, sua vida de mulherengo, a ausência de um pai, o início da carreira no teatro e depois no cinema, quando ainda era mera atração de trabalhadores e não se acreditava no cinema como arte.

Sua vida foi dedicada ao cinema nas mais diversas funções, comprometendo diversos casamentos e relações sociais, além da fortuna lhe render processos de paternidade e 'golpes do baú'.

Chaplin foi pioneiro na arte de fazer rir, de entreter, de falar afetuosamente com o (grande) público em tempos de guerra e crise econômica, ainda que suas críticas sociais não fossem tão explícitas e engajadas 'politicamente', como prefere Godard. Talvez um ousado 'senso comum' expresso em imagens e peripécias, que acabaram o rotulando de 'comunista' e o condenando ao 'exílio' após anos de carreira e sucesso nos EUA.

Chaplin foi muito injustiçado e talvez ainda seja, mas suas obras criadas (ator, diretor e escritor) em tempos técnicos bem limitados (sem cor e som, por exemplo) ainda provocam risos de qualquer geração. Incontestavelmente, um gênio! 

Um "Adriano" do cinema talvez, diria Freinet. Seu viés artístico estava na teimosia em não aderir ao som por anos, argumentando que o cinema falava pelas imagens. Talvez ele não tenha teorizado sobre isso e nem discursado, mas nessa época o cinema ainda engatinhava e se consolidava como indústria (antes do estatuto de arte, conquistado na década de 60), onde foi reconhecido e disseminado pelo mundo. Que bom! Sem o cinema-indústria, talvez hoje não existisse cinema nenhum!

Para conhecer e entender Chaplin não basta ver sua tímida cinebiografia, 'veja meus filmes' diria ele! "O garoto", "Tempos modernos" (meu favorito), "Luzes da cidade", "O circo, "O ditador" e outras obras-primas! =)

  
Chaplin só queria ser amado! Mas quem não quer?! =)

Museu Chaplin aqui.

Ps.: Nesta cena é possível entender o processo de montagem no início da história do cinema!

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

"Os homens que não amavam as mulheres" de David Fincher 2011

 

O que nos faz querer ver um filme?! A história? O elenco? O trailer enigmático? As críticas negativas ou positivas?! 

Talvez não haja uma explicação lógica, apenas uma atração inesperada em conhecer algo diferente. E este filme em especial me provocou muita curiosidade, mesmo sabendo ser a segunda versão fílmica (e hollywoodiana) adaptada do romance 'Män som hatar kvinnor' de Stieg Larssonde, sucesso entre o público adulto. (A primeira versão fílmica sueca foi realizada em 2009 e ainda não assisti!)

É preciso estômago forte para sentar na poltrona e ver este filme até o fim quando se é mulher (e um homem sensato e 'decente'), assim como precisei quando assisti "Irreversível" de Gaspar Noé (2002). 

O filme não se trata apenas de um suspense policial, protagonizado pelo jornalista polêmico, Mikael Blomkvist (Daniel Craig), envolvido em um escândalo político, contratado por Henrik Vangerum (Christopher Plummer), um homem rico e com uma família enigmática, para descobrir o que aconteceu com sua sobrinha Harriet, desaparecida há 40 anos. 


O centro da história é a violência contra as mulheres, de todas as naturezas possíveis, em especial a violência sexual, materializada pela competente atuação de Rooney Mara na personagem inesquecível de Lisbeth Salander.

Lisbeth é uma hacker punk e antisocial, que esconde de todas as maneiras possíveis qualquer traço de feminilidade, sexualidade e sensibilidade. Não é preciso muito tempo para entendermos que sua vida foi marcada por profundos traumas e sua aversão aos homens é visível. Diante de uma situação limite vivida, Lisbeth revelou sua psicose, diria Jung. Em horas de lazer, usuária de drogas, álcool e sexo consentido. Ela não vive, sobrevive!

Sob tutela do estado, depende de tutores para ter acesso a dinheiro e manter sua 'liberdade', mas sua ficha é longa e suja demais para ter qualquer credibilidade diante de qualquer tipo de extorsão e violência física por parte de seus 'tutores'. É nessa fragilidade física e social que Lisbeth é mais uma das tantas mulheres exploradas e violadas de todas as maneiras possíveis, por homens que se julgam superiores e 'invencíveis'. 

Sofremos com sua dor e desejamos a doce vingança (aquela mesma de "Dogville" de Lars Von Trier - 2003) que coroa a reviravolta na trama com a tatuagem "Eu sou um porco estuprador", pois em seguida Lisbeth conhece Mikael e é contratada para desvendar o desaparecimento de Harriet.

Dois protagonistas que evoluem em tramas paralelas e que se unem para desvendar uma série de assassinatos cruéis associados a passagens bíblicas, onde as vítimas são mulheres, estupradas, esquartejadas e desfiguradas. Mulheres-objeto, usadas, abusadas e descartadas como lixo. Vingança doce e dupla!!

Lisbeth em sua obsessão hacker ajuda Mikael a cruzar as informações e encontrar o assassino de todas elas, o irmão falecido de Henrik (o tio de Harriet). Porém, toda essa crueldade foi praticada na presença do primogênito Martin (Stellan Skarsgård), também serial killer de mulheres e irmão de Harriet. Sua sexualidade e desenvolvimento psicossexual incorporaram a crueldade paterna, dando continuidade aos abusos sexuais familiares já existentes.

A revolta com 'os homens que não amavam as mulheres' é tão grande que sentir aversão à humanidade se torna natural, mas Lisbeth nos surpreende ao mostrar doçura e delicadeza ao se envolver sexualmente e emocionalmente com Mikael, figura protetora e gentil. "Eu fiz um amigo!" diz ela ao final. 

Muitos homens ainda não amam as mulheres, mas Fincher nos apresenta uma anti-heroína, em toda sua agressividade e rebeldia, necessárias num mundo tão hostil e cruelmente humano. Precisamos acreditar que outras 'Lisbeth' existem, guerreiras e sobreviventes. E desejar secretamente justiça 'olho por olho', 'dente por dente', pois não há punição que remedie a dor de (sobre)viver algumas violências. Eu prefiro a morte!

A trama é forte, cruel, acompanhada de uma trilha sonora tensa e sombria, repleta de personagens enigmáticos, sarcásticos e dúbios. E o cenário é mais verossímel que qualquer conto de fadas. O filme 'makes me sick' (me deixa enjoada) e culpada de assistí-lo. Mas às vezes, entre alguns 'happy ends' e 'mundos cor de rosa' é preciso encarar a complexidade humana e as manifestações sexuais injustas, reais e atuais em nossas sociedades. 'Humano demasiado humano'. 'Além do bem e do mal!' diria Nietzsche.


É preciso falar sobre o paternalismo e machismo perpetuados há séculos entre os homens, manifestados explicitamente através das violências físicas e sexuais tão presentes nas mídias, ainda que muitas organizações sociais pré-históricas fossem comprovadamente matriarcais e coletivas. Tudo pelo poder...uma pena!

É preciso mostrar o extremo e o horror para provocar desconforto, choque e talvez alguma reflexão em mulheres que se tratam como objetos, e se permitem ser usadas, inferiorizadas, submissas, caladas e infelizes. Há mulheres que não se amam!

Aos homens que simplesmente 'não amam' as mulheres, Lisbeth! =)

sábado, 7 de janeiro de 2012

"A vida em preto e branco" de Gary Ross 1998


A sinopse é simples: 2 irmãos com personalidades completamente diferentes em plena década de 90, onde a televisão já é colorida e os costumes não são mais aqueles tradicionais dos nossos antepassados, disputam o controle remoto da televisão e acabam indo parar 'dentro da TV', depois da visita inesperada de um estranho senhor. 

Jennifer (Reese Whisterpoon) tinha um encontro com um garoto popular da escola e é completamente desinibida e sensual, já David (Tobey Maguire) é solitário, nerd, 'impopular' e queria passar a noite vendo a maratona de episódios de sua série favorita Pleasantville.

O título original deste filme é 'Pleasantville' pois é justamente o nome do lugar onde se passa a série de televisão que leva o mesmo nome, realizada quando a TV ainda era preto&branco e numa década (50/60) onde a discussão da sexualidade era ausente nas narrativas televisivas e costumes da época.

Em Pleasantville as camas dos casais são separadas, ninguém aparece indo ao banheiro e nem faz sexo, os bombeiros apenas salvam gatos, os livros estão em branco, os jovens se encontram para tomar sorvete ou dar a mão na 'Alameda dos namorados' e as esposas toda noite preparam o jantar da família. Além disso, para aquelas pessoas nada existe além de Pleasantville!

Os protagonistas da série são 4 pessoas que integram uma família tradicional, onde o homem trabalha, a mulher cuida da casa, comida e filhos, e cada filho é educado e exemplar nos estudos e em tudo que fazem. A série idealiza uma sociedade perfeita, sem violência, sexo, conflitos, questionamentos e problemas. Porém, muitos problemas são causados pelas coisas boas da vida! Será que é realmente bom não ter problemas?!

David e Jennifer aparecem no lugar dos filhos da família Parker, protagonista da série, e enquanto David tenta descobrir um modo de sair daquele mundo surreal, Jennifer não consegue conter sua personalidade e sexualidade ao conhecer o garoto da escola que é apaixonado pela sua personagem. 

Quando Jen se liberta no mundo limitado de Pleasantville, fazendo sexo e ensinando a mãe como dar prazer a si mesma, a árvore do quintal fica em chamas e os bombeiros precisam da ajuda de David para apagá-lo. David acaba se tornando popular e ao contar as histórias dos livros, suas páginas começam a se encher de texto.

As atitudes de Jennifer e David fazem com que a tradicional Pleasantville comece a ganhar novas cores. O mundo preto e branco de Pleasantville começa a ficar gradativamente colorido, surpreendendo e assustando os moradores e todos aqueles acostumados a um modo de vida, sem questioná-lo ou superá-lo. A cidade fica meio colorida e meio cinza, e os moradores tradicionais começam a querer combater aquilo que é diferente. "Pessoas coloridas não entram!", "Tintas que não sejam preta, branca e cinza são proibidas!", "A alameda dos namorados está fechada!" E é no julgamento principal que David explica que o colorido está na descoberta dos prazeres da vida, nos sentidos, no carnal, no instinto...Sexo, amor, raiva, desejo, inveja, ciúme, saudade...todos estes sentimentos são os que dão a cor as nossas vidas, e trazem conseqüências boas e ruins, mas reais!!

Talvez David gostasse de Pleasantville como forma de fugir de si mesmo e da sua realidade, sendo um garoto tímido e inseguro. Quando ele beija pela primeira vez não fica colorido como alguns moradores da cidade, mas quando defende sua mãe e deixa extravasar seus sentimentos verdadeiros de raiva e injustiça, ganha nova cor. Jennifer só muda de cor quando descobre o prazer da leitura, algo que ignorava em seu mundo real, onde o sexo era banal. 

Para quem conhece os prazeres da vida, com suas maravilhas e problemas, sabe que não poderia ser feliz se ela fosse em preto e branco, sempre do mesmo jeito, sem nunca superá-la. A instabilidade e multiplicidade das cores é que nos motiva e alegra! Até o fogo, que antes não existia em Pleasantville, surge ao sinal de um orgasmo! "Sexo é vida, é fogo, é instável, é paixão, é pecado, é desejo, é amor..."

Em certo momento do filme, a nudez e o sexo são ridicularizados pelos 'preto e branco', a música, os namoros, a cor e a arte são reprimidos, e o machismo se mostra quando a mãe Betty decide que não quer mais apenas servir o marido, depois de ganhar nova motivação em sua vida. A discussão do divórcio se apresenta e aí nos perguntamos das desvantagens desse mundo colorido. Seriam mesmo desvantagens ou necessidades?!

Apesar de ter sido feito na década de 90, o filme não apresenta um final feliz, mas uma reflexão do que integra a nossa vida. De um lado um mundo sem problemas, mas sem estímulo dos sentidos e sentimentos humanos, do outro, um mundo real e colorido, com suas dores e maravilhas. É possível escolher? É possível idealizar? Há a possibilidade de mundo perfeito?!

Não sabemos e nem saberemos! Que bom!

"Amor por contrato" de Derrick Borte 2010


Se depender da capa, do título e da sinopse, o filme parece não ter muito potencial, mas se engana aquele que pensa que o filme se trata apenas de uma história de amor ou coisa do tipo! Talvez o diretor (estreante) tenha tentado mesclar um assunto interessante com uma superficial história de amor, mas ignorando o final clichê, é um filme que vale a pena conhecer!

Estas quatro pessoas da foto (Kate - mãe; Steve - pai; Jenn - filha e Mick - filho) são atores contratados pela empresa 'LifeImage' e formam uma família 'perfeita' que se muda para um bairro nobre dos EUA e estimulam todos os que conhecem a terem seu estilo de vida: roupas, carros, cosméticos, artigos esportivos, hábitos, vídeogames, celulares, etc. Os quatro são pagos para 'vender' seu estilo de vida, e todo mês sua supervisora aparece para conferir o crescimento das vendas.

O problema é que ninguém naquele bairro sabe que eles não são realmente uma família e aí entra a polêmica da publicidade 'camuflada', completamente atual e discutida na nossa sociedade. Inclusive várias marcas conhecidas (lacoste, tommy, etc) aparecem no filme e me pergunto se isso também não é uma publicidade camuflada para nós, consumidores-espectadores.

Ontem mesmo eu estava lendo uma matéria na revista "Mundo Estranho" sobre os 'segredos' da publicidade e curiosamente em uma das páginas se falava sobre a publicidade do futuro, onde pessoas serão contratadas para disseminar produtos e serviços em círculos sociais específicos. Segundo a revista, na Suécia (e outros lugares) já existem 'atores' contratados em lojas de roupas e supermercados para elogiar quando um cliente prova uma roupa, ou circular com os carrinhos cheios de comprar para estimular o consumidor.

Ou seja, não demorará muito para realmente existir uma 'família' que é paga para lançar novos produtos e serviços e convencer as pessoas de seu círculo social a fazerem isso também! Na verdade, indiretamente já fazemos isso, ao circular com as sacolas da loja, exibir roupas e novas aquisições, elogiar um produto, só que sem receber nada por isso. O famoso 'boca a boca'!!

Como no filme, quando os produtos são bons, fazer publicidade 'camuflada' não parece prejudicial, afinal ela não 'seria' enganosa, porém as coisas começam a sair do controle e de um lugar 'seguro', quando o consumo de 'álcool' (novidade no mercado) numa festinha entre os amigos de Mick (filho) é investigado pela polícia, após uma jovem (sua amiga) dirigir embriagada e se envolver numa colisão. Mick se defende para os pais-colegas, "mas quem mais iria beber essa droga?!" O novo drink é um ponche de pacotinho com 70% de álcool. Mick tem razão! Em festas luxuosas é que não seria!!

Talvez seja esse o preço de lançar um produto para determinando ou específico público-alvo, sem prever as conseqüências de um público consumidor alternativo. Por exemplo, como evitar que a criança ou adolescente não seja um consumidor precoce de álcool, diante dos constantes comerciais divertidos e atrativos de cerveja?!

E se antes a publicidade 'camuflada' parecia inofensiva, Steve percebe o erro que cometeu ao se aproximar do vizinho Jerry e instigá-lo a ser um consumidor assíduo. O problema não é só o consumo excessivo e desnecessário, mas o desejo de consumir, sem ter da onde bancar! E isso nos leva às populares e cada vez mais frequentes dívidas, aquisições de múltiplos cartões de crédito e às vidas de aparência, que camuflam a falência e problemas familiares sérios. 'Tudo se resolve com presentes e agrados!' Péssimo conselho!

Como eu disse, se excluírmos o romance superficial entre Kate e Steve, o final interessante é justamente o infeliz! Publicidade camuflada é prejudicial sim! Vender 'estilos de vida' aparentemente perfeitos como se fossem verdadeiros é prejudicial sim! E uma legalização severa em cima da publicidade e propaganda são realmente necessários, num mundo globalizado, cada vez mais consumistas e 'cego' pela aparência de felicidade!!

Que este filme possa servir para abrir os olhos ou fazer pensar sobre o assunto, ainda que não tenha a profundidade necessária para tal, mas que pode ser tranquilamente mediado por alguém preparado e com uma visão crítica sobre o assunto! Recomendo super! 

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

5 filmes inesquecíveis de Natal!!!!

Natal é tempo de ser criança de novo, de olhinhos brilhando, de reunir a família, comer comidas gostosas, ser mais solidário, se preparar para o novo ano, realizar sonhos, presentear, agradecer, orar, acreditar...

Infeliz aquele que acha tudo isso uma grande hipocrisia e de tanto ceticismo se torna uma pessoa amarga e descrente de tudo.... Felizes aqueles que continuam acreditando na alegria, esperança e num mundo melhor... Milagres e sonhos realizados existem! =) E boas risadas são bem vindas!

Eu adoro essa época de Natal e por isso resolvi resgatar alguns filmes que marcaram minha infância (e fase adulta) e são inesquecíveis para muitas gerações!

 'Esqueceram de Mim' 1 e 2 de Chris Columbus (1990) 

Quem nunca repetiu a frase 'Fique com o troco, seu animal?!" e deu muita gargalhada com as peripécias do pequeno Kevin (Macaulay Culkin) para se defender de 2 ladrões muito desastrados!! Ainda que muita gente já tenha enjoado desse filme, foram incontáveis as vezes que já assisti e vibrei com a criatividade e imaginação de uma criança em apuros!

"Milagre na Rua 34" de Les Mayfield (1994)

Depois de ver esse filme, ficava pensando se o Papai Noel realmente não existia. Há quem prefira não acreditar em nada, mas estimular a imaginação, a fantasia e criatividade da criança é extremamente importante!! E sem nada disso, diante dos desafios diários, ficaria bem mais difícil encarar as durezas da vida! "A vida é bela" (Roberto Benini) que o diga! Bom seria se na vida adulta essa inocência e pureza não se perdessem no meio de tanta maldade e ceticismo! 

"Um herói de brinquedo" de Brian Levant (1996)


Mais do que um filme 'cinemão' sobre a aventura de um pai que precisa comprar o presente de Natal tão desejado pelo filho, é também um filme sobre família, pais ausentes e distraídos, consumismo, sonhos de criança e a busca pelo heroísmo no próprio lar. Quando crianças enxergamos nossos pais como heróis, e infelizmente com o tempo essa visão se perde, ao termos consciência de um mundo cheio de hierarquias econômicas, sociais e políticas, onde nossos pais, quando não estão no topo, deixam de ser nossos heróis. 

O filme serve como reflexão dessa relação entre o capitalismo e a convivência/sobrevivência humana, inserida nesse sistema 'selvagem'! Um pai de negócios ausente, que promete ao filho qualquer presente de Natal para compensar sua ausência e se envolve em peripécias para cumprir sua promessa! Não seria mais fácil ser mais presente e atencioso?! Crianças carentes de amor e carinho trocariam qualquer brinquedo e presente por um pouquinho de atenção verdadeira! Mas aí o filme seria outro!
 
'Simplesmente Amor' de Richard Curtis (2003)

Na vida adulta, os olhinhos brilhando no Natal são por outros motivos. E acho que este filme reúne algumas boas passagens da vida em clima Natalino! Romances, amores, sonhos, reconciliações...

"C.R.A.Z.Y. - Loucos de Amor" de Jean-Marc Vallée 2005

Quebrando o clima tradicional natalino, recomendo este filme sobre Zac, um menino que nasceu no Natal e durante toda vida precisou lidar com a sua sexualidade, religiosidade e família! É um filme bacana para discutir váaarios temas tabus! =)

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Existem alguns outros filmes de Natal bacanas que não entraram na listinha e há alguns que ainda não assisti como "O estranho mundo de Jack"; "A felicidade não se compra"; "O expresso polar" e afins. Ficam pra próxima lista! =)

quarta-feira, 30 de novembro de 2011

A Saga Crepúsculo - uma nova vida!


Por fim, o que me motivou a falar sobre a saga hoje foi uma leitura que considerei equivocada do penúltimo e mais recente filme, "Amanhecer - Parte 1".

Acho importante relembrar que não existe filme ruim ou bom. O que existe é a opinião de cada pessoa sobre um livro ou filme, associadoa aos aspectos levantados para formular essa opinião. Mesmo que esta opinião seja de senso comum, ainda cabe ser respeitada, já que gosto não se discute, mesmo sendo construído socialmente. (Engana-se aquele que acha que controla seu gosto! Somos mediados o tempo todo e nosso gosto também!)

O que me preocupa é a falta de reflexão sobre a relação que se estabelece com o filme. Porque gostei ou não gostei? O que acho bom ou ruim? E é preciso se esforçar em enxergar além da superfície, tentar usar toda a sensibilidade possível para conectar-se com o mundo e com tudo que faz parte dele. Seja livro, filme, pessoa ou qualquer outra coisa.  

Acho que antes de criticar qualquer coisa, principalmente um blockbuster, que é o caso da Saga Crepúsculo, é preciso  entender que existem filmes que são simplesmente realizados para agradar e entreter a plateia, e criticar esse tipo de filme, tendo em mente outro tipo de cinema é uma perda de tempo e não restará nada para falar. Será julgado como 'lixo' e ponto final! Um grande equívoco. Até no 'lixo' é possível produzir arte, não?! (Vik Muniz)

É também importante considerar que a saga foi escrita para adolescentes e no Brasil arriscou-se ampliar o público, direcionando-se a obra para mulheres de todas as idades. Outro lembrete importante é o fato da autora ser mormon e conseguir concilicar valores da sua religião (sexo após casamento, por exemplo) com uma história moderna para garotas, mesclando vampiros e uma intensa tensão sexual.

Segurar um espectador por quase 2 horas para rolar somente 2 beijos não é pra qualquer um!! (como acontece no primeiro filme da saga). É preciso criar expectativa, tensão sexual e uma conexão muito intensa (que já acontece no livro e é muito bem trabalhado no filme, para quem gosta dele!) para segurar alguém dessa forma, justamente numa sociedade onde a mulher se desvaloriza cada vez mais.

A história de amor entre Bella e Edward (Romeu e Julieta moderninho) resgata o flerte, o toque, o beijo, ou seja, o mínimo de uma relação para criar toda essa tensão e isso é genial!

Como é uma obra para agradar e entreter, é natural que em sua adapação fílmica utilize de todas as artimanhas para atrair espectadores, como expor corpos sarados (Jacob e Edward), abusar de cenas românticas e de ação. No contexto publicitário, interessado em persuadir e conquistar o cliente/espectador, o apelo ao sexo e ao humor são comuns. Essa é a fórmula do cinema industrial, aqui empobrecida por uma história que já é superficial nos livros, por conta de seu público-alvo.

Por essa razão, acho que analisar um filme como este e detonar seus defeitos é o mais fácil de fazer. Difícil seria apontar algo de bom! O esforço seria justamente de encontrar alguma qualidade em algo que se propõe ser tão atrativo e feito para corresponder expectativas.

Amanhecer - Parte 1 - uma nova vida!

Seguindo a trajetória da história de amor entre Bella e Edward, a primeira parte do livro e filme mostra o casamento entre os dois, celebração da união eterna, que será selada com a transformação de Bella em vampira, tornando o casal imortal.

Tudo corre dentro do planejado até que Bella se descobre grávida, algo supostamente inédito entre vampiros. Como um ser imortal poderia engravidar uma mortal?! Se usarmos a racionalidade não seria possível, mas desde quando ser racional respondeu a todos os mistérios da vida humana?! Quantos milagres não foram comprovados cientificamente, mas ainda assim foram milagres?! Contradizendo todas as possibilidades racionais, Bella engravida e tem uma gestação incomum, acelerada e imprevisível, onde toda sua energia é sugada por um bebê que ninguém sabe dizer o que é. Mortal? Imortal? Humano? Monstruoso?

Diante de suposições, Edward prefere não arriscar a vida de Bella e sugere o aborto. Jacob fica chocado e seu grupo de lobos resolve evitar o nascimento da criança-monstro. A família Cullen divide opiniões e Bella conta com a ajuda de Rosalie que sempre foi hostil com Bella, justamente por ser contrária a sua transformação, opção que não teve quando humana. Por haver essa possibilidade da vida, Rosalie é quem defende, protege e apóia Bella até o último momento.

Contrariando a todos e pondo em risco a própria vida, Bella está determinada em priorizar a vida da criança, tendo esperança que no último momento, seja transformada em vampira para evitar a própria morte. Com a sensação de impotência, Edward aceita a condição, sem nada poder fazer e correndo o risco de perdê-la.

Em determinado momento da gestação consegue usar seu dom de ouvir pensamentos e se comunica com o bebê. É a primeira vez que Edward aceita a nova vida em Bella e se desculpa por não ter dado o apoio que ela precisava. A união entre os dois se fortalece na formação de uma nova família, instituição valorizada pela religião cristã (e mormon).

Durante o parto a profecia se cumpre e Bella está fraca demais para enfrentar uma transformação, mas Edward desesperado em salvá-la, injeta seu veneno e a morde, com a esperança de que funcione. E funciona! Bella está imóvel, mas vemos a agonia de sua alma durante sua transformação física. O último plano é um detalhe de seus olhos e nos perguntamos, quando ela abrir, de que cor serão?! Pretos de fome? Amarelos de bondade ou vermelhos de sede?!

Neste sentido, diferente dos outros filmes, esta versão é mais mórbida e sarcástica, já que narra fatos tão incomuns. O romantismo dá lugar ao horror da transformação de Bella, agonizando em sua alma; da gestação acelerada que gera um intenso desgaste físico, revelando uma Bella cadavérica; da necessidade de Bella beber sangue para alimentar seu bebê; das conseqüências cruéis de se entregar a uma relação tão improvável como a de uma humana com um vampiro, simbolizadas com horror no pesadelo de Bella antes da cerimônia, onde todos estão mortos!

Se fosse na vida real, a história de amor improvável seria mais mórbida que romântica, é o que parece ser a mensagem do filme, mediada pelo diretor e sem necessariamente ser a do livro. Porém, o próprio livro parece ser uma ruptura com o romantismo ao apresentar todo esse show de horrores, mesclando valores da vida humana com a realidade cruel dos seres imortais. Não é um casamento qualquer, não é uma criança qualquer, nem uma família qualquer! São vampiros, bebedores de sangue, mortos-vivos, sedutores e sem alma. Vale a pena tudo isso?! É isso que Bella realmente quer?! E quais as conseqüências?!

A Saga Crepúsculo - amor incondicional


Eclipse - amor incondicional
 
No terceiro livro e filme da saga somos confrontados com a possibilidade de uma história de amor entre Bella e Jacob. Ainda que tudo gire em torno da parceria dos Cullen com os lobos nativos, que juntos lutarão contra o exército de vampiros criados pela vingativa Victória (parceira de James) para proteger Bella, o suposto triângulo amoroso entre Edward, Bella e Jacob confunde o leitor/espectador, que compartilha da mesma inquietação de Bella. Com quem ficar?! 
 
Edward mais uma vez abdica de si mesmo e permite que Bella escolha o que for melhor pra ela, se quiser ficar com Jacob. Sentimento nobre ou covardia? Poderia competir com Jacob sem ferir Bella?! Mas Bella silencia-nos quando diz que a escolha que ela tinha que fazer nunca foi entre Jacob e Edward, mas entre quem ela é e quem deveria ser.  
 
Bella diz que sempre foi estranha e deslocada entre os humanos e quando está com Edward se sente no lugar que deveria estar! Contra tudo e todos, Bella insiste em lutar pelo amor de Edward, porque é com ele que se sente completa. E para que possam ficar juntos eternamente, ela deseja tornar-se vampira e mais uma vez insiste em sua transformação. 
 
Edward aceita sua condição, desde que ela se case com ele. O desejo de tornar-se vampira significa abrir mão da mortalidade (fragilidade) e do contato com todos que ama para dedicar-se a nova vida. O casamento simbolizaria esta união eterna. Estaria Bella disposta a abrir mão de tudo pelo grande amor?! Valeria a pena?! Se pensarmos que não duramos para sempre enquanto humanos, apegar-se ao amor eterno não seria sedutor?!

terça-feira, 29 de novembro de 2011

A Saga Crepúsculo - o vazio insubstituível


Lua Nova - o vazio insubstituível!

O que Edward faria se soubesse que o amor entre os dois só faz mal a Bella?! É com este pensamento que ele resolve se afastar dela, na tentativa de ser esquecido e permitir que Bella tenha uma vida 'normal'. É um sentimento nobre, afastar-se da amada para protegê-la! É abdicar do amor-próprio em prol do outro! 

Mas Bella não consegue preencher o vazio que sente com a partida e suposta 'rejeição' de Edward, e sem a presença física dele, agarra-se à depressão, à amizade com Jacob, a busca pela adrenalina, à saudade, à dor e às lembranças. Se Edward é seu grande amor, Bella jamais conseguirá esquecê-lo. 

Quando Edward percebe a besteira que fez, acredita ser tarde demais. Por um desencontro, acha que Bella morreu e resolve dar fim a própria vida, já que não consegue e nem quer viver sem ela. Mesmo distante, acompanhava Bella e sofria em silêncio. E para que um vampiro seja destruído por vontade própria, ele precisa se expor para que o clã dos Volturi possa intervir na sua imortalidade, que elimina qualquer vampiro que ameace sua discrição e existência. É o típico drama adolescente, de não suportar lidar com a dor e desejar a morte.

Tão trágico como Romeu e Julieta, porém mais romântico, o amor dos dois é tão forte, que mais uma vez conseguem enfrentar juntos mais esta adversidade. Edward é 'salvo' no último momento por Bella e promete jamais deixá-la novamente. Esse amor que parecia não estar lá, sempre esteve e jamais se apagou! 

Além de tudo isso, nesta etapa da história, na fase depressiva, Bella se aproxima ainda mais de Jacob e ele se transforma em lobisomem, talvez outra metáfora da puberdade. Diferente de Edward, Jacob é quente e selvagem. Sua transformação não ameaça a vida de Bella e a possibilidade de uma história de amor entre os dois se contrapõe com o amor proibido de Bella. Porque não ficar com Jacob?! Tão caloroso, divertido e intenso?! Seria uma paixão passageira, diferente do amor eterno?! Jacob parece tão mais seguro, acessível e previsível. Mas não é o que Bella quer, ainda que parte do público queira!

A Saga Crepúsculo - o amor proibido

Há quase 2 anos conheci a saga Crepúsculo e ela ainda provoca em mim um sentimento de cumplicidade e anestesia. Em 2010 escrevi um texto apaixonado sobre a minha relação íntima com o filme e agora relendo, percebo que não tiraria uma vírgula do que 'desabafei'.

É comum este tipo de filme e livro, considerado blockbuster (cinemão, cinema comercial e coisa do tipo), preocupado em agradar e entreter o público (da massa) ao qual se destina, ser duramente criticado por quem não estabelece nenhum tipo de ligação sensível (os que se consideram cults ou 'verdadeiros' cinéfilos - uma grande besteira!). Sendo assim, se qualquer filme for analisado tendo um outro cinema em mente, não restará nada para falar da Saga Crepúsculo, que é tecnicamente e narrativamente fraco, não discordo. Porém, se houver sensiblidade o suficiente, é possível ver além e destacar 'pingos de singularidade' num filme que se mostra apaixonante para quem gosta.

Jamais fiz uma análise mais detalhada por escrito de toda a saga (livros e filmes) e acredito que este momento chegou. Assumo meu gosto pela Saga Crepúsculo como um prazer culpado ('O clube do filme' - David Gilmour) e hoje resolvi escrever e compartilhar minha visão sobre toda a saga, utilizando minha sensibilidade e ligação afetiva com o filme. Digo isto porque o filme sozinho não provoca nenhum tipo de reflexão ou aprofundamento sobre alguma questão subjetiva, sou eu quem dou sentido a ele, como fazemos com qualquer outro filme que nos toca de alguma forma (positiva ou negativamente). Se analisarmos apenas a superfície da narrativa veremos que é uma história de amor entre personagens estranhos e incomuns. Nenhuma novidade!

Considero essa ligação forte e por isso uma relação de punctum (Roland Barthes) onde nenhuma explicação lógica seria possível. Na tentativa de entender, sem jamais encontrar a conexão inconsciente com a história, compartilho aqui as impressões de toda saga, Iniciando com "Crepúsculo" e finalizando com foco especial no filme mais recente "Amanhecer - Parte 1".

Uma pequena análise sobre os títulos:
Crepúsculo é o momento em que o céu se torna gradiente (mistura de cores) no nascer ou pôr-do-sol, que poderíamos entender na história como o contraste entre mortalidade e imortalidade de uma humana e um vampiro (Bella Swan e Edward Cullen), que ao se apaixonar, ultrapassam as fronteiras, regras e limites de seus respectivos mundos. Essa mistura de sentimentos representa o amor proibido e na capa do livro, a mão que segura uma maçã fortalece a ideia de desejo proibido (maçã na história de Eva e Adão).

Lua Nova é fase onde a Lua não pode ser vista a olho nu, mas está lá! E Edward ama tanto a Bella, que por considerar-se um risco e para protegê-la, decide se afastar, o que causa ainda mais sofrimento a ela. Neste intervalo, Bella entra em depressão e tenta preenchero vazio que sente com a companhia de Jacob. Ainda que ele seja apaixonado por ela,  Bella não esquece Edward e na tentativa de atraí-lo se coloca em situações de risco, apegando-se a adrenalina e a dor da saudade, que é tudo que lhe resta.

Eclipse é quando um objeto celeste se sobrepõe temporariamente ao outro. Seria o amor por Edward igual ao de Jacob? Bella estaria indecisa? Ainda que um amor se sobreponha ao outro, é sentimento passageiro, pois Bella sabe exatamente de quem gosta, de quem permanece em seu coração.

Amanhecer é quando o sol aparece no horizonte, sendo um acontecimento diário (eterno?). O casamento é a celebração de uma união, e se entre imortais (vampiros), é a celebração de uma união eterna. É uma nova vida de cumplicidade e companherismo, que fará o casal amadurecer e aprender a enfrenter diariamente a vida a dois.

Irei recontar a história sob a minha perspectiva, detendo-me nos detalhes que acho relevantes. 


Crepúsculo - o amor proibido!

Bella Swan é uma jovem comum, insegura, que decide morar com o pai Charlie (policial) para dar mais liberdade a sua mãe (Renée) em seu segundo casamento. Tão fechada quanto o pai e com poucos amigos, não segue os padrões de beleza comuns de sua geração, mas por ser nova numa cidade pequena e sempre nublada, acaba chamando a atenção dos garotos, ainda que se sinta constrangida com esta atenção exagerada. 

Diante das novas amizades, ela observa um grupo de jovens excessivamente bonitos, bem vestidos e isolados dos outros alunos: a família Cullen (os casais Alice e Jasper; Rosalie e Emmet; e o solitário Edward). Edward Cullen chama sua atenção, que num primeiro contato (aula de biologia) a trata com desprezo. Isso a deixa frustrada e ela se encoraja em confrontá-lo, porém ele não aparece mais na escola.

Quando os dois tem seu segundo contato, ele age completamente diferente. É simpático, atencioso e interessado em Bella. Ela fica desconfiada, mas por se sentir atraída se aproxima dele. Rapidamente Edward se torna presente em sua vida e até possessivo. Bella se incomoda ao mesmo tempo que gosta.

Em certa ocasião, Bella quase é vítima de um acidente de carro na escola, porém Edward a protege. No hospital, ela conhece o pai de Edward, Carlisle e percebe que há algo de estranho na família Cullen e em Edward. Bella não entende como alguém tão bonito poderia notá-la e ao investigar sua 'estranheza' (pele fria, olhos caramelo, força incomum) desconfia que ele seja um vampiro e ele confirma sua suspeita.

Ainda assim, Bella continua se sentindo atraída e aceita o amor proibido. Edward tenta desencorajá-la por ter medo de não controlar seus instintos de vampiro (morder e beber seu sangue - ou sugar sua vida e mortalidade), mas fraqueja porque se entrega ao amor e desejo que sente por Bella. Ela o intriga, porque ele tem o dom de 'ouvir' os pensamentos dos outros, menos os de Bella. Para ele, ela é imprevisível e ele nunca saberá o que de fato se passa na sua cabeça. Essa sensação de insegurança e incerteza seduzem Edward, que luta contra o desejo, metáfora da puberdade, talvez - descoberta do amor, atração e tensão sexual, desejo, descontrole emocional

Em paralelo a tudo isso, Bella faz amizade com Jacob, um jovem de origem indígena, nativo da cidade, que não gosta da família Cullen e conta uma lenda sobre lobisomens e vampiros para Bella. Além disso, estranhos ataques aos moradores acontecem na cidade, deixando a família Cullen atenta aos acontecimentos.

Bella e Edward começam a namorar e esse amor proibido, ainda que apoiado pela família Cullen, que são vampiros do bem e não bebem sangue humano (apenas de animais), coloca a vida de Bella em risco ao se deparar com um clã de vampiros visitantes, sedentos por sangue humano, caracterizado pelos olhos vermelhos (o casal Victoria e James; e Laurent). O cheiro de Bella e a superproteção de Edward instigam James ao desafio de caçá-la e a família Cullen se une para protegê-la. Diferente do clã, os Cullen são vampiros do bem, tem olhos caramelo quando saciados da fome (ou os olhos ficam pretos). 

James é morto e Edward consegue enfrentar o instinto de vampiro para protegê-la. Com isto, Bella decide que quer se tornar vampira para ficar eternamente com Edward, jamais envelhecer e não correr mais riscos. Porém Edward não gosta de ser vampiro e se considera um ser de natureza cruel, já que acredita na alma humana. Os dois suspendem a conversa de Bella se tornar vampira por um tempo, enquanto Victoria, parceira de James decide vingá-lo.

São muitos detalhes para descrever, mas as características principais do primeiro livro e filme são:

-O amor proibido entre um ser mortal e imortal - bem e mal. Porém todo humano é do bem e todo imortal é do mal? A história dos dois vai revelar a fragilidade dessa relação e o paradoxo humano (que é bom E mau!). Além dos contrastes entre a mortalidade e imortalidade, que ameaça a união dos dois. Bella pode envelhecer ou morrer, mostrando-se extremamente frágil. Edward pode se descontrolar e ser incapaz de protegê-la.

-O desejo e tensão sexual entre os dois, típico da adolescência (durante o filme só rolam dois beijos - tensão sexual presente também no livro que seduz o leitor/expectador);


-Edward representa os valores da religião cristã mormon (religião da autora), que acredita na alma humana, luta contra o mal presente em si mesmo e no outro, acredita no casamento e no sexo somente depois do casamento, acredita na instituição da família e no respeito e cortejo à mulher.

-Além disso, a autonomia e iniciativas de Bella demonstram uma mulher moderna, dona do próprio nariz.

Assim acredito que a autora Stephenie Meyer conciliou a ideia que tem de ser mulher hoje com os valores da sua religião cristã mormon numa história simbólica e paradoxal, como a vida humana é.

É pelo ponto de vista de Bella Swan que conhecemos a história, destinado ao público feminino, que facilmente irá se identificar com a protagonista e com suas angústias, inseguranças, emoções e sentimentos. A sensibilidade e romantismo são típicos da mulher e a história de Meyer une as duas coisas com precisão.

No filme, o ponto de vista é onisciente, na tentativa de ampliar seu público, mesclando o romance com o suspense e ação dos ataques do clã de vampiros visitantes.

Os elementos que atraem o espectador são justamente o amor proibido (Romeu e Julieta), a busca pela imortalidade (eterna juventude e eterno amor), a redenção e o amor inconseqüente, além do suspense e tensão criados pela ameaça a vida de Bella e do amor dos dois. (Sem Bella, não há romance!) Quem não torceria pelos dois juntos e não iria querer descobrir o que irá acontecer?! 

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

"O palhaço" de Selton Mello 2011

"O gato bebe leite, o rato come queijo, e eu sou um Palhaço!"

Selton Mello escreveu (em parceria com Marcelo Vindicatto), estrelou e dirigiu este filme belíssimo sobre a crise de identidade de Benjamin, eterna busca humana retratada em um jovem palhaço (Pangaré), filho de palhaço (Puro-Sangue - Paulo José), que só possui uma certidão de nascimento surrada e passou a vida no 'Circo Esperança'

Vida difícil, meio 'nômade', sem residência fixa ou condições normais numa sociedade tão apegada ao 'material' como a nossa, porém cercada de pessoas do afeto, que tão aventureiras quanto, dedicam-se a viver com certa liberdade, brincando com a arte. Uma metáfora de quem faz um cinema 'livre' talvez?! É difícil, dá trabalho, mas no fundo, vale a pena!!

Assim como o circo, esse cinema delicado, de ritmo lento e com uma direção de arte belíssima, 'quase' atemporal, é cada vez mais raro e valorizado por um público inserido numa sociedade midiatizada, sedento por frenesia e êxtase. Filmes-anestesia não faltam, mas "O palhaço" distancia-se do lógico e narrativo, para ser um devir, um acontecer.

É um longa trajado de curta, pois se constrói em ações, silêncios, olhares e recortes. Explora o conflito interno de um Palhaço que não ri, através de seus olhos vagos, ombros caídos e sono inquieto. Pouco sabemos sobre o passado dos personagens, pouco vislumbramos seu futuro, parecem todos, congelados no tempo, mas o filme carrega ingenuidade e profundidade, própria de personagens que cresceram protegidos pela fantasia do circo, ainda que disposto de uma dura realidade do desapego material.

Benjamin encontra-se numa encruzilhada e o ventilador que tanto deseja, sugerido pela amante do pai, torna-se um cego objetivo, uma busca por identidade. Porém sem dinheiro e sem documento, como adquirir algo numa sociedade exigente por provas de existência?! Em nosso mundo, a palavra não tem mais valor, apenas o papel. Papel que nos identifica, que compra, troca, explora, violenta. RG, CPF, comprovante de residência, dinheiro!

Em certa altura do filme, em mais uma passagem do circo por uma cidade pequena, Puro-Sangue (Paulo José), pai de Benjamin, conversa com um forasteiro, que diz que o homem deve fazer o que nasceu para fazer e com a mais singela das frases, cativa qualquer coração sensível, com a sabedoria de um viajante: "O gato bebe leite, o rato come queijo e você deve fazer o que sabe fazer!" Um jeito simples de aconselhar o outro a fazer o que se gosta de fazer, o que se sabe fazer de melhor, ainda que valha a pena arriscar-se, só para descobrir o que realmente se gosta.

Puro-sangue repete essa frase para Benjamin no auge de sua crise de identidade, mas completa com '...e eu sou um Palhaço filho!" pois é tudo que lhe restou na vida, que é apaixonado e sabe fazer. Pangaré não sabe, então vai procurar numa vida estável, com emprego e residência fixa, sua verdadeira paixão. Como era de se esperar, resta-lhe tédio, mas ao ouvir os colegas do trabalho rindo, Pangaré finalmente sorri. E se antes questionava "Quem vai fazer o palhaço rir?!", percebeu que fazer os outros rirem é seu combustível, sua grande paixão.

Contente e com o novo ventilador debaixo do braço (sua identidade recuperada) volta para o circo, certo de quem é e do que gosta de fazer!

Um filme singelo, doce, delicado, que timidamente se contrapõe com os monstruosos blockbusters que se acumulam nas salas de cinema! Não que eu não goste deles, anestesiar a mente de vez em quando faz parte de uma vida em ritmo acelerado, mas quem não gosta de um 'circo' para sempre relembrar as raízes de uma 'doce infância'?!