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terça-feira, 20 de janeiro de 2015

"Boyhood" de Richard Linklater 2014


Qual o mérito de "Boyhood: da infância à juventude" de Richard Linklater (2014)?! Além de mostrar a trajetória "problemática" de uma família comum (EUA), pelo ponto de vista de um garoto, o filme levou 12 anos para ser feito, trazendo um realismo único ao mesclar o amadurecimento (e envelhecimento) do personagem com o próprio ator (e elenco). "Como ninguém fez isso antes?!" deveríamos nos perguntar diante da impaciente indústria cinematográfica que só visa lucro e faz filmes como quem troca de roupa. A passagem de tempo se torna imperceptível na medida em que as sequências "pulam" suavemente na tela, apresentando o protagonista nas mais diversas situações cotidianas. Essa sutileza só seria possível fazendo uso do mesmo elenco e com uma direção impecável. Vale a pena assistir só pela "inovação"! E detalhe: os aparatos tecnológicos também se tornam protagonistas e elementos espaço-temporais, já que assim como o personagem, evoluem com o tempo, desde a câmera analógica nos tempos escolares até os smartphones em tempos atuais.

"Invencível" de Angelina Jolie 2015


Tudo bem que "Invencível" de Angelina Jolie conta a história "real" do atleta olímpico Louis Zamperini, que sobrevive 47 dias no mar após uma queda de avião e depois é capturado por japoneses, tornando-se prisioneiro por anos, até realmente voltar para casa e viver uma vida plena. Puta história de superação. Mas precisava fazer um dramalhão?! A Segunda Guerra Mundial acabou há décadas e Hollywood continua explorando os dramas do passado. Tanta história boa recente pra contar e nada! Não derramei uma lágrima e queria gargalhar toda vez que o japa Watanabe (pelo inexperiente Miyavi) aparecia na tela. Não é que sou insensível, mas é que já cansei das artimanhas dos bastidores do cinema para fazer o público se debulhar em lágrimas. Mais dramática que o filme, é a trilha sonora, que chega a "implorar" por uma mísera lágrima do espectador!

Leia mais sobre o filme no meu texto da Obvious "Jolie, poupe-me!"

quinta-feira, 16 de outubro de 2014

Eu na Obvious!!

Oie, pessoal! Se estão sentindo falta de textos sobre filmes, confiram meu novo espaço na Revista Obvious. Agora escrevo por lá!







terça-feira, 2 de setembro de 2014

"Chef" de Jon Favreau (2014)



"Chef" é um ótimo filme para entender a relação das velhas e novas gerações e o uso das redes sociais!! Um Chef de cozinha, acostumado a ficar na sua zona de conforto, ganha visibilidade negativa no twitter ao confrontar um crítico culinário e seus comentários destrutivos. Esse foi o 'chamado' para ele se aventurar num divertido processo de auto-conhecimento e aproximação do filho e da ex-esposa!! Final clichê, mas trama interessante para pensar diversas questões contemporâneas!!

quarta-feira, 23 de julho de 2014

"O menino e o mundo" de Alê Abreu (2014)

 
O autor deste filme estava cansado das (super) animações que existiam e quis fazer algo DIFERENTE. Não melhor, apenas diferente. E criou uma obra-prima unindo seus 'rabiscos' e uma boa história. Seu filme está rodando o mundo e recebendo os principais prêmios do cinema de animação. Para mim, é o melhor filme de animação já realizado, pela simplicidade e profundidade que apresenta.
 
O traço simples do rabisco aproxima o público do criador, pois é na sua fragilidade e imperfeição, que percebemos a capacidade da criatividade e inovação humana. Somos capazes de ver que foi um ser humano que desenhou cada frame desta obra, diferente das animações atuais, onde não sabemos mais onde começa a produção humana e onde termina o trabalho da máquina. A perfeição afastou nosso olhar da singela criação.
 
Um menino que vive numa área rural (super lúdica) aventura-se no universo urbano, em busca de seu pai. É pelo olhar dessa criança que percebemos todo o impacto que a ação humana provoca no outro. A desigualdade social, a poluição, a produção em série, a sociedade do consumo e espetáculo, a exploração do trabalho, a infelicidade, o grito de liberdade das massas, o silêncio da repressão e o papel fundamental do educador de plantar sementes entre aqueles que são a esperança do futuro, as crianças.
 
Estes são alguns dos temas presentes nesta linda animação, praticamente sem fala, mas repleta de belíssimas metáforas e uma trilha sonora impecável.
 
 
 
Se você não viu ainda, recomendo que veja. E se inspire com o trabalho de Alê Abreu, que só queria fazer algo DIFERENTE do que todo mundo está acostumado a fazer cada vez melhor: o cinema de animação! =) <3 font="">

domingo, 1 de junho de 2014

Eu sou fã do FAM!

 
Mostra Outros Olhares - Curtas

"La puerta falsa" de Jörg Hiller 2001 COLÔMBIA (2)
"A classe de órgano" de Juan Carlos Maneglia 1990 PARAGUAI (3)
"El hombre de una sola nota" de Frank Pineda 1988 NICARAGUÁ (1)
"Me gustas cuando callas" de Fernando Benítez Ontiveros 2002 MÉXICO (1)
"Com nubes em los ojos" de Helkin R. Díaz 2005 COLÔMBIA (1)
"Agri ve dag" de Hasan Serin 2013 TURQUIA (2)
"Buhar" de Abdurrahaman Öner 2012 TURQUIA (4)
"Musa" de Serhat Karaaslan 2012 TURQUIA (2)
"Gerayis" de Cetin Baskin 2011 TURQUIA (2)

Mostra de Curtas Mercosul

"Satúrnica" de Cesar Netto 2013 SP BRASIL (2)
"Jairboris"  de Lincoln Péricles 2014 SP BRASIL (2)
"O jogo" de Pedro Coutinho 2013 SP BRASIL (3)
"Des(pecho)trucción" de María Ruíz 2013 VENEZUELA (3)
"O filho pródigo" de Felipe Poroger 2014 SP BRASIL (1)
"A navalha do avô" de Pedro Jorge 2013 SP BRASIL (4)
"Pekin" de Nicolás León Tannchen 2013 ARGENTINA (2)
"Diários daltônicos" de Patrícia  Monegatto 2014 SC RS BRASIL (3)

Mostra de Longas e Docs Mercosul

"La paz" de Santiago Loza 2013 ARGENTINA (2)
"A oeste do fim do mundo" de Paulo Nascimento 2012 BRASIL, ARGENTINA (1)
"El vals de los inútiles" de Edison Cájas 2014 CHILE (2)
"Cidade de Deus - 10 anos depois"  de Cavi Borges e Luciano Vidigal 2013 BRASIL (3)
"Revelando Sebastião Salgado" de Betse de Paula 2013 BRASIL (2)

Mostra Infantojuvenil

"Super plunf" de Camila Rumpf e Henrique Oliveira 2014 SC BRASIL (2)

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Notas:
(0) dispensável
(1) ruim ou fraco
(2) razoável
(3) bom - técnica ou emocionalmente
(4) muito bom - rolou um punctum
(5) excelente - marcou minha vida
(P) prazer culpado (tecnicamente ruim, mas adorei)

"Praia do futuro" de Karim Ainouz (2014)

 
Um filme de (um) homem sobre uma história de amor entre homens. Um filme corajoso e necessário ao contar uma entre tantas histórias que poucos se atrevem a contar. Que mostra o que poucos se atrevem a mostrar. Os corpos nus dos personagens se contrastam com a ausência da frequente nudez feminina. É o corpo do homem que invade a tela e se deixa invadir por outro homem. Homem escancarado porque é preciso escancarar o que tanto é reprimido. Sexo não é inimigo.
 
Minha surpresa começa pelo título. Mal sabia eu que existia uma praia com esse nome. Praia do futuro, onde tudo (e  o agora) acontece no filme. É nela que Donato (Wagner Moura) trabalha como salva-vidas e se esconde da sua homossexualidade. É lá que Donato conhece o motoqueiro alemão Konrad (Clemens Schick), fragilizado pela perda do amigo que Donato não foi capaz de salvar. É nela que Ayrton (Jesuita Barbosa) se inspira, ao ver seu irmão Donato como um herói, um Aquaman. Um homem do mar, sem saber que é no mar que ele se esconde de si mesmo. E é dela que o casal se despede, para construir a própria história em outro lugar e em um novo lar.
 
É uma história simples e delicada, com os dilemas comuns a todos nós. Sobre alguém que assume o controle da própria vida, quando se permite conhecer o novo, enfrentando o medo de si mesmo para viver sua própria verdade e história, ainda que permaneça em estado de fuga, de si, do outro e do mundo. E quem foge, em algum momento, precisará se reencontrar.
 
Ayrton representa esse papel do reencontro. Do incômodo. Daquilo com o que não queremos lidar. Konrad representa o frescor do novo, do desconhecido, do delicioso convite à aventura da vida. E Donato nos representa, em cada dilema humano, ao ter que decidir ficar em sua zona de conforto ou buscar a própria verdade, representada pela manifestação da sua sexualidade, inerente à identidade humana.
 
Negar-se é negar a própria existência e viver em constante estado de prisão, recusando a leveza da vida. É preciso ser o que se é, em estado pleno, em total entrega. Aceitar-se parece ser o caminho mais rápido para a felicidade!
 
Praia do futuro parece indicar um cinema e mundo do futuro, em que todas as histórias poderão ser contadas e vivenciadas com total entrega. É o que eu espero! =)

quarta-feira, 19 de março de 2014

"Ela" de Spike Jonze 2013 EUA

 

Eu não vou falar sobre a belíssima fotografia desse filme, que imprime em cada tomada, o estado de espírito do personagem, em sua insignificância, solidão ou profunda paixão e confusão. Estados de espírito que todos passamos ou passaremos em nossas vidas amorosas.

Não vou falar da direção de arte minimalista, que nos apresenta um futuro possível, na simplicidade das cores sóbrias, decoração clean e no destaque quente para o quê e quem mais importa na história contada.


Não vou falar dos trabalhos anteriores do diretor/roteirista (fingindo que sei isso de 'cor'), nem do reconhecimento que teve ao ser premiado este ano com o Oscar de melhor roteiro original, por contar a história de um homem que se apaixona por um sistema operacional num universo onde isso é comum (e cada vez mais realista), quando na verdade, o que ele queria (e assume), era falar sobre relacionamentos e os estados de espíritos pelos quais passamos, em cada etapa de nossas vidas amorosas.

Não vou nem falar do nome dos personagens ou atores que os interpretam, quando poderiam ser apenas Ele e Ela. Esse ela, que é só um outro, sem rosto, sem toque, sem sexo, só voz.

Não vou falar e nem trazer referências possíveis, já que o filme aborda questões contemporâneas como o isolamento social, o ciberespaço e as novas relações com as novas mídias; as aproximações com o pós-humano e o contexto social desapegado à matéria.

Eu prefiro não. Eu prefiro não!

Eu vou falar com a alma, porque esse filme tocou minha alma ou alguma coisa muito profunda dentro de mim, que prefiro chamar de alma. É de lá que vou falar desse filme, porque coisa assim me parece rara. E tudo que é raro, é especial!

E faço isso acompanhada da trilha sonora desse filme, boa parte composta por Arcade Fire (seja lá o que isso significa), que eu não conheço, não conhecia e não pesquisei nada para aqui escrever sobre. Mas é uma trilha que me marcou profundamente, que toca no som do meu carro enquanto devaneio pelas ruas da cidade, às vezes sorrindo, às vezes em lágrimas, ora agradecendo por estar viva, ora por ter vivenciado um momento difícil, e de vez em quando me faz lembrar desse filme, dessa sensação do vento tocando meu rosto, de girar de felicidade, de chorar durante o banho quando sinto a mais profunda solidão.

 

Solidão que já senti no vazio do término de um relacionamento, de enxergar alguém íntimo como um estranho, de viver os dias sem ânimo, ligar o piloto automático da vida, de achar que a dor nunca vai passar, de sentir um buraco dentro de mim,  e depois preenchê-lo quando eu menos esperava. Encher esse buraco de amor, de paixão, amizade, carinho, felicidade. De me descobrir no outro e tudo fazer sentido. De compreender que toda a dor valeu a pena para vivenciar tanto amor. De encontrar equilíbrio no outro e em mim. De encontrar paz! Encontrar pureza. Encontrar delicadeza! E não se importar mais com o mundo, com o que os outros pensam e acham, mas só com o mundo dentro de mim. De aprender a amar e ser amada incondicionalmente!


E ainda que esse dia chegue, de compreender o amor incondicional, os conflitos internos nunca terminam, não é mesmo?! Continuamos buscando respostas para o que sentimos e esperamos que os outros possam aliviar nossa dor, mas a verdade é que ninguém 'outro' sabe, só você sabe o que vive, o relacionamento que vive e como se sente nele. 

O que você acha? pergunta ele a ela, uma amiga. "Eu não sei. Eu não estou nesse relacionamento pra saber!" 

Mais do que um homem que se relaciona com um sistema operacional, é um filme sobre os altos e baixos dos relacionamentos amorosos. Um filme sobre ele e ela, mas ELA é só o outro. É só uma voz, um alguém, uma projeção de alguém. É um filme sobre a dor do fim, a dor da insegurança, a dor de não ser mais amado ou ser incapaz de amar e se entregar. É também um filme sobre a paz e alegria de amar, de aprender a amar e ser alguém melhor, nem que seja para alguém que ainda irá surgir.


É um filme que toca cada pessoa de uma maneira, já que cada pessoa no momento em que assiste, está vivenciando diferentes tipos e níveis de amor. Há os que nunca se apaixonaram e talvez não compreendam a poesia visual deste filme. Sentir por imagens. Estar num lugar, mas se sentir em outro ao fechar os olhos, ao ouvir uma música, ao lembrar de um beijo ou voz. 

Há os que estão apaixonados, e talvez achem o filme incapaz de dar conta de toda a explosão que sentem. Explosão inexplicável. Pura cegueira! Amor idealizado.

Há os que acabaram de romper ou estão infelizes na relação que vivem, e ver este filme é se identificar com a dor do vazio ou da relação que se desgasta com o tempo. Do amor idealizado que não se confirma. Da angústia de se deparar apenas com uma projeção do outro, mas jamais com ele mesmo. É se identificar com toda a incompreensão, insegurança, controle e mudança que um relacionamento sofre. Pessoas que se transformam de maneiras diferentes e nem sempre continuam fazendo sentido juntas. Tornam-se incompatíveis, mas demoram a perceber ou não estão prontas ainda.

Há os que amam! Que sentem um amor incondicional pelo outro, que não é filho, nem parente, mas um grande amor, um parceiro, que não é sangue do seu sangue, mas um estranho que se torna íntimo e alguém que te conhece em toda sua profundeza de qualidades e defeitos. Que ama incondicionalmente o 'pacote completo'. Que torce pelo outro, mesmo que isso signifique libertá-lo de si. Que mostra o mundo, ensina e apresenta coisas novas (livros, filmes, ideias, amigos,...) e ajuda a tornar o outro uma pessoa melhor, mas ao fazer isso, às vezes, precisa lidar com a insignificância que passa a ser e ter para o outro, e precisa libertar esse outro para vê-lo feliz. O mais puro amor incondicional!

E há aqueles que compreendem que o amor incondicional é eterno enquanto dura e que...tudo bem! Tudo bem! Contagia-se com um pouquinho que o outro deixa de si e prepara-se para encontrar novamente o amor. Coloca-se a disposição para o que der e vier e ser feliz sozinho ou acompanhado, mas sempre completo! O amor incondicional por si mesmo! =)

E há ainda outros tipos mais de amor, indefiníveis, inexplicáveis, inconstantes, que não se pode medir, definir em palavras, que só sentimos e passamos a vida tentando compreender. Quem sou eu para estar aqui fazendo isso, não?!

Nem ele, em 'Ela', é capaz de se compreender... 


E às vezes, mas só às vezes, alguns filmes, músicas, livros, histórias, sempre histórias, nos ajudam nesse processo. Confirmando ou acrescentando sobre o tipo de amor que sentimos!


'Ela' me toca desta maneira. Fala do amor de diferentes formas. E como é difícil descrever o amor, não?! Como é difícil entender o amor nessa tentativa trágica de rotular quando ele não se encaixa em nada. Ele só....é. Só existe. Só nos invade. Só nos ensina. Permite. Engana. Machuca. Cura. Contagia. 

O amor. Ela. Ele. Nós. Você. E só. =)

terça-feira, 11 de março de 2014

"No" de Pablo Larraín 2012 Chile

 
 
"No" é um filme baseado no manuscrito não publicado "El Plebiscito", escrito por Antonio Skármeta, dirigido e roteirizado por Pablo Larraín, e retrata os bastidores de uma campanha publicitária bem sucedida no Chile em 1988, num período pós-ditatura militar, onde o povo foi convocado a votar num plebiscito que decidiria SIM, pela permanência do General Augusto Pinochet e NO, por sua saída imediata, com direito a 15 minutos diários de propaganda para cada campanha (atendendo pressões internacionais), após um período de 15 anos de silêncio para a oposição.
 


 
Apesar da (falsa) ideia de democracia ao convidar o país a votar, o clima no país é tenso e  para qualquer tipo de manifestação, a violência policial predomina, inclusive para a equipe que elabora os VTS da campanha NO. Ameaças silenciosas, intimidação, nada foi suficiente para impedir o sucesso - improvável - de uma campanha contra a ditadura. Virou questão de estado!

Sim, o filme é uma ficção repleta de realidade, inclusive na participação de personalidades - já com as rugas do tempo - que participaram da campanha (verdadeira), presentes em cenas que ajudam a reconstruir os bastidores de uma campanha que transformou a história.
 
René (Gael García Bernal) é o publicitário com olhar inovador que bola esta campanha inusitada (e real!) focada no sentimento de alegria e liberdade que o povo poderia sentir sem Pinochet, ao invés de focar em todas as atrocidades de seu governo, como bem queriam todos os 17 partidos da oposição. Como conscientizar uma população já assustada?
 
O protagonista sofreu com a ditatura, mas colheu bons frutos do exílio (nos EUA) com seu pai, ao absorver a cultura pop da década de 80 e imprimir em seus trabalhos um aspecto alegre e cativante, sempre preocupado com 'o atual contexto social onde o comercial se insere', frase que profere cuidadosamente na apresentação de cada trabalho.
 
Essa mesma alegria, estrategicamente presente nos comerciais de TV, que nos instiga a comprar cada vez mais coisas 'inúteis', e contribui para um consumismo inconsciente, com a falsa sensação de trazer felicidade, foi a mesma que contagiou o povo a derrubar Pinochet e enfrentar o medo da repressão. Perigosa alegria, não?!
 
 
Através de René podemos observar todo o processo criativo de uma campanha, desde os rabiscos do designer para bolar a logo; o debate da equipe de criação durante um piquenique na praia sobre o público-alvo e as estratégias para atingir este público; os momentos de inspiração do publicitário ao brincar com o trem do seu filho; as pré-montagens para apresentação de proposta de comercial; os debates de propostas com ideias divergentes; o contraste entre as duas campanhas, além do filme nos brindar com os originais comerciais que marcaram profundamente a história do Chile e do mundo.
 
E é a presença destes comerciais originais que parece moldar toda a estética do filme, já que para ambientá-los num contexto tão contemporâneo, foi preciso incorporar visualmente toda a estética pop dos comerciais dos anos 80 na confecção das tomadas, em suas cores, grafismos, movimentos de câmera, edição linear, produzidas num estilo mais documental, menos planejadas e mais intimistas, criando um cenário possível e realista para exibição dos comerciais originais.  Equilíbrio puro!
 
Mais do que um filme sobre o papel determinante de uma eficaz campanha publicitária utilizada com a boa (será?) finalidade de derrubar um ditador, é também um filme sobre o poder persuasivo das propagandas. Alegria perigosa!!

 

quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

"O som ao redor" de Kleber Mendonça Filho 2013 BRASIL


Quando um filme é super premiado, você acaba criando expectativas e esperando algo extraordinário, quando ele é justamente sobre o que não é extraordinário.
 
Um filme que não se propõe a ser poesia de nada, mas é a sua não-poesia que o torna interessante e inovador.
 
"O som ao redor" fala realmente sobre o som ao redor das coisas mundanas, principalmente das coisas cotidianas de personagens que ajudam a compor parte da classe média de um bairro do Recife. Histórias cruzadas, cada uma com sua particularidade, como um herdeiro de imóveis e seu avô com ar mafioso, as vizinhas que se odeiam, os vigilantes da rua, o casal que se beija escondido, os flanelinhas, entre tantos outros personagens passageiros ou fixos que ajudam a compor um período comum de vidas comuns.
 
Nenhum grande obstáculo ou objetivo de vida nos é mostrado, nem mesmo um personagem principal, mas apenas fragmentos de histórias, como a de um romance passageiro, o carro arrombado, o primo mau caráter, uma dona-de-casa que fuma maconha e se masturba com a máquina de lavar, o cachorro que não para de latir, o vigilante dorminhoco, a televisão nova de 42 polegadas, a reunião de condomínio, a aula de inglês das crianças, a festa de 15 anos da neta querida, o rapaz que traz a água, entre tantos personagens e acontecimentos da vida, quase nunca lembrados ou mostrados nas múltiplas histórias contadas no cinema.
 
Parece ser um filme sobre o vazio, sobre o nada, sobre o comum, articulado com os sons que narram nosso cotidiano.  Cada um desses fragmentos poderia se tornar uma história extraordinária, mas não é o que faz Kleber Mendonça. Ele parece realmente querer nos tocar através do nada, tal como a arte contemporânea consegue fazer. Tocar-nos para o banho de mar no meio da noite, para os olhos que piscam e não protegem, para o banho de cachoeira em família, para o menino que sobe no telhado, para os pesadelos na madrugada ou para os corpos nuns sobre a cama.
 
Um filme sobre as pessoas que se cruzam, todos os dias, mas nada de extraordinário acontece. Um filme sobre as nossas vidas, quando nada de extraordinário acontece. Um filme extraordinário (será mesmo?) sobre coisas que não são extraordinárias,  e que estão dispostas diante de nossos olhos e ouvidos diariamente. Basta ter um olhar (e ouvido) 'extraordinário' para compreender porque de vez em quando precisamos de filmes assim!

PS: E se você ler que o filme é sobre o impacto que um grupo de vigilantes provoca no bairro. Esqueça! Não existe impacto nenhum. Isso é o que o mercado cinematográfico (e os desinformados que perpetuam esse discurso) precisa dizer para tornar o filme mais interessante no circuito comercial. Cada personagem novo só integra esse cotidiano banal. Nada mais! =)

"Álbum de família" de John Wells 2013 EUA

 
Quem não tem uma família complicada?! Ou pelo menos, quem não teve algum conflito familiar na vida?! Se você já teve, prepare-se, ao assistir a este filme, você verá a maravilha que é sua família!! "Álbum de família" é um soco no estômago! Porque o que ele te dá de delicado, ele pega de volta e devolve com acidez e crueldade dobrada!
 
O filme abre com uma voz masculina dizendo esta frase: "A vida é muito longa!", combinada com um tom nostálgico. A voz masculina é do personagem Bev (Sam Shepard), escritor e aparentemente infeliz no casamento, que em seguida  emenda que muitas pessoas já vividas também pensaram isso, mas foi um autor, T.S. Eliot,  que a escreveu pela primeira vez, e agora, quando você quer pronunciar ou escrever esta frase, precisa citar o autor. Ele ri. Eu também.
 
Bev (de Beverly) é casado com a difícil Violet (interpretada com extrema competência pela magnífica Meryl Streep), diagnosticada com câncer de boca terminal, viciada em cigarros e remédios, e craque em fazer um cruel jogo psicológico com suas 3 filhas: Barbara (Julia Roberts), mãe e mulher traída; Karen (Juliette Lewis), 'periguete' depois dos 40, e Ivy (Julianne Nicholson), serena, mas cheia de rancores e dilemas.
 
O suicídio (discreto) de Bev unirá as 3 irmãs para decidir o que fazer com a mãe e com sua própria vida. E para que o circo fique completo, a irmã de Violet, Mattie Fae (Margo Martindale), com o marido Charles e o filho Little Charles (Benedict Cumberbatch) também aparecem. Além da presença do ex-marido (Ewan McGregor) e a filha adolescente (Abigail Breslin) da amarga Barbara e o noivo Steve (Dermot Mulroney), da periguete Karen.
 
Com tanta gente reunida, ficaria difícil não haver troca de farpas, desafetos e grandes revelações e conflitos, depois da morte do homem que parecia neutralizar aquele bando de 'loucos'.
 
 
O filme é baseado numa peça de Tracy Letts e mantém o caráter teatral com muito jogo de cena entre os personagens, com diálogos intensos, rápidos e ácidos, sempre confinados aos cômodos da casa, raramente transitando em outros espaços. E não existe lugar melhor para uma boa briga de família do que a mesa de jantar, onde as diferenças se tornam evidentes, e o riso pode rapidamente dar lugar a um comentário cruel e um prato quebrado.
 
E toda vez que você se deparar com certa doçura e delicadeza no filme, além do constante sarcasmo, prepare-se que em seguida, vem um soco no estômago!
 
 
Uma destas cenas doces é quando Little Charles ao piano canta uma canção de amor para Ivy, seu romance proibido, e sua mãe entra no recinto e rispidamente desfaz o clima. Ela está sempre o menosprezando, na verdade. As lágrimas que brotavam dos meus olhos, rapidamente secaram, diante da insensibilidade da mulher. E quando você acha que não poderia piorar, ela faz a revelação mais bombástica do filme. Outro soco horrível no estômago!!
 
 
Ao ver tanto desamor, senti até felicidade de ter uma família mais 'normal'. Às vezes precisamos do contato com o outro para perceber que a vida não é tão ruim quanto pensávamos. Mas, é claro que de vez em quando, fica difícil não pensar como a vida é loooooonga para aturar tanta baboseira! Viva a família, no amor e na dor! =)

terça-feira, 14 de janeiro de 2014

"A vida secreta de Walter Mitty" de Ben Stiller 2013

 
Nos últimos anos, Hollywood parece ter decidido contar histórias atreladas às grandes marcas e o universo virtual (como era de se esperar. a cultura espelha o meio e vice-versa), como Facebook, Apple, Google e agora, a Revista Life. Que ótimo! Porque com o filme A Rede Social, (de David Fincher, 2010) pudemos conhecer melhor os bastidores da criação de uma rede social, o Facebook, na perspectiva de seu criador e o universo virtual que o envolve, além do atual conceito de 'nuvem na rede' (as informações ficam sim armazenadas num espaço físico, ok?! que no filme, começa num quarto de estudante universitário), que ajuda a compreender alguns dos impactos sociais que as novas mídias vem causando. Tem que ver!
 
No ano passado fomos premiados com o filme Jobs (de Joshua Michael, 2013), e pudemos compreender a criação de um ícone, a Apple, por seu idealizador, Steve Jobs (Ashton Kutcher) e uma maneira diferente de ver e fazer as coisas. Compreendemos melhor o conceito de economia afetiva, ao comprar uma ideia e não apenas um produto, como acreditava Jobs. Apple não é só uma marca que vende produtos, é uma ideia, uma ideologia, e quem se identifica com ela, torna-se fiel, não importa quanto isto custe. Considerada a empresa mais valiosa do mundo, o filme nos apresenta parte do universo empreendedor de Jobs e como a habilidade de 'saber vender' é a chave para o sucesso.  
 
Os estagiários (de Shawn Levy, 2013), é uma comédia mais superficial, mas que aborda o universo criativo do Google e apresenta o conflito de gerações, através de dois personagens quarentões, Billy (Vince Vaughn) e Nick (Owen Wilson), ótimos vendedores de lojas físicas, que precisam se adequar a uma nova maneira de vender e pensar virtualmente, no universo Google. O novo perfil de profissional nos é apresentado como alguém criativo, dinâmico, multitarefas, representando no filme pelas novas gerações, mas que precisa aprender a vivenciar experiências (para além da fantasia e imaginação) e dominar a habilidade da comunicação, mas não só a virtual, como bem representam os quarentões do filme.  
 
E é com essa simpatia, humor e delicadeza, que temos Walter Mitty, um funcionário da Revista Life (prestes a se transformar em mídia digital), responsável pelos negativos da versão impressa e com uma mente fértil, mas com pouca história pra contar. Baseado no conto de James Thurber (1894-1961) e dirigido e estrelado pelo engraçado Ben Stiller, A vida secreta de Walter Mitty é um filme que exige sensibilidade para ver a delicadeza que possui, além de ser engraçado e até clichê.
 
Walter é um homem comum, aprisionado a sua zona de conforto, de não ter a coragem para viver as aventuras que imagina. Quantos de nós somos assim, não?! Quando a revista anuncia a migração para a plataforma digital, Walter é responsável pela foto da última versão impressa. Este é o pontapé inicial, a chamada (real) para aventura que ele estava precisando. E a jornada em busca dessa última foto, com o aventureiro fotógrafo Sean O’Connell (Sean Penn),  provocará profundas transformações no personagem. Até aí, há muitas histórias parecidas e previsíveis como essa, afinal a jornada do herói é sempre essa: cumprir uma jornada e se transformar ao final, com ou sem final feliz. Mas com sensibilidade suficiente, é possível ver mais.
 
A cena mais singela do filme, é quando Sean (que me lembra Sebastião Salgado, em suas múltiplas aventuras pelos confins do mundo) se prepara pacientemente para ver o leopardo das neves (gato-fantasma) e Walter o encontra e o questiona "Você não vai tirar a foto?". Sean, que esperou pacientemente pelo precioso momento, diz que não, porque às vezes o momento onde ele se encontra é tão bom, que ele não quer ser distraído pela câmera. Ele prefere vivê-lo, já que é passageiro. Viver o que não pode ser registrado, viver o que não pode ser imaginado. A fotografia do instante não daria conta do instante vivido!
 
Esta foi umas das passagens mais sensíveis e leves que já vi e acaba por ilustrar alguns dos nossos dilemas de vida. Deixar a imaginação de lado e se arriscar mais a viver ou parar de esvaziar nossas vidas com os registros, apenas eles, tão comuns e bombardeados ultimamente (não me excluo dessa!) para realmente apreciar o momento, tão passageiro, tão efêmero e delicado.
 
Certo dia, me peguei dizendo 'ei tem que ter FOTO do brinde' e meu marido disse 'não. tem que TER o brinde!". Já pensamos em formato de imagens. Eu penso. Construímos nossa vida visualmente, como numa timeline mental, e às vezes, momentos que parecem irrelevantes para um bom álbum (virtual), deixam de ser vividos e apreciados, porque não dariam uma boa foto, um bom registro.
 
Conheço várias pessoas que se entregam ao mau humor e tédio por não ter acesso à internet em determinados lugares, sejam eles com vistas belíssimas, pessoas interessantes e experiências diferentes. Se não pode ser registrado, parece que não foi vivido. E às vezes eu realmente tenho esse sentimento,. Mas às vezes também nem desperdiço meu tempo tentando tirar a foto de um pôr-do-sol, ou de um sorriso, porque a foto é incapaz de captar o que sinto e vejo naquele momento.
 
Esta passagem singela do filme me fez pensar sobre isso. Sobre o vazio do instante e sobre aquilo que não é mostrado. Precisa ser? Pensei sobre a beleza que ainda existe no mundo, nem sempre revelada, mas talvez seja bom que seja assim. Que o que é intocado, permaneça intocado. Que cada um possa enxergar a beleza dentro de si, no instante em que estiver, num momento que não queria deixar de estar. São preciosos e passam rápido.
 
Mas talvez só eu veja tudo isso no filme. Não importa. Ele me trouxe leveza, alegria e sorriso. E a certeza de que Ben Stiller adora a palavra little em tudo, como se fosse realmente engraçado.
 
A vida secreta de Walter Mitty (sendo um filme sobre o universo - superficial - da fotografia) não pecou na excelente fotografia, mesmo que os espaços e lugares, como a Groelândia e a Islândia, contribuam pra isso. Ele tem um humor desnecessário, que poderia ser contornado com maior seriedade nos diálogos e construções das cenas, mas é Ben Stiller, gente! Vamos perdoar o cara! Ele tenta! Esse humor torna o filme mais superficial, porém a imaginação fértil de Mitty precisava criar o impossível, para que pudéssemos avaliar o que era real e o que era fruto de sua imaginação, tal como o conto parece ser.
 
Se vale a pena? Só você poderá dizer. =)

"O lobo de Wall Street" de Martin Scorsese 2014

 
Quando você procura levar a vida com mais leveza, (ou pelo menos eu) vai ficando difícil gostar de filmes com tramas tão pesadas e desnecessárias, ainda que inspiradas na 'dura' realidade da vida. Neste caso, realidade do universo sórdido (e ilegal) do mercado de ações e seu slogan de ganhar dinheiro, sem medir as consequências.
 
Um garoto pobre que queria ser rico e era esperto o bastante para atingir seu objetivo em pouquíssimo tempo. Aprendeu o suficiente para abrir o próprio negócio e conquistar gente desonesta o bastante para enriquecer e enganar os outros (endinheirados ou não) com ele. Diante de tanto dinheiro, sexo, e principalmente drogas contribuíram (como sempre) para o declínio dessa brilhante e ilegal trajetória.
 
Foi interessante (na condição de 'pesquisadora' curiosa) conhecer esse mundo 'sujo', mas não gostei do filme. Eu saí enojada. Isso é bom?! Se era o que Scorsese queria, conseguiu. Mas isso é bom?!
 
Em um parágrafo, eu poderia dizer que o filme foi esclarecedor (e exagerado) sobre o assunto (mercado de ações), tal como o pesado e inovador Cidade de Deus (Fernando Meirelles) foi sobre o mundo do narcotráfico. A combinação de humor e violência funcionou novamente. A atuação de Di Caprio foi excelente (mil personagens em um só. vale prêmio), mas detestei a figura feminina no filme, claro. As mulheres são retratadas como objetos, troféus e descartáveis, tanto nos papéis das esposas (traídas, fúteis, espancadas), como das 'milhares' de prostitutas que ajudam a ilustrar o mundo sórdido dos homens ambiciosos e sem escrúpulos. O filme já começa com Jordan Belfort (incorporado pelo premiado Leonardo Di Caprio) ganhando um boquete no carro. E é esse papel de submissão que a figura feminina vai desempenhar por todo o filme.
 
Eu já vi alguns filmes de Scorsese, mas ainda não soube identificar sua linha de raciocínio e estilo. Ação? Sarcasmo? Se existe algo de destaque no filme, é o humor e os diálogos depravados entre os personagens. O impossível e inesperado se torna engraçado, mesmo que seja um riso nervoso. Era pra ser engraçado? Di Caprio dá vida ao personagem, mas começa a revelar traços permanentes da parceria entre ele e Scorsese. O mais do mesmo, como diria meu marido. 
 
Mas porque continuo achando este, um filme tão desnecessário? Seria minha visão mais 'pollyana' da vida? Seria a repulsa pelo papel feminino no filme? Seria por ver um personagem que até simpatizei (porquê diabos!) não se dar mal no final? O que causaria este mal estar? Estaria aí, a tentativa de Scorsese? De provocar mal estar, chocar, escancarar um mundo superficial e cruel que é (ou pelo menos, um dos lados) o mercado de ações? Um misto de ambição, ingenuidade, confiança e gente traiçoeira?
 
Baseado no livro de memórias do verdadeiro lobo de Wall Street (sim, ele existiu!), a narração de Jordan dá dinamismo às cenas e ao filme, o que o torna peculiar, já que apresenta apenas o ponto de vista de quem aplica os golpes, mas nunca as 'vítimas' (ambiciosas, mas vítimas). Nem as vemos, portanto não nos identificamos com elas. Estaria talvez aí a explicação pra se identificar com o protagonista. Sórdido, mas divertido! Será?
 

quarta-feira, 31 de julho de 2013

"O substituto" de Tony Kaye 2012


 
Henry Barthes (Adrian Brody)  é um (eterno) professor substituto de escolas públicas (EUA) que (aparentemente) prefere não se apegar aos alunos (nem a ninguém). Algo ruim que aconteceu no passado contribuiu para que ele tivesse a empatia necessária para se relacionar com seus alunos "problemáticos", ao mesmo tempo que o tornou alguém solitário e desanimado com a vida.
 
Oriundo de um lar "desestruturado", apresentado de forma fragmentada por um avô doente e uma mãe viciada e suicida, Barthes (sobrenome curioso, não?!) parece compreender cada jovem alma perturbada e com poucas palavras é capaz de confortar e conquistar o outro. É um 'pai', um psicólogo, um amigo, um 'substituto' de tudo isso, como todo "bom" professor acaba sendo na vida de algumas crianças e jovens. É também responsável pela formação de cada pequeno ser "incompleto" que cruza o seu caminho, e isso é um enorme fardo, quando seus atos contribuem para finais infelizes. Afinal, nem sempre dizer que tudo 'vai ficar bem' é a solução para os mais profundos dramas de uma alma perturbada. E Barthes desabafa "mas ia ficar tudo bem", quando uma de suas alunas, vítimas de bullyng na escola e em casa, comete suicídio.
 
Na sequência final do filme, Barthes pergunta quem já sentiu um peso grande, como se a vida estivesse nos sufocando. Todos os adolescentes da sala de aula levantam a mão e ele também. Então ele diz que Edgar Allan Poe também sentia isso há 100 anos e escreveu um conto chamado "A queda da casa de Usher". Ele diz que o conto não era sobre a casa, mas sobre um estado de espírito.

Esta relação que ele estabelece da obra de um conhecido autor com a vida cotidiana dos alunos, a partir das próprias experiências, é uma estratégia fundamental na prática em sala de aula. É ultrapassar as barreiras do conteúdo curricular e fazer pensar sobre a própria vida.


Este filme não é sobre um professor substituto, mas sobre o estado de espírito (atual?) de todos os professores e profissionais envolvidos com a Educação das novas gerações. É um misto de desânimo e esperança.
 
Em determinado trecho, ele desabafa com seus alunos (temporários) que ir para escola e aprender sobre as coisas é a única chance que temos de não nos tornarmos reféns de quem domina o processo da comunicação. É ser capaz de avaliar o que consumimos, criticar e recusar aquilo que não concordamos. Estaria aí talvez uma reflexão da grande importância da Educação, de tornar os indivíduos emancipados, ou segundo Hannah Arendt, capazes de viver sem depender dos cuidados de outrem. Agir e pensar por 'si próprios', ou pelo menos ter acesso a ferramentas e oportunidades que possibilitem esse pensar e agir.
 
Diariamente vemos jovens desperdiçarem o tempo vivido e passado na escola, por considerarem inútil ou desinteressante. E somente quando tiverem maturidade para avaliar, é que verão que desperdiçaram esse tempo lamentando ao invés de torná-lo mais produtivo. Ao mesmo tempo isso reflete que, nós professores e educadores, estamos falhando em nossa função, quando diante de inúmeras abordagens, percebemos que nenhuma delas funciona. Tentar outra ou desistir?!!

É preciso reinventar a escola ou ela irá implodir! (se já não implodiu).
 
Lembro na minha primeira semana de aula, empolgada com o novo desafio de lecionar, de ouvir outra professora dizer "Aproveita, que essa paixão vai passar!". Eu não compreendia como aquele sentimento poderia passar e  compreendia ainda menos, porque alguém que perdeu essa paixão, continuaria no ofício de professora.
 
Já faz 6 anos que ouvi essa frase e ainda não perdi a paixão, mas confesso que estou no caminho. Já vivo o misto inconstante de desanimar e ter esperança ao mesmo tempo. Com o passar dos anos, você entende que a experiência de professora não vai te ajudar a solucionar os problemas, porque a cada ano, em cada turma, em cada dia, um novo desafio irá se apresentar e você terá que aprender a lidar com ele. A pergunta que sempre me faço é: eu quero isso pra mim? Enquanto eu for professora, a resposta será sim.
 
O que é ser um bom professor? É ter empatia e ser capaz de ouvir os alunos, quando seus pais poderiam e deveriam cumprir esse papel? Henry Barthes diz que deveria haver um teste 'vocacional' para saber quem poderia ter filho. Deveria haver uma seleção, pois nem todos estão preparados para esta 'vocação'. Colocar um filho no mundo é assumir uma responsabilidade eterna e diária, mas parece que muitas pessoas não cumprem esse papel. E isso se reflete em escolas vazias nas reuniões de pais, que deveriam fazer parte de sua rotina. Discutir sobre a educação dos filhos, num espaço que frequentam em boa parte da vida. Mas não há tempo. Não é uma prioridade. "Que a escola resolva o que 'eu' não posso resolver!"

Esta cada vez mais difícil lidar com as dificuldades de ser professor. De entrar numa sala de aula todos os dias e não desanimar com o descaso dos jovens, dos pais, dos governos com este profissional que precisa sozinho "conquistar", ou na pior das hipóteses, "dominar" uma turma de 20, 30, 40, ou 100 alunos.
 
Mas em Barthes, como em todo professor, também há esperança. Quando ele acolhe uma jovem prostituta, oferecendo a chance de mudar sua trajetória, ele oferece perspectiva. E muitos alunos, com muita raiva de si e do mundo, só precisam dessa chance, dessa oportunidade que pode mudar suas vidas para sempre.
 
Quando me dou conta que tenho essa oportunidade nas mãos, de realmente ajudar alguém, percebo que não há valor que compense essa missão. Que isso preenche minha vida de motivos para continuar sendo professora. É um sentimento paradoxal, querer e não querer, ser e não ser. Talvez fazer bem para o outro é também fazer mal a si mesmo. Terei a coragem necessária?!
 
Manter-se passageiro enquanto professor, ou substituto, talvez seja a melhor oportunidade para manter-se apaixonado. Para não desanimar e continuar tentando, mesmo quando tudo parece desabar neste ofício. Manter-se fresco e novo na experiência de lecionar. Conhecendo novos alunos e novos colegas. Conhecendo novas escolas ou escolas que se reinventam a cada dia, para cada aluno e professor.
 
Talvez para Barthes, ser um bom professor é viver o desapego. É estar ali somente o necessário para oferecer perspectivas e depois recomeçar num novo lugar. Não se acomodar ou deixar que a paixão se desgaste, porque se ninguém mais quiser cumprir esse papel, o que será de todos nós?!! 

segunda-feira, 15 de julho de 2013

"Amour" de Michael Haneke 2012

 
Não é todo dia que assisto um filme que eu gosto muito, mas é ainda mais raro assistir um filme que eu deteste a ponto de querer falar sobre ele. Este filme me inquietou e perturbou, justamente porque não me chocou, mas revelou uma parte recente da minha vida que eu não escolhi viver. Eu aprendi a lidar com essa experiência, mas eu cumpro um papel secundário e meu sofrimento não se compara ao de quem se tornou protagonista.
 
Eu me identifiquei tanto, que percebi que talvez nós só gostamos (ou toleramos) de nos identificar com a fantasia da dor, mas jamais com a própria realidade, que é tão dolorosa. É um não querer ver a verdade 'nua e crua'. É um desejar fugir e não encarar nossos piores medos e 'fantasmas'.
 
Percebo que é o fato de eu não gostar desse filme, que o torna brilhante em sua proposta.
Ele revela o quão entediante e desgastante é cuidar de um paciente que sofreu avc. A sensação de impotência, o não reconhecimento do ser amado, a impaciência que nos consome e o monstro que podemos nos revelar.
 
Haneke fez um filme sobre uma mulher idosa que sofre um avc, e como esse acontecimento destrói e desgasta qualquer indício de amor entre o casal protagonista.
 
Não é um filme sobre o amor, mas sobre o desgaste dele e de todas as pessoas que vivenciam os momentos de sofrimento de quem definha numa cama e regride em seu desenvolvimento. É o "Benjamin Button" que ninguém deseja viver ou conviver.  É o voltar a ser uma criança na velhice, totalmente dependente e despreparado para tamanha experiência. Como cuidar e voltar a ser, mesmo sem querer, uma criança de mais de 80 anos, que não se desenvolve e regride a cada conquista?
 
Vivenciar a experiência do avc, é morrer e matar aos poucos o laço afetivo que une casais, famílias e amigos. É uma experiência que ninguém deseja, ousa fantasiar sobre ela e lamenta quem sofre.
 
Mas quando se vive e convive com esta experiência, é possível descobrir muito mais sobre si mesmo do que se imagina. Descobrir uma força que não se imaginava ter, sentir-se mais próximo daquele novo ser, e sentir saudade de uma pessoa que não existe mais. É possível sim encontrar beleza, mesmo na dor, mas esta não parece ter sido a intenção de Haneke. Ele preferiu nos revelar o que há de pior.
 
É doloroso lidar com vítimas de avc, mas também desafiador. E cada um exerce um papel diante desta condição cruel. Há os que assumem o papel de cuidadores, por obrigação afetiva (ou não), como Georges (Jean-Louis Trintignant), que conforme definha sua esposa doente, definha também seu amor por ela e por si mesmo. Há o papel de quem lamenta, mas prefere fugir ou agir como visita, como Eva (Isabelle Huppert), filha do casal, residente no exterior, que não sabe lidar com a situação, mas também não se envolve o suficiente para ajudar. Apenas lamenta, discorda do pai e se desgasta de preocupação, ao ponto em que ele mesmo diz algo do tipo "a sua preocupação não me é útil, então não me faça perder meu tempo, que eu tenho minhas próprias ocupações."
 
E há o papel da vítima, como Anne (Emmanuelle Riva), que sofre com sua condição, torna-se impertinente e desconta sua raiva naqueles que ama. Deseja a morte, mas não significa realmente um querer. É um ato de desespero e sofrimento. É a morte do amor próprio, tão necessário para suportar a vergonha, humilhação, dependência e fragilidade de se tornar tão incapaz. Sem ele, parece que nada mais resta.
 
Haneke foi irônico ao intitular este filme de "Amour", mas poderia haver outro título melhor?!
 
Este filme é sobre o amor que nos faz cuidar do ser amado, mesmo que isso nos mate aos poucos. Mesmo que isso revele o nosso lado mais 'monstruoso' e (talvez) também o mais 'gentil'. É sobre o amor que sentimos e não desejamos perder, então nos afastamos ou nos deixamos ser afastados, para não permitir que esse amor seja destruído. O amor apegado às lembranças. É também sobre o amor que sentimos por nós mesmos, que se esvai quando perdemos nossa capacidade de nos emancipar (ou nos mantermos emancipados). Um amor que se esvai ao nos tornarmos incapazes de nos comunicar, locomover, expressar e simplesmente sobreviver, condenados a um corpo e mente inúteis, prisões de nós mesmos, da qual jamais poderemos escapar.
 
E reforço, quem nasceu nessa prisão, jamais se emancipou e não poderia lamentar o fato, pois jamais vivenciou a 'liberdade'. Mas viver 'livre' e ser aprisionado 'em si mesmo', parece ser a pior das prisões.
 
É um filme triste e estranho, talvez por ser realista demais. Cruel e duro como a vida pode ser. E ao decidirmos dedicar cerca de 2 horas das nossas vidas para ver uma história tão triste, quanto nossa vida pode ser, eu acho que preferi não gostar. Eu realmente não gostei. 
 

sexta-feira, 6 de julho de 2012

quinta-feira, 21 de junho de 2012

16º FAM - 2012


Além de participar da Oficina de Criação Transmídia, também pude prestigiar alguns trabalhos interessantes nas mostras de curtas do FAM 2012. Seguem algumas impressões:

(em breve)

Mostra Infanto-Juvenil 

Mi primer Mundo - Documentário

Zimbú - animação em computação gráfica BRASIL

O Reino de Chocolate - animação em stop motion BRASIL

Capitão do mangue - Documentário/ficção com participação de crianças BRASIL

Bud´s songs time - animação em computação gráfica BRASIL

Lápis de cor - ficção BRASIL

Mostra de Curtas Mercosul 

Ribeirinhos do asfalto - ficção BRASIL

El Hombre que estaba entre la gente - ficção

Imperfeito - ficção BRASIL

Quando morremos a noite - ficção BRASIL

quarta-feira, 16 de maio de 2012

"Dois Coelhos" de Afonso Poyart 2012


Como fazer um filme de ação e romance, sobre corrupção e criminalidade no Brasil, sem se repetir?! 

Talvez excluindo quase toda crítica social e explorando ao máximo todos os recursos tecnológicos disponíveis em equipamentos de alta resolução e da computação gráfica de (muita) qualidade na pós-produção.

 

Há muito tempo o Brasil tenta competir no mercado cinematográfico, buscando uma identidade própria ou na maioria das vezes, reproduzindo os clichês dos filmes hollywoodianos, mas sem os mesmos recursos e qualidade técnica, como podemos observar no fraquíssimo "Segurança Nacional" de Roberto Carminati (2010), as tentativas acabam falhando e desperdiçando 'nosso' dinheiro em produções de baixa qualidade e pobreza cultural.

Se "Tropa de Elite 1 e 2" de José Padilha e "Cidade de Deus" de Fernando Meirelles conseguiram (com sucesso) unir ação, crítica social e autenticidade, ao tratar da violência urbana, presente no cinema nacional desde o início, com "Os estranguladores" de Francisco Marzullo (1908),  "Dois Coelhos" foge da crítica social, mas abusa dos efeitos especiais e da estética vídeogame para contar uma história de forma dinâmica. Qualidade estética não falta e acaba dando conta de uma narrativa confusa e superficial.


A trama não-linear é protagonizada pelo perturbado Edgar (Fernando Alves Pinto), que narra
sua vontade de combater a corrupção (presente na maioria do poder público e sistema de justiça) e a crimilidade (e suas vítimas diárias) que o rodeia em único 'plano de ação', numa espécie de 'justiça com as próprias mãos'.

Aos poucos (através de narração e grafismos super dinâmicos) vamos descobrindo a relação entre os personagens (político corrupto, advogado criminal, bando, etc), e a ligação de Edgar com a promotora Julia (Alessandra Negrini), envolvida com criminosos, extremamente ambiciosa e vítima da síndrome do pânico.


Essa síndrome do pânico recebe uma atenção especial no filme (a produção e pós-produção levaram 5 meses), ao ser descrita visualmente de forma simbólica e surrealista, onde a personagem luta contra 'bichinhos' meigos e assustadores, como o próprio medo humano.

Além disto, para que as cenas de ação criem expectativa, a super câmera lenta, no estilo 'bullet time' (Matrix) foi incorporada em diversas cenas de tiroteio e acidentes automobilísticos. Retardar a imagem em cenas de ação para criar expectativa, sempre representou sucesso garantido, desde a seqüência da "escadaria de Odessa" no filme "O encouraçado Potemkin" de Serguei Eisenstein (1925).

Se algo da história não fica claro momentaneamente, o diretor e autor Afonso Poyart, experiente em vídeos publicitários, reforça explicações para que nenhum espectador fique confuso, o que empobrece sua proposta fílmica.

Não posso negar que o filme é atrativo e dinâmico, e nem afirmar que é totalmente previsível, mas todo filme que se 'explica', acaba também se enfraquecendo. Porém isso não é motivo suficiente para desmerecer um filme que merece ser comemorado, já que abre as portas para um "novo" cinema nacional e as possibilidades da pós-produção em computação gráfica, efeitos especiais bem feitos, com absoluta qualidade!

Poyart mostrou que é possível fazer um filme de ação bem feito, com extrema qualidade, criativo, autêntico, sem abusar tanto dos clichês narrativos, usando idas e vindas narrativas (receita de sucesso da série LOST), contar com um elenco de peso com ótimas atuações (realistas, orgânicas e improvisadas) e explorar novas tecnologias em sua própria estética visual. A presença do vídeogame, dos grafismos e da história em quadrinhos são o grande diferencial desta proposta fílmica.

Para o que se propõe, sendo o primeiro longa do diretor, acho o filme excepcional e competente, ainda que se renda aos padrões mercadológicos e sirva como cartão postal para o cinema hollywoodiano (seus direitos foram comprados por algum estúdio no início do mês), mas sua qualidade e inovação estética são inegáveis e portanto ele se torna essencial em qualquer repertório de espectador interessado e sedento por "novidades"!! =)